PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

apontamentos sobre teatro #2

apontamentos sobre teatro_02

Pessoa grávida de um Mundo ainda em gestação (c) Sarah Adamopoulos

 

Viver é dramático e teatral

Escrevi, inicialmente, para esconjurar coisas da memória, escrevi sobre sofrimentos e perplexidades vividas, e descobri que podiam interessar outras pessoas. Pensei que o meu teatro podia talvez agir sobre a realidade de outras pessoas, gostei dessa ideia, de o meu olhar sobre certos padrões humanos poder questioná-los, como por exemplo no que respeita aos modelos prevalecentes da conjugalidade, um dos primeiros temas do meu teatro, sobre o qual compus com ironia, por vezes com sarcasmo.

Escrevi, também, para documentar. Para mostrar as coisas ocultas de que já me ocupava anteriormente, quando não imaginava sequer que viesse a escrever para teatro, mas eis que no teatro ganhavam uma outra forma, e uma intensidade particular, e que eu podia partilhar – com um encenador, com actores, com cenógrafos, com iluminadores (muito importantes, os iluminadores em teatro – o lugar de onde se vê, théatron) e com o público. Escrevi para mostrar o sofrimento (uma inclinação de raiz empática, sem dúvida), mas também a alegria ou a comicidade de se ser humano.

Escrevi para mostrar a muitos coisas que são de muitos, em que muitos pudessem rever-se, ou ver-se pela primeira vez – efemeramente, só durante aquele bocadinho que dura um espectáculo de teatro. Escrevi uma espécie de psicodrama colectivo, que interpelava a sociedade. Chamei-lhe sociodrama. Viver em sociedade é dramático. Pus uma sociedade ao espelho – diante do espelho do teatro. Por vezes com violência, para mostrar a violência, pois a violência precisa de ser mostrada como é. No teatro pode-se aumentar a realidade, dar uma outra escala ao símbolo.

Escrevi certa vez sobre a maledicência como um desporto, um exercício de linguagem sob a luz disforme de uma neurose colectiva – uma espécie de antologia diacrónica do mal-dizer. Enquanto faziam ioga (ou algo entre isso e a meditação zen, pretendendo-se abertos a outras culturas mas incapazes desde logo do silêncio), três doentes do espírito desfiavam um aparentemente interminável rosário de má-língua, até chegarem ao ódio, e depois ao fascismo. No final, uma imolação coroava com o fogo o inferno da condenação sumária do outro, qualquer que fosse.

Começava numa ponta (os artistas, obligé) e acabava noutra (os escritores de livros de auto-ajuda). Visitava todos os outros: os de outra geração, os de outra cultura, os de outros costumes, ou tão simplesmente os de outros sucessos. Três pessoas reconhecivelmente comuns arremessavam sem pudor a arma de destruição maciça que constitui a inveja nacional, a que juntavam uma também conhecida exaltação do passado, levando para a cena os nacionalismos na ordem do dia na Europa dos diferentes.

 

2.

Escrevi, noutro momento, sobre os portugueses que partiam no princípio do século XXI. Sobre os portugueses que eram corridos do seu próprio país pela geoestratégica finança mundial. Sobre os portugueses que não conseguiam ficar no seu território e construir nele um país onde pudessem viver sem ter de estar toda a hora a partir. Era Agosto. Calor insuportável na maior parte desses dias de escrita. Um nó de angústia a apertar-me – a forca do tempo, também, pois tinha perdido muito tempo numa primeira tentativa de escrita fracassada e era preciso chegar ao final de Agosto com um texto.

Numa só personagem duas pessoas lutavam: uma queria partir, a outra ficar. Uma tinha medo – muito medo, de tudo, de quase tudo: era a que queria partir. A outra era a personificação da própria coragem – mas também da razão e da utopia. Essas duas personas lutavam em palco. Um longo poema abria o espectáculo: tenho medo disto, tenho medo daquilo. Um rapaz criou uma sonoplastia original e tocou-a em cena. Um som muito simples, por vezes muito belo, mantinha uma tensão em cena, o horror do medo de tudo, a tragédia iminente que era partir.

Na noite da estreia por pouco não assisti ao espectáculo. Um ataque de pânico envolveu-me num abraço apertado. O meu próprio texto era-me repulsivo. Disse à minha amiga sentada a meu lado que não aguentava assistir àquele espectáculo. Não aguentava reviver o sofrimento em que assentava: o do meu próprio povo, de quem me fizera voz. Tive de tomar um tranquilizante para conseguir assistir uma vez mais à representação do horror. Na escuridão da plateia, lembro-me do telemóvel iluminado de alguém a quem aquilo não fazia mossa.

Algumas pessoas saíram da sala a soluçar. O meu texto ferira-as. Também eu saí de rastos, mas era aquilo que eu queria fazer: um teatro forte, significante, que dialogava com a História social e com a existência, nunca complacente. A realidade era brutal, a História era em si mesma violenta, o teatro tinha de poder mostrar isso, e não entreter, para que a realidade, exposta (embora transfigurada) em cena num palco de teatro pudesse ser reconhecida como tal. Era isso, o teatro de arte. Tudo o resto não me interessava.

Consegui reerguer-me desse espectáculo e voltar a escrever. Mas aprendi que levar para o teatro o que doía não era fácil. Ainda assim, encantava-me a possibilidade de dizer a verdade, isto é, de dizer o que via, como via, mesmo quando doía, e dar a isso formas belas, como na literatura, mas tridimensionalmente e na companhia de várias outras artes e pessoas. A escrita para teatro arrebatou-me. O teatro passou a habitar tudo o resto que escrevo e que não é teatro.

Esse texto veio a ser encenado uma segunda vez, por uma outra companhia, de um lugar distante. A diferença entre o primeiro espectáculo e o segundo era inacreditável. Como podia um mesmo texto produzir espectáculos tão diversos? O teatro é assim, toma a forma de quem o encena.

 

3.

Escrevi também sobre a família. Eram doze actores. Fiz deles irmãos (uns mais resolvidos que outros, apesar de pensar que nunca se “resolve” totalmente a família), imaginando um histórico comum, e depois sentei-os para uma última ceia, expondo o mal-estar de quem revivia ali um passado totalmente horroroso, uma infância traumática, abusos, relações de poder, sofrimento em barda. Tudo o que era obscuro e sombrio passou por esse texto. Tudo o que era consanguinamente doente foi a cena.

Em criação colectiva, como muitas vezes me aconteceu, transformámos a família numa máquina de fazer pão, ou filhós para o Natal. Um mecanismo engenhoso transformou 24 braços em unidades de uma geringonça humana que se movimentava em direcção a um centro que representava uma massa, a mistura de um cereal com água que a máquina amassava, um pão simbólico. Aproximámo-nos perigosamente da dança. Entrámos pelo salão da dança adentro, o palco foi então isso, como se os actores fossem bailarinos. Pusemos aqueles doze irmãos cheios de problemas a dançar. Pusemo-los a dançar como se numa aldeia numa noite iluminada por uma fogueira. As chamas eram o cabelo quase vermelho de uma das actrizes.

No teatro pode-se fazer tudo. Por vezes, muitas vezes, sugerir basta. É maravilhoso, isso, o teatro poder ser pobre de recursos da matéria e rico em substância. No teatro basta uma cadeira velha. Mas se não houver essa cadeira basta o actor – ou uma actriz com o cabelo cor de fogo.

Na estreia desse espectáculo pessoas saíram da sala e dirigiram-se como projectéis para o bar do teatro porque precisavam de beber um copo. Pessoas com lágrimas nos olhos, no fundo dos seus olhos podia ver a tremeluzir as suas próprias histórias de merda familiares. A família, essa trituradora de seres humanos. O mesmo núcleo que os gera tantas vezes os destrói. É muito importante pensar nisto, para mudar isto. Por isso é tão importante levar a família para o palco, onde pode ser vista na sua aviltante ancestralidade e barbárie. Na família podemos voltar num ápice a um estado sem civilização, ser selvagens e brutais. Ou isso ou sair de dentro disso (dentro da cabeça, bem entendido) o mais depressa possível, pois lá dentro, lugar de absoluta e inescapável contaminação endémica, ninguém consegue ser quem é, tantas vezes – é o que eu vejo. Olho muito bem e observo que assim é.

Na segunda apresentação, uns meses poucos depois, as pessoas (outras) saíram da sala (outra) ligeiras e divertidas. Um mesmo espectáculo produzia realidades distintas. Um mesmo espectáculo não era um mesmo espectáculo. O teatro é aquela vez, o que acontece dessa vez. Na vez seguinte o espectáculo é já outro, mesmo que seja apresentado na mesma sala para as mesmas pessoas. O teatro é esse espectáculo, tal como a manhã é essa manhã parecendo a mesma de ontem e parecida com a de amanhã. O teatro é essa manhã única e irrepetível. Uma só oportunidade, como no fio do tempo do quotidiano cada manhã – nem sempre limpa nem inaugural, mas ainda assim manhã, e só essa, o que a torna bela, por mais suja que seja.

 

4.

Com os Actos Urbanos trabalhámos certa vez a ideia de haver outros, muitos, que passavam incessantemente e cruzavam a vida dos demais. Os outros eram personagens que passavam, que atravessavam a cena a ser esses outros, por vezes com orelhas muito grandes (para ouvirem muito bem as conversas que não lhes diziam respeito), narizes muito grandes (tão grandes que pareciam pénis, enormes pénis pendendo, tão grandes que quase pareciam narizes de papa-formigas), olhos muito grandes (para não lhes escapar nada). Uma cenógrafa fez essas máscaras e os actores participaram na sua concepção e construção. O nosso teatro fazia a primeira incursão pelo grotesco. O grotesco ficava-nos bem. Sabia-nos bem, também. Rimos muito.

Doutra vez, imaginei alguém grávido do Mundo, de  um Mundo ainda em gestação, e havendo muito desejo de que nascesse: como levar isso para a cena? Numa barriga desproporcionada, tão grande que a pessoa que transportava a barriga gigante não conseguia tocar com as mãos na ponta da barriga, que se erguia enorme pendurada no abdómen da personagem, como se tivesse despontado no tronco de uma árvore, um ramo enorme cheios de flores e frutos ainda por nascer. Essa barriga era, por outro lado, soberbamente fálica: ali estava uma vez mais um pénis, agora em forma de barriga, transportada com esforço (e um engenhoso cinto abdominal criado para o efeito) por uma rapariga que viu nesse momento, ouso crer, um desejo de ser actriz a nascer-lhe.

Essa rapariga tinha aparecido no ano anterior, vinda de uma formação em dança. Quando chegou pedimos-lhe que dançasse. Fê-lo ao som de uma canção muito triste de Chavela Vargas, dançou teatralmente para nós. Quase chorámos de emoção, a ver aquela rapariga a entregar-se ao acto de dançar de um modo natural e absoluto, sem insegurança nem pretensão, só a dançar. Pedimos-lhe que ficasse, ficou. Nunca mais a vimos dançar assim, mas muitas outras vezes dançou e coreografou.

Depois da gravidez do Mundo, essa rapariga foi viajar, no contexto da sua formação universitária. Voltou logo que pode para junto de nós, e fez a segunda apresentação de um outro espectáculo. Depois disso, desistiu de prosseguir os estudos que havia parcialmente concluído e candidatou-se ao conservatório. Entrou. Pensei que fosse então deixar-nos, mas continuou. A imensa alegria disso a encher os nossos corações, disso de ver pessoas a ir embora levadas pela vida mas a voltar logo que podiam, declarando saudades inadiáveis. Saudades do teatro, ou do nosso teatro, ouso pensá-lo. Já podíamos morrer, por assim dizer, como quando nasce um filho.

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, tem-se dedicado à edição de livros - criação e produção editorial. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, por sua iniciativa editorial, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Escritora e dramaturgista, tem sempre espectáculos de teatro, documentários cinematográficos e poemas na cabeça. Às vezes consegue concretizá-los.

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This entry was posted on 5 de Abril de 2020 by in Cultura, Patrícula elementar, Portugal imortal, teatro and tagged , , , .

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