PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Chantal Mouffe: por um populismo de esquerda e pelo direito à divergência (revista manifesto, parte 2)

Tem a audácia de te servir do teu entendimento (Immanuel Kant), eis um lema do Iluminismo que pode ser contraposto ao que, numa missa de domingo pela manhã, pode ser ouvido por um coro numa igreja cantando as seguintes palavras: “Saboreai e vêde como o Senhor é bom.” O que acabei de escrever pode, por seu turno, ser transposto para as premissas (culturalmente não questionadas) da generalidade das práticas das esquerdas herdeiras do pensamento de Marx. Esquerdas que estão em crise há muitas décadas, que a queda do Muro de Berlim soterrou, e que os últimos dez anos revelaram especialmente ausentes de uma capacidade para enfrentar as consequências anti-democráticas da Globalização.

No presente contexto hegemónico euro-comunitário, o actual Governo português e o acordo de incidência parlamentar que assinou com a CDU e com o BE prometeram algo diferente e audaz, mas tudo parece estar também a desmoronar-se – iluminado pelo desfasamento ignóbil entre o discurso político e a realidade da maioria dos cidadãos portugueses, e por uma propaganda sobre-mediatizada pelas redes sociais que a ausência de jornalismo torna ainda mais aviltante.

A belga francófona Chantal Mouffe (n. 1943), filósofa política cujo pensamento se inscreve na chamada corrente pós-marxista, anda justamente há décadas a servir-se, não sem audácia, do seu entendimento do que pode ser um pensamento de esquerda com capacidade para responder à agressividade do capitalismo globalizado. Ou seja, Mouffe anda desde há muito a pensar sobre um projecto de esquerda com capacidade para responder à crise das esquerdas (socialistas ou social-democratas).

Em 1985, juntamente com Ernesto Laclau, publicou (em inglês) o ensaio Hegemonia e estratégia socialista (curiosamente, traduzido em língua francesa apenas em 2008) – um texto que preconiza um afastamento da ortodoxia hegemónica e determinista das relações produtivas e de classe do economismo infra-estruturante do marxismo, em favor de uma abordagem mais diacrónica, capaz de responder à emergência das novas realidades sociais surgidas a partir dos anos de 1960 com os movimentos feministas, gays, anti-racistas, etc., que expuseram a falta de horizonte político (para referir a sua incapacidade de agir sobre a realidade) da ortodoxia marxista num contexto histórico profunda e aceleradamente transformador das sociedades.

À revista manifesto, numa entrevista de Hugo Mendes (sociólogo e presentemente adjunto do actual Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, circunstância – entre outras equivalentes – que faz da referida publicação um produto não-jornalístico, reafirmo-o), Chantal Mouffe defende o populismo como “uma dimensão necessária em democracia”, reafirmando que “a incapacidade da esquerda em compreender o que estava a acontecer [o ataque neoliberal personificado por R. Reagan e M. Thatcher] se devia (…) [ao] ‘essencialismo de classe’, derivando esta ideia da teoria marxista que via a construção do socialismo a partir das relações de produção.”

Ou seja, a ideia de que o socialismo não pode esgotar-se na “luta pelo fim à subordinação dos trabalhadores”, pelo contrário devendo preparar-se para “federar e articular todas as lutas democráticas”, redefinindo “o projecto socialista em termos de uma radicalização da democracia”. Uma ideia de radicalização populista (no melhor sentido do populismo, exercício difícil, bem o sei, num momento em que prevalece a crença, falsamente legitimada por dicionaristas esquecidos da etimologia e da História, de que o populismo é fundamentalmente pernicioso) que Mouffe afirmou ter sido mal-interpretada, atendendo a que nunca terá estado em questão a defesa de “uma espécie de novo ‘começo’ revolucionário”, com o objectivo de se substituir às actuais democracias liberais, mas antes, “dentro do espaço da democracia liberal” encetar uma luta em favor de “uma radicalização dos princípios éticos e políticos da democracia, que são a liberdade e a igualdade” – malgrado, ou talvez justamente por causa do facto de “a nossa sociedade não coloca[r] esses princípios em prática”.

Entre várias outras ideias expressadas por Chantal Mouffe na entrevista à manifesto, julgo que a mais interessante será a que lembra que “o objectivo da democracia não é produzir um consenso, porque a sociedade está atravessada por clivagens”. Evidentemente anti-maniqueísta, Mouffe defende a dissensão como forma legítima e virtuosa de estar na política e na esquerda, e apela ao populismo de esquerda para que se chegue à frente e colabore, munida dos valores constitutivos da esquerda, para pôr fim ao princípio-âncora das democracias liberais tal como as conhecemos enformadas pela actual UE: as que entregam (geralmente nas mãos do chamado ‘centrão’, espécie bífida e carecendo de representatividade popular, sempre pronta para defender consensos ao centro – i.e., compromissos fundamentalmente desligados dos anseios dos povos) a própria ideia de democracia ao primado da lei, em detrimento das ideias fundadoras democráticas que constituem a igualdade e a soberania popular.

No contexto do que Mouffe chama uma Europa latino-americanizada (como bem demonstrou Thomas Piketty no seu O Capital no Século XXI, que tive a ideia de propor para tradução e o prazer de traduzir para Português europeu), a filósofa defende o fim dos consensos e das maiorias unívocas, lembrando que a democracia, ao contrário do que a utopia neoliberal teria gostado e se esforça por combater, precisa de antagonismo. Isto é, que em democracia, e muito particularmente à esquerda, o direito a divergir é absolutamente saudável e necessário, favorecendo o diálogo e a negociação política que a democracia justamente pressupõe, mesmo se no quadro de algum tipo de convergência, como no caso do actual Governo português.

Para quem lê em francês, um texto interessante sobre o uso da palavra populismo.

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, tem-se dedicado à edição de livros - criação e produção editorial. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, por sua iniciativa editorial, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Escritora e dramaturgista, tem sempre espectáculos de teatro, documentários cinematográficos e poemas na cabeça. Às vezes consegue concretizá-los.

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