PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

revista manifesto (parte 1)

manifesto TEMAS SOCIAIS E POLÍTICOS (assim mesmo em minúsculas, o título propriamente dito, e depois em maiúsculas o subtítulo) é uma revista que começou de novo, tendo sido anteriormente dirigida por Ivan Nunes e por Miguel Portas. Um texto editorial que abre a revista explica aos leitores ao que esta vem – ou ao que volta: aos «debates plurais à esquerda».

A manifesto, com um novo tema aglutinador a cada edição, será publicada quatro vezes ao ano e aceita contributos dos seus leitores. Alguns artigos serão disponibilizados online mas a revista, embora recomeçada, mantém-se um projecto analógico – isto é, uma publicação em papel, para vender em banca. O tema do número 1 desta nova série da renascida manifesto é o povo (belo tema, largo, necessário e absolutamente estruturante para a esquerda).

Muito estranhamente (para o meu entendimento do que é uma publicação que se auto-representa como um produto jornalístico), a revista é dirigida por um dos actuais adjuntos do Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Frederico Pinheiro, antigo jornalista e antigo assessor do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda. Do seu Conselho Editorial fazem parte outros jornalistas (ou ex-jornalistas), professores e investigadores académicos que têm tomado posição à esquerda, dirigentes (ou ex-dirigentes) partidários, etc.

Entre os primeiros autores da ressuscitada manifesto, contam-se também o consagrado foto-jornalista Alfredo Cunha (belas imagens a preto&branco) e a artista plástica Teresa Dias Coelho.

O Português da revista está longe de ser perfeito – mas podia sê-lo, é pena, pois trata-se, afinal, de uma revista essencialmente feita com textos. Faltou uma revisão e um editing mais cuidados, o que teria evitado a publicação de incontáveis parágrafos escritos na nova Língua que constitui o Português dos académicos das novas gerações, cuja formação foi tragicamente marcada pela acção da Anglosfera, em resultado, creio, da empresarialização do ensino superior em contexto global.

Optou-se, por outro lado, pela aplicação do AO90 nos textos em nome da direcção da revista, o que também é pena (podia diferente opção constituir uma afirmação política por parte de uma publicação cujo Estatuto Editorial anuncia que «procura intervir sobre a realidade»).

Relevou-se para a capa da 1.ª edição da manifesto uma entrevista a Noam Chomsky (n. 1928). Catastrofista, o discurso de Chomsky reflecte a avançada idade do conceituado intelectual norte-americano de origem judia.

Numa primeira breve resenha sobre alguns dos conteúdos da 1.ª edição desta renovada manifesto, umas linhas alinhavadas ao sabor da leitura.

Ricardo Paes Mamede, economista, faz uma interessante chamada de atenção num breve e muito útil exercício prospectivo sobre o próximo Governo da nação, ancorado no seguinte leitmotiv e título: Era bom que trocássemos umas ideias sobre o próximo governo.

Ana Drago, socióloga, ensaiou uma espécie de (demasiado longo) discurso para ser lido (e não dito) sobre o tema da habitação em Portugal. Contributo esclarecido, sem dúvida, porém sob a forma de um texto que aponta mais o dedo ao actual Governo do se propõe pensar em alternativas à endemicamente miserável política portuguesa para a habitação, desenvolvendo-as do ponto de vista teórico. Texto de combate político (entenda-se partidário), o contributo de Ana Drago parece surgido de uma nostalgia do discurso parlamentar e carece de uma reflexão e análise prospectivas, que todavia teriam tido toda a pertinência.

Daniel Oliveira escreve sobre Itália para falar da Europa. Sempre muito estimulante do ponto de vista intelectual, Daniel Oliveira denota uma vez mais uma preparação teórica a toda a prova para os grandes debates políticos. Há no seu interesse pela Europa a largueza de horizontes de um dos mais brilhantes actuais comentadores portugueses de política. Alguém que compreendeu já a que ponto o Mundo gerado pela Globalização mudou (para sempre) o lugar do Portugal europeu na geografia dos novos poderes.

Nelson Santos assina um artigo sobre a chamada Geringonça. O seu texto refere um dado cuja veracidade questiono (p. 47): quando o autor refere a percentagem de defensores das alianças CDU/PS de entre os eleitores do PCP/PEV: 69%. Tal indicador não faz qualquer sentido à luz do que conheço da História e dos modos de estar do PCP na vida partidária. Curioso será também verificar a utilização que, no mesmo artigo, é feita da palavra elite, a qual, do meu ponto de vista, o autor usa de modo um pouco desajustado, quando o faz para referir as cúpulas da hierarquia do PCP.

Sucede que um dos actuais problemas do PCP é justamente o esvaziamento, paulatino, que tem sido feito das suas elites – para designar as elites intelectuais, nas quais assentava um dos pilares da base de apoio do referido partido. Realidade que decorre, creio, de um endurecimento no sentido de uma ortodoxia não-virtuosa, que liminarmente afasta as dissidências (por vezes apenas divergências), numa atitude sectária que muito tem contribuído para o que considero ser um problema perceptivo relativamente à realidade trazida pela Globalização, impedindo o PCP de se qualificar para os combates políticos que aí vêm.

Por fim, e por agora, umas linhas sobre o texto de António Sampaio da Nóvoa, que escreve sobre o que sabe (ouso dizer como mais ninguém) e lembra que a cidadania só pode ser ser alcançada pela educação, coisa muito diferente do discurso dos tempos actuais, que estabelece uma relação «directa entre a educação e o desenvolvimento económico». Primado dos mercados sobre os direitos humanos, entre os quais o de cidadania (no qual subjazem conceitos como alteridade, diversidade, etc., absolutamente necessários em democracia e incontornáveis tratando-se da Europa dos diferentes).

(continua um dia destes)

 

manifesto – TEMAS SOCIAIS E POLÍTICOS
[n.º1, 2.ª série]
Primavera/Verão 2018
Director: Frederico Pinheiro

 

 

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, tem-se dedicado à edição de livros - criação e produção editorial. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, por sua iniciativa editorial, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Escritora e dramaturgista, tem sempre espectáculos de teatro, documentários cinematográficos e poemas na cabeça. Às vezes consegue concretizá-los.

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