PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Francisco Sousa Lobo: o artista no seu labirinto

O livro duplo – ou, talvez melhor definindo, objecto duploDeserto e Nuvem, editado pela Chili com Carne, granjeou a Francisco Sousa Lobo (n. 1973) o Prémio Nacional para Melhor Álbum Português e o Prémio para Melhor Argumento para Álbum Português do AmadoraBD em 2017 – ano em que Sousa Lobo foi ainda distinguido com um outro prémio no Festival de Banda Desenhada da Amadora: o Prémio para Melhor Álbum de Autor Português em Língua Estrangeira, com It’s No Longer I That Liveth.

O ano editorial de 2018 contou também com um novo livro pelo autor cujos desenhos fizeram o destaque do cartaz desse ano do AmadoraBD: Pequenos Problemas, um conjunto de histórias que, numa certa continuidade de Deserto e Nuvem, revelam a polifonia de vozes inquietas e de referências eruditas que ecoam (e se ouve) dentro da cabeça de um artista completo e complexo. O trabalho de Francisco Sousa Lobo espelha uma experiência vivencial intensa no plano intelectual e artístico, a de alguém com uma forte capacidade para gerar nexos entre assuntos só aparentemente distantes – uma lonjura que o seu traço e dispositivo narrativo encurtam consideravelmente. Talvez por isso o autor se refira a si próprio como «uma ponte entre a banda desenhada e as outras artes» (Nuvem, carta 18.ª). E talvez o facto de ser um arquitecto tenha qualquer coisa a ver com tudo isto.

Trata-se de um ilustrador de pensamentos, capaz de desenhar sobre conceitos abstractos, como em Deserto, livro que percorre o fio do tempo e dos gestos que, em 2014 (época já de grande crise de vocações), levaram Sousa Lobo à Cartuxa de Évora para pensar (escrever, desenhar) sobre os lendários monges do lugar. Ou seja, sobre o que levou o autor a querer pensar (escrever, desenhar) sobre a condição do homem que fez voto de silêncio, sobre o que o silêncio faz, sobre como se faz para alcançá-lo, porquê, para quê, tudo isso no desamparo desabafado de quem afirma ter-se sentido «como um clandestino a trepar as escadas para o céu».

Talvez mais do que «um livro quase jornalístico, centrado numa semana passada na Cartuxa de Évora», como explica o autor numas linhas de sinopse do projecto, Deserto é um livro muito belo, que contém não apenas palavras belas, empregues para dizer os belos pensamentos que afloraram ao espírito do autor enquanto pesquisava sobre a clausura e o silêncio no terreno, mas também desenhos belos – depurados como o despojamento austero do lugar, silenciosos como o silêncio dali, enquanto o artista procurava descrevê-lo (vivendo-o, na pequena medida de um seu observador), enformando um todo de grande poder poético.

Nuvem, o outro livro, colado a Deserto como gémeos univitelinos, é a narrativa que dialoga com a de Deserto, sendo composta «por 20 cartas endereçadas a um monge cartuxo e pode ser lido como uma resistência contra ambos os extremos que circundam a fé: o extremo que sabe que Deus não existe, e o extremo que se contenta com absurdos», pode ler-se na explicação do autor. Cartas em que referências tão diferentes como a poetisa Adília Lopes, o arquitecto Le Corbusier ou o músico e cantautor Leonard Cohen se avistam a atravessar pontes com Francisco Sousa Lobo, todos dirigindo-se a alguém que está do lado de lá de uma nuvem que se interpõe entre quem vive com os pés na terra (mesmo se com a cabeça nas nuvens) e quem existe longe da humanidade e talvez não passe de uma orelha de olhar (carta 11.ª).

A exposição que o Festival AmadoraBD de 2018 dedicou a Francisco Sousa Lobo, integrada por sete núcleos, expôs elementos diferentes ligados à obra do autor, entre os quais se encontraram as suas grandes influências (os livros, os filmes, a música, o pensamento, a poesia, as obras de outros) que a têm estruturado (inspirado, inquietado), e os seus blocos de notas, os seus esquissos, as suas próprias perguntas, a forma que tomam enquanto se transformam em objectos artísticos – como os singulares livros de bedê que Sousa Lobo tem criado, enquanto faz a si mesmo (mas também aos seus leitores, necessariamente) as grandes perguntas de alguém que verdadeiramente pensa, enquanto prossegue a sua aventura pela vertigem labirintiforme que é ser Homem.

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cloud_desert_2.jpg

Deserto/Nuvem, de Francisco Sousa Lobo
Chili com Carne, 2017

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Reedição de um texto de Sarah Adamopoulos que integrou o dossier pedagógico da edição de 2018 do Festival de Banda Desenhada da Amadora

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, tem-se dedicado à edição de livros - criação e produção editorial. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, por sua iniciativa editorial, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Escritora e dramaturgista, tem sempre espectáculos de teatro e poemas na cabeça.

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