PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Vian est grand, parte II

 

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II Parte — A MALDIÇÃO VERNON SULLIVAN

 

“Cinco anos sem que eles suspeitassem que um mulato, que um homem de cor, lhes ia à tromba todas as noites. Nick pagava-me bem por esse trabalho, porque eu sabia pô-los na rua sem histórias e praticamente sem escândalo.”

Vernon Sullivan, Os Mortos Têm Todos a Mesma Pele, 1947

 

06. De 20 de Agosto a 3 de Setembro de 1946 Boris Vian inventa Lee Anderson, um mulato que passa muito bem por branco. Tem um irmão menos claro que é linchado por ter tido a ousadia de ‘comer’ uma branca rica. Para o vingar, usando a sua aparência de branco e a educação adquirida como mordomo de um lord inglês, Lee começa a engatar brancas ricas que a seguir mata com requintes de malvadez – “o seu algo excessivo realismo”, tal como se pode ler no prefácio, escrito pelo pretenso tradutor, Boris Vian.

Até então, a ideia de um policial serial killer não conhecia exemplos. Talvez vagamente, e de modo completamente diferente, com Georges Simenon em O Homem Que Via Passar Os Comboios e Hermann Hesse em Klein und WagnerO Eu e o Outro, na edição portuguesa.

Porém, não contente em inventar uma personagem tão pouco cristã, inventa também o escritor, Vernon Sullivan, negro norte-americano em apuros com as autoridades do seu país e um historial de sucessivas recusas das editoras, do qual Vian é apenas um tradutor esforçado. E, assim, surgirá J’irai cracher sur vos tombes, de Vernon Sullivan, “traduzido do americano por Boris Vian”. (**)

Apesar desta pista óbvia, toda a gente mordeu o isco. Críticos conceituados de jornais também conceituados logo reconheceram um génio cru na legítima revolta daquele negro em luta contra o racismo no seu país. Em apoteose, no Samedi-Soir de 7 de Dezembro de 1946 chegam a compará-lo a Faulkner, Cain, McCoy e até Miller. É um fartote de riso para Vian, d’Halluin e uns poucos mais a par da brincadeira. Até que o destino veio ajudar o, ainda assim, bastante moderado sucesso de vendas. Um escândalo estava prestes a rebentar para levar o livro à fasquia dos cem mil exemplares.

Parecendo saído do próprio romance, em Abril de 1947 um assassino deixa junto do corpo, num sórdido hotel da Rua du Départ, um exemplar do J’irai cracher aberto numa certa página. Aproveitando a deixa e os títulos nos jornais tipo “O livro que mata”, Daniel Parker do Cartel d’Action Moral et Sociale arranja a desculpa que precisava para chatear Boris Vian. No entanto, sem se dar conta, tentar proibir o pretenso Vernon Sullivan ao lado do também recentemente caído em desgraça Henry Miller, ainda ajudou mais à festa.

07. Apesar das restrições, Boris continua a publicar com aquele nome. Saem mais três, sem o sucesso do primeiro, de onde se destaca Morte aos Feios, uma espécie de policial de ficção científica, absolutamente hilariante, sobre um tal Dr. Schutz que fabrica homens perfeitos, destinados a ocupar os mais altos cargos da futura aldeia global.

Daqueles que ele considera os verdadeiros livros, Vercoquin et le Plancton e A Espuma dos Dias, nada feito. A escrita verdadeiramente inovadora de Vian e, sobretudo, a vingança da crítica séria que se sentia ludibriada na sua virtude académica, levam a que Boris seja considerado, na forma mais benevolente, um simples ‘escritor cómico’.

Boris Vian entra na guerra. Um tal Yvez Gandon publica uma peça chamada “Da escrita de arte ao estilo canalha”. Vian responde: “As coisas não são vulgares por serem escritas assim. As pessoas é que são vulgares, não o estilo. E digam lá! As pessoas realmente vulgares nem escrevem assim. Cuidam dos floreados que é uma chatice. Escrevem com lâmpadas acesas no rabo.”

No geral assume uma postura ainda mais frontal. Não se coíbe de assinar por baixo, no posfácio do segundo Vernon Sullivan: “Críticos, sois umas vacas!” E ainda arranja tempo para ir ao Club Saint-James debitar a conferência Da Utilidade da Literatura Erótica, onde se pergunta: “Como espantarmo-nos que a forma actual do movimento revolucionário seja a literatura erótica?”

 

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(Com Duke Ellington e Michelle Léglise, a sua primeira mulher.)

 

08. Neste ano de 1948 sucedem-se vários acontecimentos, entre o muito bom e o muito mau. Nasce Carole, a segunda dos dois filhos com Michelle, que terá como padrinho o plácido Duke Elington. O Tabou vai de vento em popa. O seu ‘alter negro’ Sullivan vende-se bastante bem. Para manter acesa a chama, quando certas vozes começam a duvidar da fraude, Vian tem novo rasgo e publica a pretensa versão original em inglês, sob o título de I Shall Spit on Your Graves. Despedido do Office du Papier, inicia as “traduções alimentares”, para a Gallimard, com Raymond Chandler. Seguir-se-ão Cheney, Van Vogt, Bradbury, Asimov, Dorothy Baker, James Cain, Strindberg. Mas também as memórias do general americano Omar Bradley, osso bem difícil de engolir para o anti-militarista Vian.

Anti-militarismo que deixará bem vincado na sua primeira peça O Esquartejamento para Todos. O atrevimento granjeia-lhe, junto da tropa fandanga, um novo grupo de inimigos do peito. Mas é também ela que o levará em 1952, mais uma vez pela mão de Queneau, ao Colégio da Patafísica“ciência das soluções imaginárias” segundo Alfred Jarry – com o título honorífico de Esquartejador de 1ª Classe.

Mas 1948 é também o ano em que morre o Major em circunstâncias nunca devidamente esclarecidas. E, com ele, todo o mundo de Boris Vian. É uma sina que o persegue. O pai havia aparecido assassinado, em 1944, no apartamento de Paris. O Major cai de um sexto andar depois de uma noite de copos.

Logo a seguir, no início de 1949, o J’irai cracher é mandado retirar das bancas. As relações com Michelle degradam-se e levam-nos à separação. Sabe-se desde 1993, a partir da biografia de Philippe Boggio, que afinal Michelle se tornara amante de Sartre.

Os livros com o seu nome – os ditos sérios – não vendem. Depois de insistir com A Erva Vermelha em 1950 e O Arranca-Corações em 53, desiste pura e simplesmente:

“Tentei contar às pessoas umas histórias que elas nunca tivessem ouvido contar. Parvoíce pura, parvoíce dupla: só gostam do que já conhecem (…). No fundo, eu andava a contar histórias a mim próprio. As que eu gostaria de ter lido nos livros dos outros.”

 

(Joan Baez, uma das muitas vozes nortamericanas que cantaram Le Déserteur durante a guerra do Vietnam.)

 

09. É na música que Vian encontra alternativas. De Abril de 1948 a Março de 49 é responsável por 45 emissões de rádio, gravadas na Radiodiffusion e emitidas em Nova York pela WNEW, onde divulga jazz francês dos anos 1930-40 aos “amerlauds”. Escritas directamente em “englishe” e depois retocadas por Ned Brandt, Vian inicia aqui a sua famosa carreira de criador de neologismos. De todos, o mais famoso seria “tube”, palavra ainda hoje usada em França para designar um hit, um êxito musical.

Se os romances e os livros de poemas não comovem ninguém, e as suas peças de teatro estão às moscas, as suas críticas de jazz valem-lhe o epíteto de “one of the top half dozen jazz writers of all time” por parte de Miles Kingston.

Quando, por causa dos seus problemas cardíacos, deixa de tocar trompete – única concessão que alguma vez fez à doença – vira-se para o “chobiz” em geral e para a ópera em particular. Em 1953 inicia-se como libretista de sucesso com O Cavaleiro da Neve, êxito que repetirá com Fiesta em 58.

Pela mão de Jacques Canetti, seu amigo, mentor e manager, que em 54 o levará para a Philips como director artístico, Vian inicia-se como autor e cantor de música popular. Escreve freneticamente, às vezes mesmo à porta do estúdio, enquanto lá dentro fazem tempo à espera da letra. Muitos musicam as suas letras, mas o único que sempre o acompanha, ano após ano, é o seu grande amigo Henri Salvador.

No total foram recenseadas 478 canções, interpretadas por mais de 200 cantores até 1960 e reeditadas depois por mais outros 70. Juliette Gréco, Reggiani, Higelin, Gainsbourg, ou até Joan Baez, devem o início, ou uma boa parte das suas carreiras, ao génio frenético de Boris Vian.

Mas foi sobretudo com Le Deserteur, escrita meses antes da desgraça militar da França na Indochina, em 1954, que Vian alcançaria, novamente através de um escândalo sem precedentes, a fama como autor-cantor. Dos concertos até aos jornais, os herdeiros da defunta França imperial acusam-no de traidor. Consoante o lado, o que muito o diverte, está ao serviço de Moscovo ou de Washington. É apupado e impedido de cantar aquela canção maldita vezes sem conta. A rádio oficial não a passa. Boris Vian diverte-se ainda mais.

 

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(Com Ursula Kubler e uma amiga no Brazier de 1911, que ele recuperou integralmente e que aparecerá na capa do single Le Déserteur.)

 

10. Nesse ano casa com Ursula Kubler, de origem suiça, bailarina do ballet Roland Petit, que conhecera em 1950 em mais uma das festas de Gaston Gallimard. Ursula revelar-se-á uma companheira inseparável, capaz de lhe aturar tudo, até as sucessivas e lendárias infidelidades com um número quase infinito de “sobrinhas”. Após a sua morte, é a ela e à perseverança do seu amigo Noël Arnaud, que se deve a memória e a fama póstumas de Boris Vian.

A Jean Suyeux confessará um dia que, não dormindo como não dormia, calculava que aos 40 teria vivido tanto como um homem normal com 106. E, tal como sempre dissera – meio a sério, meio a brincar –  não chegou a pisar os 40.

Em 1959, talvez não por acaso, sai o seu livro de poemas Je Voudrais Pas Crever, que normalmente é traduzido por “Eu não queria morrer”, embora na verdade se devesse talvez traduzir pelo bem mais fiel “Eu não queria quinar”.

“Je voudrais pas mourir / Sans qu’on ait inventé / Les roses éternelles / La journée de deux heures / La mer à la montagne / La montagne à la mer / La fin de la douleur / Les journaux en couleur (…) / Je voudrais pas crever / Avant d’avoir goûté / La saveur de la mort.”

Os deuses fizeram-lhe a vontade. Viveu até que se fartou. Na manhã de 23 de Junho assistia à ante-estreia da adaptação cinematográfica de J’irai cracher no Petit Marbeuf. Há anos que Vian mantinha uma guerra acerca desta adaptação. Finalmente, os produtores impuseram o contrato e filmaram-na. Vian não aguentou. Nessa manhã tinha-se esquecido de tomar os inseparáveis medicamentos para o coração. Às dez e dez, precisão matemática de biógrafo fuinha que talvez não tivesse desagradado ao falecido, teve uma síncope. Ainda foi levado para o Hospital Laenec, na Rue de Sèvres, onde a morte foi oficialmente declarada ao meio-dia.

 

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11. “Nasci por acaso a 10 de Março de 1920, à porta de uma maternidade fechada por uma greve com ocupação”, escrevera ele numa nota biográfica para a Gallimard. Como é bom de ver, não era verdade. Contudo, no dia do seu enterro sem padre, uma greve obriga os seus amigos a pegarem nas cordas e nas pás, perante meia Paris intelectual que suava desalmadamente debaixo de um Sol abrasador.

Da estranha massa genética e herança cultural dos Vian, Boris herdara a sua filosofia de vida e, sobretudo, aquela espécie de altivez aristocrática que considera a política coisa de nível duvidoso, mas que em Boris Vian se transformaria em independência e liberdade absoluta, tornando-o provavelmente no único homem da sua geração a não pertencer a nenhum partido, grupo literário ou capela de belas artes, apesar de ter sido consecutiva e sistematicamente perseguido pelo Comité de Moral, pela tropa, pelo fisco e pelos críticos.

Hoje, quase sessenta anos passados sobre a sua morte, Boris Vian ganhou o papel de instituição cultural. Um pouco maldita, é certo, mas já ninguém se espanta em ver a contra-cultura transformar-se em plácida e comestível cultura. Porém, apesar das reedições e das biografias sucessivas, dos rios de tinta pelos jornais e revistas, e da Fundação com o seu nome, ele consegue manter, ainda assim, uma lendária áurea de maldição. E não deixa de ser curioso que, na vastíssima net – oh, se ele lhe tivesse podido deitar o dente – apareça uma pequena página sobre um também pequeno colégio de província com o seu afortunado nome. O autor da página, depois de explicar que o patrono do seu colégio morreu de uma “overdose de travail”, conclui lapidarmente:

“Ele, pelo menos, nunca teve tempo para se chatear”.

Engenheiro mecânico de formação, matemático por inspiração, poeta, romancista em nome próprio ou por interpostas personas, tradutor, trompetista, divulgador e animador de jazz, compositor e cantor popular, radialista, dramaturgo, actor e argumentista de cinema, escritor de libretos de ópera, articulista, director artístico de várias editoras de música, inventor, patafísico, designer de interiores e até recuperador de carros antigos, Boris Vian foi tudo e não foi nada. Acima de tudo viveu, sofregamente, consciente de que os seus problemas cardíacos o levariam mais cedo que o costume. Era o primeiro a dizer que nunca chegaria aos quarenta. O seu fraco coração de homem, o deus dos patafísicos, ou até um conluio entre os dois, fizeram-lhe a vontade. Guerra à sua alma.

 

COLOPHON

 

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(Malcom McLaren à porta da sua Sex Shop, em Londres, circa 1975. Um dos ‘activistas da aldeia global’ que melhor topou a técnica de Boris Vian.)

 

Com base no axioma do início dos anos 1960, formulada pelo canadiano Marshall McLuhan – “o meio é a mensagem” – o americano Douglas Rushkoff deu um passo em frente nos anos 1990 e desenvolveu a ideia de Vírus Mediático, onde descreve os caminhos intrincados em que os media manipulam, ao mesmo tempo que são manipulados por aqueles que sabem como usar o seu incrível poder. É pena que o míope mainstream cultural americano lhe tenha ocultado a figura de Boris Vian. A par dos exemplos de Prince, Madonna, ou Michael Jackson, Vian teria certamente garantido a Rushkoff uma sólida demonstração da sua teoria.

Juntamente com Oscar Wilde, William Burroughs, Andy Warhol, Picasso, Salvador Dali e uns poucos mais, Boris Vian pertence, sem qualquer margem de dúvida, à restrita galeria dos posters do prematuramente morto e enterrado século vinte.

Boris Vian, o próprio, teria achado imensa piada a esta distinção póstuma, já que ele era o primeiro a não se levar assim tão a sério. Contudo, para dizer a verdade, desta vez ele não teria razão. Se, enquanto vivo, os romances assinados com o seu verdadeiro nome nunca foram bem aceites, e a sua tentativa de ganhar o prémio da Pléiade com A Espuma dos Dias foi derrotada por um obscuro abade, hoje Vian é uma referência fundamental para qualquer escritor que se queira moderno, depois de, em 1980, a venda desse romance haver ultrapassado dois milhões de exemplares no mundo inteiro.

Na Primavera de 1968, enquanto uma juventude enraivecida arrancava pedras da calçada e berrava “l’imagination au pouvoir”, ninguém duvidava que Vian pairava com um fantasma sobre toda uma geração de descontentes. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, uma versão de Peter, Paul and Mary de Le Deserteur transformava-se no hino dos vietnicks nos campus universitários da Califórnia.

Por outro lado, ainda está para se saber até que ponto a vindicta sanguinária do seu mulato Lee Anderson contra a opressão branca, não terá ajudado a construir a ideia do “black power”, contrariando a lógica cristã e resignada do ‘Mártir’ Luther King. Esta figura, criada pelo pretenso escritor negro perseguido na América, Vernon Sullivan, e traduzida para francês pelo verdadeiro Boris Vian, seria, ao mesmo tempo, um escândalo muito vendável e uma maldição que o levaria à morte. Mas sem esta fabulosa mistificação literária – e não só – dificilmente Dinis Machado teria sido Dennis McShade, ou Roussado Pinto teria assinado Ross Pynn. Talvez até Breat Easton Ellis nunca fosse capaz de escrever American Psico.

E, quem sabe, Malcom McLaren não tivesse podido inventar a revolução punk. Bem vistas as coisas, que outro, melhor que Boris Vian, poderia assinar por baixo as pichagens dos punks londrinos, “No Future”, ele a quem a promessa da morte fizera viver num rodopio modernista de velocidade, a mesma velocidade que James Dean e os beatnicks imortalizariam naquela ideia ainda hoje tão doce – “morrer jovem e deixar um cadáver bonito”?

 

 

(**) Inicialmente Boris Vian chamou-lhe J’Irai Danser Sur Vos Tombes. Michelle Léglise, a sua primeira mulher, não gostou do título. Achou-o até um pouco amaricado. E propôs J’Irai Cracher Sur Vos Tombes— Irei Escarrar nas Vossas Tumbas. E assim ficou.

[Este retrato de Boris Vian foi publicado na revista ÍCON/O Independente, em Janeiro de 2000.]

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This entry was posted on 13 de Maio de 2018 by in Patrícula elementar, Voyeur and tagged , , , , , , .

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