PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O que é uma patrícula?

Boris Vian an Schreibmaschine / Foto - Boris Vian at the Typewriter /Photo/ '56 - Boris Vian à sa machine / Photo
Boris Vian em 1956

Para os que pensam a ideia de pátria com cabeça de pensá-la, como fez Cioran, por exemplo, uma patrícula pode ser uma tenda pequenita no vasto areal de solidão existencial. Evocando um adágio tibetano, Cioran escreveu que «a pátria é um acampamento no deserto». Mas a pátria, e ainda sem sentimentalismo, é também uma identidade: um lugar mental de pertença.

Boris Vian, poeta genial de universos semânticos sem-fronteiras, inventou a palavra patrícula para dizer a pequenez do conceito de pátria quando tudo o que a boca diz quando profere a palavra é uma supremacia ridícula de levar rapazes para guerras que não são deles.

Vivemos justamente por estes dias o ressurgimento dos nacionalismos filhos dos patriotismos parvos: os que precisam da guerra para dizer o amor, ou a dedicação, ou até mesmo somente o orgulho que nutrem (contra os outros) pelo lugar a que pertencem.

Em nome dessa visão disforme do que pode ser uma identidade, reerguem-se hoje as fronteiras ainda ontem derrubadas, e afirma-se uma diferença sem virtudes: a que exclui o Outro, que por ser diferente constitui uma ameaça.

Nisso teve, tem, especiais responsabilidades a União Europeia, por ter permitido, apesar dos resultados que se conhecem desde há muito, a prossecução de um cada vez mais questionável projecto de comunhão entre patrículas.

A utopia fez sonhar até mesmo os idealistas mais imprudentes. Mas eis que um vendaval neoliberal devastou quase tudo.

Há porém sedimentos justapostos ao longo de séculos de que não é possível dar cabo, por mais que se tenha atentado contra as populações e os territórios – porque transportam no que são essas camadas de antiguidade.

Tornados irredutíveis pela própria passagem das horas, lastro denso, vivem na memória das células dos corpos, vivem num imaginário colectivo, vivem nos livros de História, na Literatura. Elementos que todos juntos constituem – não sem algum mistério metafísico -, uma cultura.

Uma cultura exógena ao território de partida, que se espraiou pelo Mundo, espalhando nele e em toda a parte falantes da sua Língua.

Dita, pensada, escrita, sonhada por 250 milhões de pessoas no Mundo, a Língua portuguesa é hoje parte constitutiva do Mundo: uma sua partícula elementar, nesse sentido. Capaz de narrar o Mundo todo a partir da sua cultura, e com as suas palavras.

Patrícula nem tanto assim pequena, no final de contas.

«Não habitamos um país, habitamos uma Língua. Uma pátria é isso», escreveu ainda Cioran, numa ressonância familiar do que Fernando Pessoa já havia dito. S.A.

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