PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Só fumaça?

Socialismo sim, ditadura não!”, gritou-se e regritou-se no no Terreiro do Paço, em Lisboa, no dia 9 de Novembro de 1975, durante uma manifestação de apoio ao VI Governo Provisório promovida pelo Partido Socialista (PS) e pelo Partido Popular Democrático (PPD, actual PSD) e apoiada por outros partidos, como o Centro Democrático Social (CDS, actual CDS-PP) ou o Partido Popular Monárquico (PPM). A manifestação ficou marcada pela explosão de uma granada de gás lacrimogéneo, criando algum pânico na populaça. Da janela onde estavam os líderes dos partidos promotores – Mário Soares e Francisco Sá Carneiro, acompanhados por vária outra gente ali reunida nesse dia –, Mário Soares disse: “Lançaram uma granada, uma granada lacrimogénea! São actos de sabotagem. É preciso dizer que não tem perigo.”

Sem perder tempo, o Almirante Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro desse último Governo provisório, no culminar de um período de guerra pelo poder entre o PS e o PCP, a semanas poucas do 25 de Novembro liderado por António Ramalho Eanes (uma intervenção musculada – sobretudo ao nível do planeamento estratégico militar, pois era enorme a desproporção de meios entre militares ideologicamente desavindos, e sobretudo divididos sobre o seu papel em contexto democrático), gritou: “Não tem perigo! Não tem perigo! O povo é sereno! É apenas fumaça! Ninguém arranca pé!” Eis senão quando se ouve alguém a emendar a palavra de ordem daquela hora de grande tensão: “Ninguém arreda!” E o povo, sereno e bem mandado, repetiu ordeiramente que ninguém arredava pé, que assim é que estava certo, e assim foi, e depois cantou-se o hino nacional, antes ainda de Pinheiro de Azevedo fazer um breve discurso. Tudo isto ficou gravado pelos microfones da então ainda Emissora Nacional e a RTP filmou. Está tudo aqui.

Fumaça é o nome de um novo projecto jornalístico de contornos interessantemente inovadores, feito por pessoas reunidas em associação sem fins lucrativos que se propõem «aprofunda[r] os problemas mais estruturantes da sociedade portuguesa e global», sob a forma de «um projecto de jornalismo independente, progressista e dissidente que não se submete a organizações partidárias, religiosas, económicas, financeiras, desportivas, culturais ou sociais, nem às suas agendas», tendo, entre outros objectivos, «escrutinar a Democracia, questionando as decisões políticas de quem é nomeado ou se faz eleger, procurando fiscalizar e responsabilizar as suas acções».

Como? «[Ouvindo] representadas e representados, especialmente as camadas da população que têm menos voz […] expo[ndo], contextualiza[ndo] e percebe[ndo] as suas dificuldades e reivindicações», na observância dos «princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, [d]a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e [d]a Constituição da República Portuguesa», bem como do «Código Deontológico do Jornalista e pugna[ndo] pela sua prática efectiva» (notável declaração de intenções que, na qualidade de antiga jornalista – condição eterna, bem sei, bem sei – muito desejo que jamais esqueçam).

Mas também «toma[ndo] posições públicas sempre que entender[em] que estão em causa princípios basilares da vida democrática», rejeitando o «jornalismo-espectáculo, baseado no simplismo, em estereótipos e lugares-comuns», bem como «a lógica do entretenimento e do sensacionalismo na informação», declarando-se indisponíveis para praticar «a ditadura da rapidez, do imediatismo e da voracidade da informação» e defensores da «transparência de todo o processo que envolve a prática jornalística […], apresent[ando] de forma clara quem faz o quê, como faz e quem financia», tal como expresso sem papas na língua nem outros eufemismos politicamente correctos no seu estatuto editorial.

O então É Apenas Fumaça, cuja página de entrada mostrava na altura uma imagem da referida manifestação histórica no Terreiro do Paço, nasceu em Junho de 2016 como um podcast de entrevistas semanais, mas não umas quaisquer, pois desde o início se abalançaram aos grandes temas e debates de sociedade a que o jornalismo tradicional tem desde há muito reservado uma inanição generalizada, e de que aqui deixo duas boas mancheias de exemplos (apresentados por vezes com as minhas palavras):

  • o chamado  Projecto Europeu (Rui Tavares);
  • o papel da Comunicação Social, o estado do jornalismo, o futuro dos modelos de negócio que financiarão os media e as suas consequências (Daniel Oliveira);
  • a democracia em Angola (Luaty Beirão);
  • o ateísmo (Ricardo Araújo Pereira);
  • o jornalismo de causas (Maria Antónia Palla);
  • a arte activista (VIHLS, o conhecido grafitter também conhecido por Alexandre Farto);
  • a esquerda no contexto europeu (Mariana Mortágua);
  • a gentrifricação e o que significa (Pedro Bingre do Amaral);
  • o movimento LGBTI em Portugal (Sérgio Vitorino);
  • o Euro (Ricardo Pais Mamede);
  • o Brexit (Bernardo Pires de Lima);
  • o desinvestimento endémico português na saúde mental dos seus cidadãos (Ana Matos Pires);
  • mas também os grandes temas do Mundo actual, efervescente em guerras e problemas: a Palestina, a Síria, o Brasil, as catástrofes ambientais, o racismo, os apartheids de toda a sorte, os problemas do pós-colonialismo (um tema importantíssimo, sobre o qual creio que é preciso ouvir pessoas mais velhas, que têm uma perspectiva aprofundada do assunto por via da experiência do colonialismo, e não apenas os mais recentes investigadores, venham eles das artes ou das academias, formais ou informais, no âmbito das quais se historiografa o passado recente), as desigualdades, e vários outros temas e outras tantas entrevistas arquivadas aqui.

O projecto tem crescido em audiência, seguidores, apoiantes e, necessariamente, ambição, tendo sido recompensado em 2018 com uma bolsa de apoio ao jornalismo independente atribuída pela Open Society Foundations. Com novas condições, registaram-se como um órgão de comunicação oficial e criaram uma redacção permanente, desse modo profissionalizando-se. Quem são? Não sei bem. A leitura dos seus perfis auto-representam-nos como pessoas que estudaram Ciências da Comunicação, Comunicação Social, Jornalismo (tanto que haveria a dizer sobre estas designações pseudo-concorrenciais de estudos “oferecidos” pelas universidades e outras escolas superiores de atrair vítimas da empresarialização da transmissão de Conhecimento), Antropologia, Música, Design gráfico, Ciência Política, Engenharia Informática. Outras há que desistiram de estudar, que foram viajar, que tiveram experiências profissionais diversas entre si, e ainda bem, digo eu: a juventude também precisa da aventura formadora da experiência da alteridade.

Poderíamos sem dificuldade ser levados a pensar que uma publicação assim chamada (É Apenas Fumaça, ou só Fumaça) era só mais um blog, no caso contendo na sua designação o germe maldito de uma provocação que interpela a História recente do país português, criada para enervar os comunistas portugueses e seus simpatizantes mais indefectíveis, por pessoas demasiado novas para entender o que estavam a fazer, possivelmente manipuladas (“instrumentalizadas”, como se diz na gíria da acção política menos nobre) por pessoas ligadas aos sectores da esquerda mais radical. Poderíamos e ainda podemos: basta atentar nos nomes da maior parte dos entrevistados do Fumaça, e no “perigo” que constitui o deslizamento fácil (muito fácil) para uma forma de jornalismo de propaganda, capturado por agendas de combate político, na linha por exemplo deste outro projecto, também ele cheio de qualidades do ponto de vista jornalístico mas longe de ser suficientemente isento para poder ser Jornalismo (muito haveria também a dizer sobre a isenção em jornalismo, num tempo em que o senso-comum – dominado pelo chamado “jornalismo do cidadão” – a declara impossível).

Mas há uma coisa que eu sei: o Fumaça é o primeiro projecto jornalístico digno desse nome que está a construir um jornalismo de Língua portuguesa vocacionado para pensar o Mundo todo, como é devido e inescapável no tempo da Globalização. Só falta tornar-se multilingue, ou, pelo menos para começar, bilingue, pensando o Mundo em Português e traduzindo-o. Talvez esteja ainda um pouco demasiado virado para dentro, como sempre os portugueses (com o seu complexo super-identitário, que tende a fazer desaparecer o resto do Mundo, é uma chatice cultural), mas há nesse relativo fechamento (a prevalência de assuntos portugueses) um anseio sério de pegar nos grandes temas para os debater no espaço público, observando-os à lupa societal para melhor os compreender (acredito, como Christopher Lasch, que é esse o grande papel do jornalismo, e não o de abastecer o público com informação). Por isso arrisco dizer que talvez o Fumaça não seja só fumaça. Talvez não seja só fogo de vista. Talvez seja o começo de algo a sério.

[mais textos sobre Jornalismo acessíveis a partir daqui]

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, tem-se dedicado à edição de livros - criação e produção editorial. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, por sua iniciativa editorial, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Escritora e dramaturgista, tem sempre espectáculos de teatro e poemas na cabeça.

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