PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

ALFIE

Alfreda Benge, ou Alfie? talvez este nome vos diga alguma coisa, ou, talvez não.

Mas Robert Wyatt, esse sim, (quase) todos o conhecemos, como proeminente baterista e cantor dos Soft Machine, banda maior da cena underground de Londres (Canterbury Scene) dos anos 60, primeiro, e depois nos Matching Mole.

Porém, abruptamente, em 1973, a vida deu-lhe, literalmente, uma volta, , quando uma queda de uma janela de um terceiro andar o deixou paraplégico. Incapaz de tocar bateria, reinventou-se como cantor e compositor, editando, no ano seguinte, o aclamado álbum “Rock Bottom”, o primeiro de uma tão extensa, quanto notável obra discográfica.

Embora mais conhecido como artista a solo, colaborou, entre tantos outros, com nomes grandes da cena musical, como Brian Eno, David Gilmour, Paul Weller e Björk. Mas hoje, o destaque nestas linhas não vai para Wyatt, mas para a sua mulher Alfreda Benge, conhecida como Alfie.

Conheceram-se em 1972 e casaram dois anos depois, no dia em que o “Rock Bottom” foi editado. Algumas das suas faixas, como Alifib, Alifie e Sea Song, são-lhe, aliás, inteiramente dedicadas No entanto, o papel de Benge é mais multifacetado e muito mais activo, do que mera musa de Robert Wyatt.

Nascida em 1940, Benge, para além de ilustradora, canta, escreve poesia, letras para canções, chegando a colaborar como assistente de edição no filme de Nicholas Roeg’s “Don’t Look Now”.

Benge foi, igualmente, manager de Wyatt durante décadas, mas a sua maior contribuição artística, para além de esporadicamente emprestar a sua voz, destacou-se na criação de letras e das capas dos álbuns do seu marido. Originalmente, escritas como poemas, ao invés de letras, que Wyatt depois compunha, adquirindo uma relevância especial, por exemplo, no álbum “Dondestan” de 1991, com forte cunho biográfico, e cuja magnífica capa é, como sempre, da autoria de Benge.

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O desenho de lápis silenciado, desde o primeiro disco de Wyatt, reflectiu uma tentativa deliberada de distanciar o álbum, das capas excessivamente elaboradas dos contemporâneos do rock progressivo.

Benge foi responsável pelas capas de todos os discos que Wyatt editou e variam consideravelmente, do desenho de lápis à colagem do Cut-out, e estão, seguramente, na galeria das mais notáveis na música popular.

Ocasionalmente, Benge tem escrito letras e criado capas para outros artistas – letras para o músico francês Bertrand Burgalat, capas para a banda Gorky’s Zygotic Mynci, Annette Peacock e Fred Frith – mas, é muitas vezes esquecida. Nada mais injusto.

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Recentemente, Wyatt afirmou que recebeu mensagens de pessoas que compraram o álbum “Ruth Is Stranger Than Richard”, simplesmente por causa da sua capa vívida, antropomórfica e levemente sinistra, e só então percebeu que também gostaram da sua música. 

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Aqui fica a justa homenagem, e que ninguém os separe.

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