PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Absinto

 

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“O terceiro anjo tocou a trombeta e caiu do céu uma grande estrela, ardendo como uma tocha, sobre a terça parte dos rios e das fontes. O nome da estrela era Absinto. A terça parte das águas transformou-se em absinto e morreram muitos homens, porque a água se tornou amarga.”

Apocalipse 8, 10

 

VERDE, QUE TE QUERO AMARGO

Durante mais de cem anos foi o arquétipo de todos os simbolismos. Foi bebido pelo povo de Paris ao sagrado bater das cinco, idolatrado por poetas malditos como Verlaine, Rimbaud ou Baudelaire, glorificado por mágicos e ocultistas como Aleister Crowley ou Fernando Pessoa, e recriado por assinaturas hoje caríssimas, como Van Gogh, Manet, Lautrec, Degas ou Picasso. Desde a sua invenção com fins terapêuticos, até à sua proibição em boa parte do mundo, o absinto foi alvo de todos aqueles equívocos que fazem das lendas, mitos e da contracultura um culto muito ocidental.

A primeira referência conhecida vem da antiguidade egípcia. As propriedades da vulgaríssima planta, que cresce sem dificuldade em boa parte do mundo – Artemisia Absinthium (wormwood em inglês) –  enriqueciam, tanto uma mezinha para baixar a febre, como uma esotérica poção mágica para expurgar doenças do ânus causadas por demónios. Para Hipócrates, anemia, asma, reumatismo e cólicas menstruais iam bem com as suas propriedades medicinais, enquanto para Soranus, outro grego, este a praticar em Roma, nada era melhor para acabar com uma gravidez indesejada.

Na sempiterna Bíblia é sistematicamente referido como sinónimo de amargura: “Os lábios da mulher perdida destilam mel, mas no fim são mais amargos que o absinto.” (Prov 5, 3) Ou, no lamento de He: “Ele encheu-me de amargura, saciou-me de absinto.” (Lam 3, 13) Porém, a mais importante vem a ser a do Livro da Revelação, vulgo Apocalipse, cuja referência no capítulo em que se abre o fatal Sétimo Selo lhe traz, definitivamente, a má fama e a aura de maldição que ainda hoje persegue a pobre planta e seus derivados – “A terça parte das águas transformou-se em absinto e morreram muitos homens, porque a água se tornou amarga.”  E porquê? Porque as folhas da planta, devido à forte presença do óleo de tujona, esse sim potencialmente tóxico, são amargas como fel.

E a maldição estava estabelecida. Até no Kama Sutra é aconselhado o seu uso dissuasor no capítulo – Modo de vida da mulher virtuosa e do seu comportamento na ausência do marido.

Durante as Idades Médias, a planta nunca deixou de estar presente no folclore medicinal, frequentemente associada a magias, bruxarias e outras aleivosias, e não seria naturalmente ignorada por Shakespeare, nos sonetos e no Hamlet, sob a forma de eysell, um vinho tratado com absinto.

 

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FÉE VERTE

Esta, apesar de tudo, calma existência terminaria em 1792, quando o ‘físico’ francês Pierre Ordinaire inventou a técnica de destilação que ainda hoje mais ou menos usamos. Segundo o inventor, a beberagem, que logo foi alcunhada de fada verde, era boa para aumentar o apetite e estimular a digestão, remediava epilepsia, gota, dores de joelhos, cólicas, dores de cabeça e, pasme-se, tratava da saúde ao alcoolismo. Ironicamente, na França da época, a figura da fada representava, para o imaginário masculino, uma figura de mulher mágica, mística, fatal. E isso talvez possa ter ajudado à fantasia.

Henri-Louis Pernod percebeu que ali havia negócio e abriu uma destilaria na Suiça em 1797. E, logo em 1805, outra bem maior em França.

A grande divulgação deve-se, contudo, à guerra argelina de 1830 em diante, onde era ministrado aos soldados para baixar a febre e combater a desinteria. No regresso, os soldados, que aproveitavam os seus potentes 80º para fazer peito e enfrentar o inimigo, trouxeram o hábito de o beber como aperitivo.

E o sucesso cresceu, sobretudo porque sucessivos anos de más colheitas transformaram o vinho numa bebida demasiado cara para o cidadão comum. De resto, como seria de prever, os produtores de vinho virão a estar entre os mais fervorosos grupos de pressão durante o processo que levará à proibição do absinto em França.

 

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NATUREZA BOÉMIA COM ORELHA

Quando, em 1869, Manet pintou O Bebedor de Absinto, os dados já estavam lançados. Cinco anos depois Rimbaud chega a Paris e conhece Verlaine. Do que então se passou entre eles, com camas e tentativas de homicídio à mistura, até ao dia em que o jovem Rimbaud se alistou no exército e abandonou a poesia, rezam hoje várias lendas e outros tantos mitos. Verlaine fica para trás, ainda mais perdido do que já estava. Bebedor inveterado de absinto, a sua má fama teria significativo peso para que, no início do século XX, absintismo fosse sinónimo de alcoolismo.

Depois há o caso Van Gogh, outro ‘agarrado’. Terá cortado a orelha num acesso de loucura e tentado anavalhar Gaugin noutra ocasião semelhante. Se quanto à orelha há sobejas provas do ocorrido, quanto à história da navalha só temos a palavra de Gaugin. O que é certo é que Van Gogh bebia muito absinto – as suas cores de esmeralda, quando não figuras bebendo absinto, são recorrentes – porém, quanto a beber, ele até a trebentina das pinturas, à falta de melhor, lhe servia. E é preciso levar em consideração que 80º de álcool – da receita original do absinto – bebidos durante um longo período de tempo, não poderão nunca fazer qualquer bem à saúde.

E houve ainda o Grande Provocador Alfred Jarry, inventor da Patafísica, do Surrealismo e do infame Père Ubu, que gostava tanto da ‘fada verde’ que se passeava em Paris vestido a preceito. Ou do respeitável Musset, tão dependente do absinto que, nos últimos anos, já não conseguia aguentar as sessões da Academia. Ou de Degas que pintou, em 1875, o famoso L’Absinthe. Para já não falar da verdadeira fixação de Picasso. Entre 1903-14 pintou o remake de Manet O Bebedor de Absinto, Mulher Bebendo Absinto, Copo de Absinto, Garrafa de Pernod e Copo e, ainda, a escultura em bronze pintado Copo de Absinto.

Do outro lado do mar, a francesa Nova Orleães foi a porta de entrada numa américa onde já se ouviam as vozes piegas que a haveriam de levar à Lei Seca. No The Old Absinthe House, onde uma fonte de água gelada ocupava o centro da sala, Aleister Crowley escreveu: “O proibicionista é sempre uma pessoa sem moral nem carácter e por isso não consegue conceber que um homem seja capaz de resistir à tentação.” (The Green Goddess – in 777 and Other Qabalistic Writings, Crowley atribui ao absinto o nº 27 segundo a Escala Chave da sua Tábua de Correspondências)

Enfim, por estas e por outras, não admira que, a par de um consumo feito moda nas esplanadas de Paris à ‘hora verde’, todo um culto de maldição e decadência se tenha desenvolvido à sua volta.

 

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A MORTE BEBIA ABSINTO

O seu sucesso como símbolo de contracultura projectou-se para o início do século 20. Vivia-se já um clima de guerra eminente e, nesses períodos, manda a boa propaganda que se encontrem bodes expiatórios, inimigos internos, inimigos externos, alvos fáceis, enfim, nada de novo. E o absinto transformou-se num alvo a abater.

Premonitoriamente, a 11 de Agosto de 1903 a fábrica de Pernod em Pontarlier incendeia-se e arde durante quatro dias seguidos. Um ano depois, a 28 de Agosto, o suiço Jean Lanfray assassina a mulher. O homem tinha bebido, ao longo do dia, uns bons litros de diversos alcoóis, mas alguém se lembrou que também tinha bebido absinto. Semanas depois, Sallaz, outro suiço, matou a mulher em Geneva também com uns copitos de absinto. E pronto, era o elemento que faltava.

No seguimento do julgamento a bebida é proibida na Suiça. Nos EUA é banida em 1912. Porém, na França natal, ainda resistiria até ao início da guerra. Aliás, não deixa de ser curiosa a intervenção do deputado Henri Schmidt no Parlamento Francês em 1915: “Nous attaquons l’érosion de la défense nationale. L’abolition de l’absinthe et la défense nationale, c’ est la même chose.”

Seja por que boas e patrióticas razões fossem, o que é facto é que arrastou a proibição em quase toda a Europa, excepto Portugal, Espanha e Andorra – e, sabe-se agora, também em Inglaterra onde, pelos vistos, nunca foi formalmente banida. E o motivo é óbvio. Lá porque dois poetas malucos em Lisboa, quatro em Londres e outros três em Madrid bebiam absinto, isso não constituía um problema social e ninguém se lembrou de lavrar lei apropriada.

 

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A RESSACA SEGUNDO OSCAR WILDE

“After the first glass of absinthe you see things as you wish they were. After the second you see them as they are not. Finally you see things as they really are, and that is the most horrible thing in the world.”

Durante décadas o absinto desapareceu do imaginário dos jovens e dos artistas. Tirando Hemingway, que sempre demonstrou um apetite voraz por qualquer forma de álcool, não ficaram muitas referências literário-pictóricas das novas gerações de enfants térribles. Na verdade, dedicaram-se a descobrir a erva, os ácidos, a heroína, a cocaína, o ecstasy, etc., como drogas de substituição do pretenso caracter alucinogénico do absinto.

Contudo, no início do novo milénio houve um esboço de ‘come-back’. A partir do laboratório de músicas e modas que então eram os verões de Ibiza, uma nova vaga de apreciadores rejuvenesceu, durante um curto período de tempo, um mercado que se julgava praticamente extinto.

Enfim, um fenómeno recorrente. Desde os anos 1960 que os americanos se deixaram tentar pela violência alcoólica do mescal e da tequilla. Nos anos 1980 o vodka tornou-se a moda dominante entre os yuppies de Nova Yorque. No início dos anos 1990 uma bebida chamada Jägermeister (mestre caçador), também conhecida por ‘liquid valium’, invadiu os campus universitários americanos com os seus demolidores 70º. Moda rapidamente substituída pela do gin, por agora a bebida espirituosa mais em voga.

Moral da história – porque que é que sucessivas gerações de jovens gostam tanto de coisas perigosas como o absinto, é a pergunta que sempre aflige sucessivas gerações de pais preocupados. Bom, a única resposta aceitável que se conhece é a que Gloria Scott, veterana ex-junkie, entretanto dedicada a programas de reabilitação, deu à Newsweek em 1996: “It sounds romantic, it’s gloom and doom.”

 

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FADA VERDE, MODO DE OBTER

Num copo longo e estreito deite uma parte de absinto. Suspenda a colher de absinto com um cubo de açúcar e verta-lhe por cima água gelada. Com a lentidão, que só a prática definirá como acertada, a água gelada e o açúcar derretido formarão, em contacto com o absinto, uma fada verde. É provável que a partir do terceiro absinto a fada verde lhe apareça com maior facilidade.

Eu, durante uns anos, bebi muito absinto apenas com duas ou tês pedras de gelo. Mas há opções menos amargas:

B-52 – Copo de shot. 1/3 de Irish Cream, 1/3 de Tia Maria, 1/3 de Absinto, por esta ordem, para obter as três camadas bem definidas. Pega-se fogo ao absinto, deixa-se arder durante uns segundos e bebe-se por uma palhinha antes que o fogo se extinga.

EARTHQUAKE (atribuído a Ernest Hemingway) – 1/8 de Gin, 1/8 de Bourbon e 3/4 de Absinto. Agita-se com gelo picado num shaker e serve-se num copo Collins.

PEDRA – 1/6 de Tequilla, 1/6 de Vodka, 1/6 de Black Rum, 1/6 de Irish Cream, 1/6 de Xarope Granadine e 1/6 de Absinto, por esta ordem. Bebe-se como o B-52.

TNT – 1/4 de Cognac, 1/2 de Cointreau, Casca de Bitters e 1/4 de Absinto. Mistura-se com gelo picado num shaker e deita-se num copo Dry Martini.

 

 

[Uma versão ligeiramente diferente foi publicada na revista ÍCON / O Independente, em Dezembro de 2000.]

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This entry was posted on 29 de Janeiro de 2018 by in Patrícula elementar, Voyeur and tagged , , , , , .

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