PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

“A revolta das elites – e a traição da democracia” (1)

 

A revolta das elites – e a traição da democracia (1994), é o título de um livro do historiador norte-americano Christopher Lasch (1932-1994). Aqui se deixam, traduzidas do Francês a partir de um pequeno dossier coligido para uma edição recente da revista Philosophie magazine, algumas passagens desse texto que, embora descrevendo a forma da sociedade norte-americana nos anos de 1990, acabaria por inscrever um retrato de uma bastante maior abrangência, o que decorre não apenas da globalização do american way e dos valores do seu sistema (que enformam a representação do que hoje pode designar-se por “cultura ocidental”), como da agonia das esquerdas (e não apenas a norte-americana, sobre a qual Lasch pensou e escreveu no final dos anos de 1960).

Muitos retomaram a ideia que põe nas mãos das elites a responsabilidade pela degradação da democracia (demissão da sua função “civilizadora” no quadro dos regimes democráticos, apropriação da riqueza dos Estados em favor de interesses e sectores particulares, nepotismo, etc.) mas as palavras de Lasch, escritas com certo desespero (morreria 10 dias após ter concluído o manuscrito), contêm o brilho de um inegável pioneirismo para um autor norte-americano provindo ele próprio das elites do seu país:  o seu pai, Robert Lasch, foi um destemido jornalista, distinguido com um Pulitzer em 1966 por ter combatido nos seus editoriais a guerra do Vietname.

Christopher Lasch foi também autor, entre outros, de The Agony of the American Left (1969) e de The Culture of Narcissism (1979).

Entre parêntesis rectos a indicação das supressões de texto, pequenos apontamentos destinados a melhorar a sintaxe portuguesa e comentários da responsabilidade da autora desta publicação (vulgo post, na actual linguagem tecno-globish).


«[…]

Capítulo 2
A revolta das elites
Outrora, era a “revolta das massas” que era considerada como uma ameaça contra a ordem social e a tradição civilizadora da cultura ocidental. Nos nossos dias, porém, a principal ameaça parece provir daqueles que estão no topo da hierarquia social e não das massas. Esta notável reviravolta na História baralha as nossas expectativas relativamente ao curso que era suposto que aquela tomasse, e questiona pressupostos estabelecidos desde há longo tempo.

Quando José Ortega y Gasset publicou o seu célebre ensaio A revolta das massas [na tradução portuguesa, de 1998, pela Relógio d’Água, A rebelião das massas], em 1930 […], não podia prever o advento de uma época em que viesse a ser mais adequado falar de revolta das elites. Escrevendo na época da Revolução bolchevique e da ascensão do fascismo, no rescaldo de uma guerra-cataclismo que havia desfeito a Europa, Ortega atribuía a crise da cultura ocidental à «dominação política das massas».

Hoje, são todavia as elites – que controlam os fluxos internacionais de dinheiro e de informações, que presidem às fundações filantrópicas e às instituições de ensino superior, que gerem os instrumentos da produção cultural, desse modo fixando os termos do debate público – que perderam a fé nos valores do Ocidente, ou o que deles resta. Para muitas pessoas, a própria expressão “civilização ocidental” remete para um sistema organizado de dominação, concebido para impor a conformidade com os valores burgueses e para manter as vítimas da opressão patriarcal – as mulheres, as crianças, os homossexuais e as pessoas de cor – num estado de permanente subjugação.

Do ponto de vista de Ortega y Gasset, perspectiva largamente partilhada na sua época, o valor das elites culturais reside na sua disposição para assumir a responsabilidade de fixar as normas coercivas sem as quais a civilização não é possível. Viviam ao serviço de ideais exigentes. «A nobreza define-se pela exigências que ela própria nos impõe – por obrigações, não por direitos.» O homem comum, pelo seu lado, não tinha nem obrigações, nem compreensão do que estas implicavam, «nem sensibilidade para os grandes deveres históricos». Em vez disso, [esse homem] afirmava os «direitos triviais».

A um tempo cheio de ressentimento e auto-satisfação, rejeitava «tudo o que é excelente, individual, qualificado e escolhido». Era «incapaz de se submeter a uma orientação de qualquer natureza». Desprovido de toda a compreensão sobre a fragilidade da civilização ou do carácter trágico da História, vivia irreflectidamente «na certeza de que amanhã [o Mundo] seria mais rico, maior, mais perfeito, como se este dispusesse de um poder de crescimento espontâneo e inesgotável». [muitos persistem acreditando por exemplo que o crescimento económico é um dado adquirido e imutável, imparável, sempre em processo de expansão, aumentando conforme o tempo avança, independentemente de condições estruturais e/ou conjunturais e da acção ou (sobretudo) da inacção dos cidadãos, sejam estes provenientes das massas ou das elites].

[O homem comum] só se preocupava com o seu bem-estar pessoal e encarava com confiança um futuro de «possibilidades ilimitadas» e de «liberdade total». Entre os seus numerosos defeitos, figurava uma falta de sentido romanesco nas suas relações com as mulheres». O amor, ideal carregado de constrangimentos, não tinha para ele qualquer encanto. A sua atitude relativamente ao corpo era severamente prática: erigia sob a forma de um culto a boa forma física, e submetia-se a regimes higiénicos que prometiam mantê-lo em bom estado e prolongar a sua longevidade. O que o caracterizava, acima de tudo, era o «ódio mortal a tudo o que não era ele próprio», segundo a descrição de Ortega. Incapaz de maravilhamento ou de respeito, o homem comum era «o menino mimado da História humana».

A minha tese é que todas essas atitudes mentais são hoje características das camadas superiores da sociedade […]. Não poderíamos hoje dizer que as gentes comuns encaram com confiança um mundo de «possibilidades ilimitadas». Desde há muito que perdemos qualquer noção de um homem das massas a “surfar” as ondas da História. Os movimentos radicais que perturbaram a paz no século XX fracassaram um após outro, e nenhum sucessor surgiu no horizonte. A classe trabalhadora, outrora pilar do movimento socialista, tornou-se ela própria uma relíquia de si mesma digna de piedade.

A esperança de que «novos movimentos sociais» tomariam o seu lugar na luta contra o capitalismo, uma esperança que durante um breve período sustentou a esquerda, no final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980, não desembocou em nada. Não apenas os novos movimentos sociais – o feminismo, os direitos dos homossexuais, os direitos sociais mínimos, a agitação contra a discriminação racial – nada têm em comum entre si, como a sua principal reivindicação tem por objectivo integrá-los nas estruturas dominantes, e nem tanto colaborar decisivamente para uma transformação revolucionária das relações sociais.

[…]»

(continua um dia destes)

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, tem-se dedicado à edição de livros - criação e produção editorial. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, por sua iniciativa editorial, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Escritora e dramaturgista, tem sempre espectáculos de teatro, documentários cinematográficos e poemas na cabeça. Às vezes consegue concretizá-los.

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