PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Mulheres criadoras: o triunfo da vontade

Olho para a capa da primeira edição da revista Women on Scene (WOS) e vejo Fernanda Lapa (1943-2020) a fazer de Leni Riefenstahl (1902-2003) na peça MarleniDivas Prussianas, Loiras como Aço (Escola de Mulheres, 2014). Ali está ela, não Fernanda mas Leni, a menina de Hitler, a realizadora de O triunfo da vontade (1935), o filme composto com arte mas também com inexcedível poder de manipulação que a colocou nas fileiras dianteiras da máquina de propaganda nazi. Numa entrevista que deu aos 63 anos na sua casa em Munique, Rifenstahl dirá aquilo que é a verdade, por mais que não queiramos ouvi-la: que o nazismo vingou graças ao trágico apoio da maioria dos alemães. E então o entrevistador pergunta-lhe: «Por que não incluiu comentários no seu filme?» Leni responde com desconcertante sinceridade: «Porque o cinema é imagem e movimento. Ritmo, som. O cinema não serve para explicar, isso faz-se no teatro.» Reconheço também verdade nesta sua ideia de teatro – que estendo à dança e à performance – como palco para o comentário. Mas em 1965 isso era mais verdadeiro do que hoje. As artes performativas podem agora ser apenas belas, abstractas até, e não há nenhum problema. O caminho percorrido desde então fundiu linguagens e abriu janelas de liberdade – para, por exemplo, não dar ao texto dito em cena a centralidade no teatro.

Mas o que me interessa é a ideia de vontade – mais: do triunfo da vontade, mesmo sabendo que esta formulação fará ecoar sem dúvida em muitas cabeças uma outra frase batida e, não por acaso, emanada da máquina de propaganda do Estado Novo: o mandamento que declarava que «o bom filiado [na Mocidade Portuguesa] se educava a si próprio por sucessivas vitórias da vontade». Não me entendam mal os que preferem apagar a memória, não lembrar, não pensar: o fascismo ressurgente neste momento no Mundo é a prova de que esse esquecimento é chão para o renascimento do pensamento totalitarista, também não por acaso sempre assente no populismo, nas ideias simplórias, nos simplismos da moralidade anti-democrática, na vingança contra os mais fracos e os diferentes, nesse tipo de ideias com as quais se identificam os amargurados simpatizantes do Chega, enquanto aguardam pelo próximo timoneiro da pátria que há-de, esperam eles, fazer justiça com as suas próprias contas de enganar o povo.

Mas volto à ideia de vontade, e dos seus triunfos, de que o conjunto de testemunhos desta primeira edição da WOS é eloquente exemplo, oferecendo um generoso conjunto de auto-retratos de mulheres que criam para teatro e dança. Também lá estou, a falar (a escrever) sobre as minhas experiências de escrita para teatro, ao lado de tantas mulheres talentosas de todas as gerações que, contra tudo e contra todos se preciso, mas sobretudo a favor delas – dos seus discursos de mulheres artística, política e socialmente empenhadas, da sua representação na sociedade – insistem e persistem. Algumas a desbravar caminho e mato denso nas periferias e interiores do País, a fazer teatro com o que há – e o que há é sempre muito pouco, pois só a vontade é muita. Nesse sentido, este número compõe uma espécie de pequeno portefólio da classe artística portuguesa. Muitas ficaram de fora – talvez saibamos delas em edições vindouras.

Sem a vontade destas tantas mulheres para criar, num mundo que permanece prevalecentemente masculino, os palcos de Portugal seriam evidentemente outra coisa. E sem a sua vontade de partilhar os seus percursos esta revista não poderia existir. As suas colaborações – diversas entre si – demonstram a que ponto se sentem orgulhosas do que fazem – mas também ainda discriminadas, apoucadas de muitos e diferenciados modos, e nem todos têm que ver com a sub-representação das mulheres, mas, por exemplo, com a marginalidade ou a interioridade que o centralismo constitutivo da cultura do poder político mantém na ordem do dia. Ei-las pois, num exercício de auto-representação que as revela. Não conheço o trabalho de muitas mas gostei muito de as ler enquanto pensaram sobre o que fazem, e porque o fazem, oferecendo as suas histórias de vida, que as mais das vezes se misturam com a criação artística, como é comum nos artistas. Uma revista que é, assim, uma fantástica demonstração de vontades que triunfaram.

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Women on Scene – edição n.º 1 (Novembro de 2020)
160 pp.
Direcção editorial Natália de Matos
Coordenação Gisela Cañamero

Arte Pública (Beja) e Produções Acidentais (Almada)

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, tem-se dedicado à edição de livros - criação e produção editorial. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, por sua iniciativa editorial, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Escritora e dramaturgista, tem sempre espectáculos de teatro e poemas na cabeça.

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