PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

“Há qualquer coisa de fundamentalmente certo e civilizado nesta greve”

autoeuropa_greve2017
(c) Rui Minderico – Lusa

“Com um bocado de azar passam a trabalhar dia nenhum”, li por aí sobre a greve na Auto-Europa. Não foi o comentário pior, nem por sombras, como está bom de ver. Há nele até muita justeza pragmática, apesar de em pano de fundo estar a mesma mentalidade desgraçada: a que ainda prevalece entre os portugueses e trata o trabalho que os outros têm como uma dádiva (uma bênção, uma sorte, uma noz a quem tem dentes muito piores que os próprios) marcada, dir-se-ia, pela ilegitimidade. O melhor comentário ouvi-o na tevê a um jovem trabalhador da Auto-Europa que disse que a gente não nasce só para trabalhar.
Cada um sabe do seu trabalho, o que fez para o conseguir, o que faz para o manter, e aquilo a que está disposto para o preservar, legando tudo isso, que não é pequeno património humano, aos trabalhadores do futuro. Há qualquer coisa de fundamentalmente certo e civilizado nesta greve totalmente inédita que teve hoje lugar em Palmela, Portugal, na fábrica da Volkswagen chamada Auto-Europa.


A Alemanha, aliás, viu nascer no seu território um interessante modelo de gestão das grandes empresas que confere rosto humano e valor social às indústrias, favorecendo uma redistribuição que passa justamente pela voz deliberativa (e não apenas consultiva, como no modelo, ainda dominante, da anglo-esfera) de representantes dos trabalhadores e parceiros estratégicos (agências de desenvolvimento regionais, por exemplo) que se sentam à mesa com os delegados dos accionistas para pensar juntos prospectivamente.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 30 de Agosto de 2017 by in Economia, Europa, Patrícula elementar, Sociedade and tagged , , , .

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