PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Como destruir um sistema teatral

p. 21 do livro A Cidade do Teatro (edição comemorativa pelos 20 anos da Mostra de Teatro de Almada, 2016), de António Vitorino, Isabel Mões, Nuno Bernardo, Sarah Adamopoulos, Vítor Cid e Xico Braga, com prefácio de Viriato Soromenho-Marques e desenhos de Ângela Luzia, João Lima, Luís Miranda e Rui Silvares

 

Quando fiz a minha pesquisa para o livro A Cidade do Teatro (2016), fiquei a saber muitas coisas que desconhecia totalmente, e até alguns segredos que jamais revelarei nem que me torturem, mas talvez a coisa mais importante que então aprendi tenha sido efectivamente a que levei para o título do livro que celebrou os 20 anos da Mostra de Teatro de Almada [um pequenino festival de Outono, participado por muita gente – amadores uns (alguns por falta de apoio à profissionalização) e profissionais outros – com muito poucos meios para fazer muito teatro durante muitos dias], e que respondeu à pergunta que fiz quando me abalancei a esse trabalho: por que é que toda a gente faz teatro em Almada? Serão todos maluquinhos?

Não são, creio que justamente porque fazem (ou já fizeram) teatro, e vão ver teatro com a naturalidade de quem tem o teatro no corpo. Que é como quem diz na História. No território. No imaginário colectivo. Na tradição. Nos hábitos. No quotidiano da comunidade. E, portanto, necessariamente, no corpo. Uma realidade que decorre de um conjunto de razões, entre as quais destaco, pela sua preponderância, o forte movimento associativo que, desde meados do século XIX, fez (e ainda faz) do teatro a arte de catarse social daquela população (algo de primeira necessidade num território de periferia relativamente ao grande centro que constitui a capital do país); e o trabalho de pedagogia (necessariamente começando pelas escolas e pela formação de professores) e de criação de públicos para o teatro iniciado por Joaquim Benite quando pegou no projecto que tinha em Campolide (Lisboa) e o levou para Almada, determinado a construir algo único, ambicioso e jamais tentado: um sistema teatral local, com (ainda hoje) inédito significado nacional, e implantação internacional (o Festival).

E então pergunto-me, ‘arrumando’ a pergunta longa como num poema, para que não falte o fôlego ao senhor ministro-poeta:

Como pode ser que a Direcção-Geral das Artes
(de um governo que fez questão de devolver um ministério à Cultura),

por razões obscuras e contingentes,
tecnocratas e burocráticas,
legitimadas pela natureza
(incompreensivelmente deficiente)
de um modelo dito de apoio sustentado
que à luz da Lei fundamental
do Estado de Direito de Portugal
devia ser absolutamente
de fomento
ao desenvolvimento,
um modelo que mistura
alhos com bugalhos,
ou seja,
companhias surgidas no pós-25 de Abril,
isto é,
projectos com caminho feito e provas dadas,
independentemente de considerandos estéticos
e/ou sobre a sua capacidade de renovação,
com casa, ordenados para pagar
e programação para assegurar,
concorrendo em plano de igualdade de critérios
com estruturas mais recentes e pequenas,
assentes em pequenos núcleos de criadores
cujo trabalho se centra essencialmente
em projectos de criação de teatro de arte,

não perceba a que ponto é criminoso o acto por decreto que,
se não for revertido,
destruirá de uma assentada parte considerável
de «um sistema teatral que levou décadas a estabelecer»,
como escreveu há dias Miguel-Pedro Quadrio?

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, tem-se dedicado à edição de livros - criação e produção editorial. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, por sua iniciativa editorial, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Escritora e dramaturgista, tem sempre espectáculos de teatro e poemas na cabeça.

2 comments on “Como destruir um sistema teatral

  1. Pingback: Pacheco Pereira e o “problema da relação do Estado com a criação artística” | PATRÍCULA ELEMENTAR

  2. Pingback: Como destruir um sistema teatral – Aventar

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