PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Vian est grand, parte I

 

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“Boris Vian est grand et Saint-Germain-des-Prés est son prophète.”

Jacques Prévert (*)

 

I Parte – INJURES NORMALISÉES POUR FRANÇAIS MOYEN

 

01. Tudo começou em 1920. 10 de Março era, até então, um dia como outro qualquer. A mãe, Yvonne, filha de um russo branco que fora director dos caminhos de ferro do czar, deu-lhe o nome em homenagem a Godounov. Segundo de quatro filhos, Boris nasceu e cresceu em berço de oiro, num palacete de Ville d’Avray, herança dos Vian, burgueses consideravelmente abastados.

O pai, Paul Vian, oito anos mais novo que Yvonne, era uma espécie de banqueiro anarquista, ateu e liberal, pouco dado às conveniências de classe. Contudo, como era apanágio dos ricos, o pequeno Boris teve direito a potenciar a sua áurea de menino prodígio com uma perceptora particular. Mais tarde odiará instintivamente estas crianças prodígio, sublimando essa sua irritação no clássico génio-pateta-alegre Wolfgang Amadeus Mozart – ou “Merdozart”, como ele lhe chamava.

No entanto, poder ler autores tão complexos como Corneille, Racine, Molière ou Maupassant, antes dos oito anos de idade, não terá sido de todo desvantajoso para alguém que precisava de viver tão depressa como ele. Até porque, um ano depois, as facilidades de menino rico iam acabar para sempre. A depressão de 1929 arrastaria os negócios na Indochina à falência. Tentando trabalhar, assunto do qual nada percebia, Paul Vian ainda chegou a ser delegado de propaganda médica e agente imobiliário. Sem qualquer sucesso. Ao fim de alguns meses, a família vê-se obrigada a mudar-se para a casa do porteiro e alugar o palacete ao pai do então gordinho e futuro grande violinista Yehudi Menuhim.

Acaba nas escolas públicas como qualquer plebeu. Liceus de Sèvres, Hoche em Versailles e Condorcet em Paris, de onde sairá aos dezassete anos para a École Centrale des Arts et Manufactures. Para além dos estudos clássicos – grego e latim – e das matemáticas, entretém-se a estudar “englishe” por fora. Foi sempre um aluno acima da média, mas nunca deu grande crédito às escolas convencionais. Em A Erva Vermelha a personagem principal, Wolf, dirá:

“Dezasseis anos com o rabo nos bancos duros. Dezasseis anos de aborrecimento.”

Entretanto, aos doze havia sofrido a primeira e premonitória crise de reumatismo cardíaco, agravada dois anos mais tarde pela febre tifóide. Saber que o coração um dia o trairia, na idade em que as hormonas começam a explicar aos adolescentes para que serve realmente a vida, marcou para sempre Boris Vian. Que numa entrevista em 1950 coloque entre os seus três autores preferidos, juntamente com Queneau e Jarry, o nome do então pouco conhecido Kafka, não deve ser motivo de grande espanto. A grande diferença entre os dois foi, contudo, abissal: Kafka deixou-se aprisionar no sanatório, Boris Vian entreteve-se a viver o mais possível.

 

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(Jacques Loustalot, o “Major”)

 

02. E começou cedo. Grande organizador de “surprise-parties”, para o qual adoptou o seu primeiro e pomposo pseudónimo de Antioche Tambrétambre, onde o jazz era já ponto assente, aos catorze compra um trompete e organiza uma banda com os irmãos e o vizinho François, filho do cientista Jean Rostand, homem influente que assumirá grande importância na vida literária de Vian quando, uns anos mais tarde, lhe apresentar Raymond Queneau numa festa de Gaston Gallimard.

Desta época – “J’étais merveilleusement inconscient, c’était bon.” – nascerá um dia o primeiro romance publicado com o seu verdadeiro nome, Vercoquin et le Plancton, escrito entre 1943 e 44. Juntamente com A Espuma dos Dias, serão os únicos editados pela séria Gallimard. Depois só editoras marginais terão coragem de o publicar. De modo que não espanta que o primeiro de todos, Trouble dans les Andains, escrito no Inverno de 42-43, só seja publicado 23 anos depois, no início da ‘febre’ Boris Vian. Naturalmente póstuma.

Apesar de tudo, a família Vian ainda dispunha de uma casa de férias em Capbreton. Durante o Verão de 1940, com a França invadida desde Maio, Boris Vian conhece, de uma assentada, Michelle Léglise e Jacques Loustalot numa dessas festas onde se ouvia jazz com a mesma atitude com que os maquis punham bombas nas linhas férreas. Michelle casará com ele no ano seguinte. Jacques Loustalot – o “Major” de inúmeras histórias de Boris Vian – tornar-se-ia no seu grande amigo, companheiro de graças, desgraças e, sobretudo, de saudável loucura.

Quando se conheceram o Major tinha quinze anos que pareciam vinte, um olho de vidro herdado de uma alegada tentativa de suicídio aos sete e uma loucura lendária que levaria o Combat – jornal dirigido por Camus – a descrever assim a sua morte, aos 23 anos:

“Cerca das três da manhã, depois de ter bebido inúmeros copos de conhaque, o apartamento tornou-se-lhe tão irrespirável como a célebre cave existencialista (Tabou). Foi abrir a janela. Tinha a cabeça demasiado pesada e inclinou-se sobre o vazio, caindo de uma altura de seis andares.”

Um obituário assim só seria possível para homenagear alguém que subia Saint-German-des-Prés, no após-guerra, completamente vestido de GI, tinha uma cama suspensa por cadeias no tecto do quarto, passava a vida a fazer saltar e a engolir o olho de vidro, penetrava em festas sem ser convidado e não saía sem antes, pelo menos, ter engolido a caixa das agulhas do gira-discos. Poucas pessoas teriam tanta importância na vida e na obra de Boris Vian. Segundo Jean Suyeux, um velho amigo:

“O Major vivia num universo de objectos animados. Boris não inventou as relações singulares dos seus heróis com os objectos. Contentou-se em relatar de uma maneira precisa, como faria um cronista, as aventuras do Major”.

Como se, sem o Major, Boris Vian perdesse, pelo menos, metade da graça. Mas também, por outro lado, como se, sem Boris Vian, o Major nunca tivesse existido, apenas uma criatura banal, arrumado no registo do cemitério como monsieur Jacques Loustalot, 1925-1948.

 

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(Leon Bismark ‘Bix’ Beiderbecke, 1903-31, hoje quase esquecido, foi com Louis Armstrong um dos fundadores do fraseado no trompete de jazz.)

 

03. Em 1942 Boris acaba a sua licenciatura em engenharia mecânica, ramo de metalurgia, com a tese “Físico-Química dos Produtos Metalúrgicos”. Mesmo a tempo. Por altura dos exames nasce o seu primeiro filho, Patrick. O curso proporciona-lhe emprego na AFNOR – Associação Francesa de Normalização, onde rapidamente ganha fama de excêntrico e um pequeno exército de fiéis inimigos entre os superiores, sobretudo por passar as reuniões a corrigir-lhes o francês. Aguentar-se-à, porém, até sair por um salário melhor para o Office Professionnel des Industries et des Commerces du Papier et du Carton, em 46. Não sem antes ter proposto, em Março de 44, dentro do espírito daquele instituto público, uma Norma das Injúrias, classificadas por tipos e respectiva gravidade, consoante o grau hierárquico a quem fossem dirigidas, e divididas em função do sexo masculino, feminino, eclesiástico, terceiro sexo, etc.

É ainda no absurdo normativo da AFNOR que Vian escreverá Vercoquin et le Plancton“esse escrevi-o para divertir a malta”. Aí o Major ficará encarregue de criar uma “norma” para a feitura adequada de “surprise-parties”, onde, entre outros, se preconizará o revestimento das paredes com materiais anti-vomitado e a colocação estratégica de beijódromos pela sala.

Se, em 1942, formar uma banda de jazz amadora com Claude Abadie era um acto de resistência, em 1945 o treino clandestino trar-lhes-ia a glória de arrebatar quase todos os prémios do 1º Torneio Internacional de Jazz Amador de Bruxelas. O sucesso leva-os em tournée França fora, das esquinas da Libertação até ao salão dos Rothschild. Por esta altura, Vian decidira-se finalmente entre os seus mestres Louis Armstrong e Bix Beiderbecke, herdando deste último o jeito de tocar o seu pequeno trompete com a ‘boca de lado’.

No após-guerra, a Paris invadida de GI’s organizaria, dia sim, esquina não, galas de beneficência. Vian saía da AFNOR, corria a casa buscar o trompete e lá ia fazer mais uma perninha, muitas vezes como substituto em orquestras de ocasião, quase sempre de borla, só pelo simples prazer de tocar. Jazz.

Desta época ressalta uma curiosidade. Nos anos 1990, a grande moda da juventude pacifista global era a roupa militar em segunda mão. Provocação óbvia? Sim. Original? Nem por isso. Talvez porque no Paris de 1945-46 a forma mais barata de arranjar roupa fosse comprar os excedentes do exército americano, o feroz pacifista e anti-militarista Vian, e os seus amigos de Saint-German-des-Prés, vestiam-se com calças e camisas militares, assim como sapatilhas da mesma proveniência, naquilo que se determinou anos mais tarde chamar de ‘look existencialista’.

 

(“La complainte du progrès”, música de Alain Goraguer, Philips, 1955. O clip visual, naturalmente, é um patchwork recente. Mas muito bem esgalhado.)

 

04. Da estadia efémera no Office du Papier – de onde seria felizmente despedido no Verão de 1947 – Boris aproveita a amizade com Claude Léon e o tempo para acabar A Espuma dos Dias e escrever O Outono em Pequim. Fiel a si próprio, descreverá os seus dias à secretária do Office:

“Escrevo cheio de comodidade, porque, uma vez aberta, a gaveta de baixo é excelente para apoiar o pé”.

Em 1944 começara já a publicar textos com os nomes de Hugo Hachebuisson e Bison Ravi, anagrama de Boris Vian. Mas é em 1946 que Vian dá início às suas – como mais tarde lhes chamará um biógrafo – vidas oblíquas.

Conhece Sartre, tornam-se amigos e ele convida-o para escrever no Temps Modernes. Aqui sairá pela primeira vez As Formigas, talvez o seu mais célebre conto, ao mesmo tempo que as não menos célebres Crónicas do Mentiroso. Ao mesmo tempo, escreve para o novo La Rue, um jornal que se dava ao luxo de relatar a eleição de Miss França em versos alexandrinos. Escreve também para a Jazz-Hot, órgão central do Hot Clube de France – primeiro clube de jazz em todo o mundo – do qual Vian fazia parte desde 1937, antes da sua cisão em dois, fundamentalistas de um lado, revisionistas do outro. Boris estava, naturalmente, deste lado. Não se era amigo de Miles Davis e Duke Ellington impunemente.

 

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(Jean-Paul Sartre, Boris Vian e Simone de Beauvoir, no Procope.)

 

05. O jazz e Vian são inseparáveis. Se se tentar encontrar um fio condutor na vida vertiginosa e aparentemente desgarrada de Vian, esse fio é o jazz, segundo Henri Salvador, principal co-autor das canções de Vian.

“Só vivia para o jazz, só ouvia jazz. Exprimia-se em jazz.”

Da devoção adolescente, Boris Vian passa à acção. E já não lhe basta tocar. Era o primeiro a saber que nunca seria um grande executante.

Uns anos antes, o Tabou não passava de um tasco, cujo único atractivo era a proximidade dos jornais, o que lhe permitia autorização excepcional para estar aberto fora de horas. Após o fecho do Bar Vert, do Procope e, sobretudo, do Flore, onde Sartre, Camus, Queneau ou Merleau Ponty, bebiam à saúde das respectivas revoluções, o Tabou era a última porta aberta onde todos atracavam no fim da noite. Vian, que já vira uma primeira tentativa fechada pelas autoridades, convence os donos do Tabou a dar outra utilização à minúscula cave. Hesitantes, mas encorajados com o sucesso do Lorientais – a primeira cave do bairro – alinham na ideia e contribuem, assim a contragosto, para a criação de uma das maiores lendas do jazz: Mesdames e Messieurs, le Tabou. Todos, clientes ou músicos, famosos ou não, passavam por lá para fazer uma perninha. Ou, melhor, iam lá ‘fazer a festa’.

O Vian agitador, treinado desde a juventude na arte das “surprise-parties”, ganhará o cognome de Prince de Saint-German-des-Prés ao contribuir, talvez como ninguém, para a lenda do bairro. As suas festas onde se elege, por exemplo, uma Miss Vício, bem como os seus espectáculos de cabaré, com textos e encenações verdadeiramente delirantes, dão-lhe a notoriedade e as compensatórias massagens ao ego, sobretudo quando a literatura lhe é madrasta.

Ainda 1946 não ia a meio, as recentes amizades com Sartre e Queneau convencem a Gallimard a propor A Espuma dos Dias“uma história inteiramente verdadeira, já que a imaginei de uma ponta à outra” – para a Pléiade, um prémio importante que Vian viu preterido por um romance de um obscuro abade, inexplicável tentação literária nos homens de Deus que, já em 1935, havia levado um abade semelhante a roubar o primeiro lugar à Mensagem de Fernando Pessoa.

Não sem um certo sentido de vingança poética, nesse Verão Boris Vian resolve criar uma das mais importantes e espectaculares mistificações da literatura. Pelo menos desde que, em 1764, Horace Walpole ‘traduziu’ do italiano medieval O Castelo de Otranto de um tal Onuphrio Muralto, Nápoles, 1529.

De férias em Saint-Jean-de-Monts encontra o amigo e quase falido editor da Le Scorpio, Jean d’Halluin. Este diz-lhe que, para levantar a cabeça, precisa de um romance tipo No Orchids for Miss Blandish, de James Hadley Chase, que fizera furor na recente Série Noire da Gallimard. Vian tem uma ideia ainda melhor. Se o objectivo é montar uma operação de vendas, então há que fazer a coisa bem feita. E propõe-se, logo ali, escrever-lhe um best-seller em quinze dias.

 

(*) Espólio da Fondation Boris Vian, Paris, in poésie, revue bimestrielle.

[ Continua:  Boris Vian est grand, II – A MALDIÇÃO VERNON SULLIVAN ]

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This entry was posted on 7 de Maio de 2018 by in Patrícula elementar, Voyeur and tagged , , , , , , , .

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