PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Diamonds are a girl’s best friends

 

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Em Março de 1953 uma loira e uma morena, até aí não tão famosas como isso, gravaram nos estúdios da MGM um dueto para abrilhantar a comédia de Howard Hawk – Gentlemen Prefer Blondes. Apesar da ligeireza do enredo, poucos filmes terão, contudo, criado tantas lendas de uma só vez. Marylin Monroe e Jane Russel devem boa parte do seu estatuto de sex symbols a este filme. E, mesmo aqueles que nunca o viram, não gostam de comédias misóginas ou de mulheres tout court, certamente conhecem Diamonds Are a Girl’s Best Friends.

Contudo, nem sempre os diamantes foram os melhores amigos das mulheres. E a atestá-lo está o Hope Diamond, jóia da coroa do Smithsonian Institute de Washington, D.C. e visitado, todos os anos, por vários milhões de curiosos.

O Hope não é, nem de longe, o maior diamante do mundo – essa honra pertence ao Cullinan, encontrado em 1905 na África do Sul com 3 106, 75 carats e que, depois de lapidado, deu origem aos Cullinan I e II , respectivamente, com 530, 20 e 317, 40 carats, ambos pertencentes à Coroa Britânica. Nem sequer pertence ao top ten destas maravilhas – entre os lapidados o décimo lugar pertence ao RedCross com 205 carats e, entre os não lapidados, esse último lugar é ocupado por um desgraçado sem nome mas com mais de 620 carats, encontrado também na África do Sul, em 1984.

No entanto, apesar de mignon, o Hope é, seguramente, o diamante mais famoso da história. Primeiro vamos aos factos. Em Dezembro de 1668, Jean-Baptist Tavernier – aventureiro e reconhecidamente o primeiro marchand de diamantes – regressou à sua França natal. Luís XIV, o Rei-Sol, apaixonou-se por uma pedra azul em bruto com mais de 112 carats – proveniente da mina de Kollur, na região de Golconda, Índia – e intimou-o a vender-lha, juntamente com algumas menores do seu espólio de 1 200,  em troca de muitos luíses e um título honorífico. Entregue ao joalheiro da coroa – Sieur Pitau – o diamante ficou reduzido a pouco mais de 67 carats. Em 1749, o joalheiro de Luís XV Andre Jacquemin deu-lhe novo engaste em forma de flor de lis, peça cerimonial da Ordem  do Tosão de Ouro, usada pelo monarca em ocasiões solenes.

Durante a Revolução Francesa, mais precisamente na madrugada de17 de Setembro de 1792, todas as jóias da coroa foram roubadas e, com elas, o Diamante Azul. 1812 é a data da primeira notícia da localização da pedra, agora com pouco mais de 44 carats, supostamente na posse de Daniel Eliason, que o terá vendido ao rei inglês Jorge IV. Após a sua morte, em 1830, as suas dívidas eram tantas que o diamante foi vendido a Henry Philip Hope, nome pelo qual a pedra é conhecida a partir de então. Nove anos depois um seu herdeiro, Lord Francis Hope, voltou a vendê-lo para pagar as dívidas aos novaiorquinos Joseph Frankels & Sons que, por sua vez o venderam ao turco Selim Habib. Em 1909, este tentou leiloá-lo em Paris, sem conseguir. Contudo C H. Roseneau comprá-lo-ia para imediatamente o revender a Pierre Cartier.

Ao que parece, Cartier já a tinha fisgada quando o comprou, porque é a partir daqui que a lenda da maldição do Hope ganha forma e conteúdo. É verdade que já Alexandre Dumas tinha romanceado à volta da jóia, com os três mosquesteiros e a célebre Comtesse de La Motte à mistura, mas negócio é negócio e Cartier, conhecendo a fama da excêntrica milionária Evalyn Walsh McLean, resolveu forçar a lenda para melhor vender a pedra.

Segundo ele, a pedra era um dos olhos de uma divindade Índia e fora roubada por Tavernier em 1642 – daí a origem da maldição. Por causa dela, Tavernier teria morrido na miséria na Índia, comido por cães selvagens. Na verdade, o homem morreu rico em Moscovo aos 84 anos. Maria Antonieta teria perdido a cabeça, não por causa da Revolução, mas porque usou a jóia, facto pouco provável, pois só ao rei era dado usar o símbolo da Ordem do Tosão de Ouro. É verdade que, quer Jorge IV, quer a família Hope, morreram na miséria, obrigando os sucessores a vender o diamante para pagar as dívidas, mas inferir daí o dedo da maldição de um ídolo zarolho mais não é que um belo conto do vigário de Monsieur Cartier.

 

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Seja como for, Evalyn McLean, com algumas alterações no engaste e no colar envolvente, acabou por comprá-lo em 1911 por 154 mil dólares e, maldito ou não, não deixa de ser verdade que teve um triste fim, não sem antes ver morrer o marido louco, um filho de overdose e o outro de acidente de automóvel.

Quando morreu, em 1947, os herdeiros encontraram uma claúsula testamentária que impedia a venda do diamante, juntamente com os outros da colecção, durante vinte anos. Porém, Harry Winston comprá-lo-ia em 49. Em 1958, a 10 de Novembro, talvez por força da superstição, Harry Winston doou-o ao Smithsonian, onde descansa placidamente no átrio principal. E não é que, mesmo assim, há quem acredite que Kennedy foi assassinado porque, um ano antes, Jacqueline tinha convencido o Instituto a emprestá-lo ao Louvre de Paris para a mostra “Dez Séculos de Joalharia Francesa”?

 

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HOPE DIAMOND: FICHA TÉCNICA

Propriedade actual: Smithsonian Institute, Washington, D.C.

Peso: 45,52 carats

Cor: azul escuro, por vezes descrito como “ azul de aço”

Claridade: aparentemente perfeito

Corte: oval

Engaste: 16 diamantes brancos com corte de pêra

Colar: 45 diamantes brancos sem corte definido

 

Este texto foi publicado, pela primeira vez, na revista Ícon, em Fervereiro de 2000

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This entry was posted on 20 de Setembro de 2017 by in Patrícula elementar, Voyeur and tagged , , , , , .

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