PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Pequenos consolos burgueses

revista_Expresso_14ABR2018
Há tanto tempo que não lia o Expresso em papel que não sabia que a revista era agora não apenas a revista mas também o antigo cartaz (agora os textos sobre livros e artes estão na revista), não sabia que se chama E, enfim, não sabia (escusam os meus amigos burgueses de se indignar, está bem?). Eis que dei por mim a ler a actual revista do velho “Espesso”, o jornal que pelas tardes de Sábado, preferencialmente ensolaradas, ocupa o tempo, os silêncios, os tédios e “instrói” tantos burgueses com bons empregos e/ou boas rendas – pois há todos os outros, os que são só burgueses, e fazem o que podem, e por vezes o que nem precisavam, para jamais deixar de sê-lo (distinção especialmente necessária numa edição em que Pedro Mexia grafa argumentos muito pertinentes sobre o que é hoje ser burguês, a pretexto de um livro de Mário de Carvalho que toma emprestado um verso de Cesariny).

Ainda não li o resto da edição do Expresso deste dia (um jornal que tem uma agenda partidária que paulatinamente vai cumprindo, de mãos dadas com a SIC-Notícias), mas a revista, muito embora não me encha as medidas (tenho em mim a esquisitice idealista de quem anda a pensar sobre o jornalismo há muitos anos), é um bom pedaço do que para mim, na qualidade de leitora, pode ser uma boa publicação jornalística, escrita por gente que sabe sobre o que escreve e que consegue escrever bem até mesmo com aplicação do “Acordo” ortográfico – salvaguardadas as devidas excepções e os cronistas eternos do Expresso que já não têm nada para dizer há muito tempo.

Na E (estranho pobre nome para uma revista gordinha cheia de boas coisas para ler) pude encontrar bons textos de jornalistas conhecedores dos seus temas, sobre assuntos incontornáveis da actualidade (a Síria, o Brasil), uma entrevista longa (um pouco ligeira demais para o meu gosto) a um cozinheiro mais interessante do que os chefs que a tevê tem consagrado, boas fotografias de imprensa do talentoso Tiago Miranda (mais interessantes do que muitas que vi na antiga revista do Expresso, a Única, na qual se fazia por vezes uma lamentável confusão entre jornalismo e outra coisa qualquer mais parecida com publicidade, transformando fotografias feitas em reportagem em algo totalmente – e diria mesmo ofensivamente, em termos jornalísticos – desligado do que era reportado nos textos) e da Rita Carmo, uma maravilhosa pequeníssima entrevista a um arquitecto chamado Issa Diabaté, bons (para não dizer óptimos) textos de Diogo Ramada Curto, Jorge Calado, Luís M. Faria, Cláudia Galhós, e, para mim ainda e sempre o melhor prosador desse caderno do Expresso, Pedro Mexia (muito especialmente na sua crónica, Fraco Consolo, que a mim me consolou totalmente).

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 14 de Abril de 2018 by in Jornalismo, Patrícula elementar, Sociedade and tagged , , , , .

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