PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

A música da rádio

Passei há muitos anos pela TSF, onde fiz e deixei amigos. Passei sem fazer grande alarido, com um programa de autor um bocado elitista e de formato esquisito (i.e., não-convencional) que havia criado e começado a emitir na XFM, e cujo tema central era, imagine-se, o cibermundo. Foi nos finais dos anos de 1990. Já então a publicidade na TSF era, do meu ponto de vista, um exagero. Vi-me obrigada a aprender a gerir esse lugar imenso da publicidade (mas também do futebol, note-se), e o meu programa, ainda assim de duas horas, reduziu-se em muitos e muitos minutos, por forma a acomodar-se às condicionantes da antena da TSF.

Bem sei que não havia outra maneira de manter a TSF viável. A rádio, de modelo pioneiro e qualidade concorrencial (desde logo relativamente à oferta do Serviço Público), assentando essencialmente na componente informativa, precisava de todos esses anunciantes – tal como a imprensa (então ainda de boa saúde, embora o declínio tivesse já começado, com a chegada da Internet ao público em geral e o horizonte de massificação que pressupunha) precisava de ter anúncios nas suas páginas.

Sucedeu que aos poucos, com a crescente dificuldade em manter as receitas publicitárias nos níveis financeiramente realistas (entrou-se nesse momento no primado da ideia de realidade que desde então tem enformado os nossos dias e levou à crise iniciada nos Estados Unidos em 2007), a qualidade geral da TSF foi-se degradando em aspectos que, apesar de poderem parecer acessórios, não o eram. Assim determinavam as decisões de quem, pensando decerto fazer bem, julgou que talvez cortando nos radialistas e “popularizando” os sons musicais da rádio pudesse torná-la mais apetecida por mais gente.

A música, que tinha na TSF um lugar acarinhado, a que se acrescentava a circunstância de a estação funcionar então num espaço partilhado com outras rádios onde a música era o core business (i.e., o negócio nuclear, no qual se sustentava toda essa actividade radiofónica), passou a ser tratada como um conteúdo sem relevância editorial. Um erro enorme, responsável sem dúvida por parte do decréscimo de ouvintes. Pois quem se interessa por uma informação de qualidade, precisa, concomitantemente, de música de qualidade. Ora, se havia coisa que os playlists não podiam oferecer era justamente isso, dado que são programadas com base em critérios comerciais.

Aos poucos, fui deixando de ouvir a estação, por não conseguir aguentar a um tempo a agressividade da publicidade e a música das playlists. Apesar de considerar que a música da Antena 1 é uma pecha – para a qual há seguramente solução sem hipotecar o cumprimento da lei das quotas -, a qualidade do seu serviço informativo compensa aqueles longos minutos em que fico a par das novidades da pior música portuguesa, e não há anúncios e estridências (com excepção dos futebóis). Tenho saudades de algumas vozes e programas que ouvia na TSF, mas a paisagem sonora da estação tornou-se de tal forma repulsiva que raramente me disponho a matar ao menos uma parte dessas saudades.

E sempre que penso neste assunto, o do lugar da música no modelo de negócio das rádios, lembro-me da Sílvia Alves na XFM a passar música em directo, no programa (cujo nome não recordo) em seu nome que então tinha na mítica estação – por onde passaram grandes nomes da rádio como o António Sérgio, o Aníbal Cabrita ou o Ricardo Saló, para citar apenas três num interessante universo de gente com gosto e conhecimento musical incrivelmente vasto e apurado, e de quem a Inês Meneses, na Radar, é uma digna herdeira, sorte a nossa. Lembro-me mais exactamente desse certo dia em que a Sílvia Alves decidiu passar novamente um tema que tinha acabado de pôr no ar, apenas dizendo, com poucas palavras para não estragar, que aquilo era tão bom que o melhor era ouvir outra vez.

Entre esse dia já tão longínquo e este em que escrevinho estas linhas, o Mundo mudou. A XFM foi encerrada, por não conseguir manter-se num mercado que era então ainda apenas nacional, a rádio transferiu-se para a Internet (embora ainda não para a Globalização, replicando as dificuldades da imprensa) e os websites das rádios concorrem com os dos jornais. Tudo há-de ir ao sítio, conforme as administrações das rádios e dos jornais forem percebendo que a grande ilusão não é a Globalização (goste-se ou não, é irreversível) mas a resistência a encará-la de frente – e encará-la como uma oportunidade, pois é isso que representa para um país cuja Língua está tão significantemente espalhada pelo Mundo.

[Outros textos sobre os impactos da revolução digital no jornalismo reunidos aqui]

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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