PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O Ponto da discórdia


(c) Vítor Cid

O coreógrafo Paulo Ribeiro (n. 1959), pertencendo à primeira geração da chamada Nova Dança Portuguesa, é um nome destacado no mundo da dança contemporânea, com significado também no plano internacional. Trata-se de um criador com caminho feito, de méritos reconhecidos, distinguido com prémios significativos, entre os quais vários europeus, e também alguns portugueses, de que são exemplos o Prémio Acarte/Madalena Perdigão (1994), o Prémio Almada, pelo então Instituto Português das Artes do Espectáculo (1999), o Prémio Bordalo da Casa da Imprensa (2005), ou ainda o Prémio para Melhor Coreografia de 2010, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores.

Para além do trabalho de autor desenvolvido pela Companhia em nome próprio que fundou em 1995, Paulo Ribeiro comissariou ciclos e grandes eventos de dança, foi professor na Escola Superior de Dança e na Escola de Dança do Conservatório Nacional, dirigiu o Ballet Gulbenkian (2003-2005), o Teatro Viriato (1998-2003, 2006-2016) e a Companhia Nacional de Bailado (2016-2018). Em traços muito resumidos, serão estas, creio, algumas das linhas mais salientes do seu percurso – um caminho em que pontuam criações de apurado sentido modernista, e de que é exemplo eloquente a que realizou em 2012 para um filme documental de João Botelho sobre o poema coreográfico La Valse, de Maurice Ravel – uma obra-prima, originalmente composta para ser dançada.

A recém-anunciada Casa da Dança, um projecto de Paulo Ribeiro para Almada, cujo protocolo de financiamento havia já sido cabimentado no Plano e Orçamento da Câmara Municipal de Almada (CMA) para o ano de 2019, insere-se num programa do PS para a Cultura em Almada que era expectável e parece privilegiar alguns aspectos que considero genericamente interessantes em termos de políticas para a Cultura de uma cidade com as características de Almada – desde que não representem, evidentemente, um desinvestimento no trabalho e nas condições de acesso ao desenvolvimento dos criadores de Almada: a abertura da cidade ao exterior – e, necessariamente, a criadores não almadenses -, o incremento do diálogo artístico entre diferentes agentes culturais, o desenvolvimento de sinergias que promovam a qualificação artística dos almadenses.

Cito o JN online sobre o tema: «A Casa da Dança de Almada será uma estrutura centrada na dança contemporânea, com dois objectivos principais: “garantir uma oferta de qualidade ao nível da programação de espectáculos de dança contemporânea e promover o ensino das diferentes modalidades de dança contemporânea […] sobretudo junto da população mais jovem, [no sentido] de lançar novos horizontes e de resgatar talentos”.

Nada haveria a dizer, muito pelo contrário, não fosse dar-se o caso de existir em Almada uma estrutura de dança profissional, a Companhia de Dança de Almada, dirigida por Maria Franco desde a sua criação, em 1990, cujo trabalho tem merecido a atenção e os apoios estratégicos à prossecução ao seu desenvolvimento por parte da Câmara Municipal de Almada. Está o projecto da Casa da Dança pensado para envolver no processo, e de forma necessariamente prioritária, a Companhia de Dança de Almada?

Por outro lado, a fase de lançamento do projecto da Casa da Dança está prevista para um espaço que dificilmente se imagina que venha a ser ocupado concomitantemente com os projectos que lá decorrem, num equipamento de cuja cedência estes últimos dependem para poderem continuar a desenvolver-se.

Apesar do desinvestimento endémico de décadas, que levou o Ponto de Encontro (Casa da Juventude de Cacilhas) a uma certa decadência – decadência que o próprio edifício, um bloco de betão construído na ponta de uma arriba em preocupante erosão, progressivamente tem espelhado -, trata-se de um espaço de importância e localização vitais para a cidade. Um espaço que tem também um património de história, por onde passaram e cresceram nomes significativos, alguns da dança, como Cláudia Dias, Mónica Samões, João Galante, ou ainda Miguel Moreira e John Romão, entre vários outros artistas, designadamente do teatro (para quem o Ponto de Encontro é um espaço de trabalho fundamental, também pela sua localização, de grande centralidade) e das artes plásticas (mas não só).

Está o lançamento do projecto da Casa da Dança pensado por forma a partilhar um espaço que tem sido habitado pelos artistas locais, profissionais e amadores (com preponderância para o trabalho em contexto comunitário, com envolvimento da população), que lá desenvolvem o seu trabalho?


Inaugurado em 1989, o Ponto de Encontro (ou simplesmente Ponto, para os almadenses) é um equipamento municipal situado muito perto do cais de embarque de Cacilhas, com valências destinadas aos jovens e aos artistas de Almada. Em 1991, a teia de iluminação da sala de ensaios no piso superior (um espaço com uma vista deslumbrante para Lisboa), teia que ainda lá está, foi desenhada e implantada por João Garcia Miguel, então director artístico do OLHO. O Ponto seria, ao longo dos tempos, um espaço muito apetecido pelos criadores almadenses mais experimentalistas e inovadores, bem como pelos responsáveis por workshops, oficinas de formação e master classes em várias áreas. A dança contemporânea, através do então Grupo de Dança de Almada, realizou no Ponto o que constituiria o primeiro cruzamento significativo em Almada entre as linguagens do teatro e da dança. Espaço constitutivamente multidisciplinar, a Casa da Juventude de Cacilhas tem duas salas de ensaios, sendo uma delas em particular muito usada também para a apresentação de espectáculos, malgrado a ausência de condições técnicas que sirvam também públicos não profissionais e/ou de fora da comunidade artística. Estrutura de apoio às populações juvenil e artística do Concelho, o Ponto de Encontro tem assegurado uma programação regular que contempla não apenas um plano de formação anual aberto às estruturas de criação e formação locais, como também um conjunto de espectáculos e outras actividades, designadamente formativas.

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, tem-se dedicado à edição de livros - criação e produção editorial. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, por sua iniciativa editorial, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Escritora e dramaturgista, tem sempre espectáculos de teatro, documentários cinematográficos e poemas na cabeça. Às vezes consegue concretizá-los.

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