PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O teatro português que ainda não há

 

Gosto por vezes de escrevinhar (que escrever é outra coisa) em cima do acontecimento – eis uma coisa, entre outras mais, que me ficou do jornalismo. O Festival de Almada, acontecimento único em Portugal, de enorme importância para o País no plano da inscrição de Portugal na cena teatral internacional (legado que devemos a Joaquim Benite e à visão política estratégica que se traduz no apoio generoso da Autarquia almadense) foi hoje palco de um colóquio matinal na Casa da Cerca intitulado O novíssimo teatro português. Conversa mais para os ‘teatrólogos’ e entusiastas-militantes do teatro, com uma sala ainda assim ‘composta’, e em que também marcou presença o director da Companhia de Teatro de Almada e do Festival de Almada, Rodrigo Francisco.

Na mesa, um bom punhado de novos encenadores (não apenas novos como também jovens, e que bom saber que existem e que fazem do teatro o seu modo de vida, ofício, arte), moderados pelo ex-crítico teatral João Carneiro, discorreram sobre alguns temas relacionados com o actual teatro feito em Portugal – desafortunadamente sem grande tempo para aprofundar qualquer um dos tópicos, e tendo-se na verdade o debate afunilado muito depressa, até alcançar o inevitável ‘chão’ por onde portuguesmente falando tantas vezes acabam todas as conversas em Portugal: os meios materiais, as infra-estruturas, os apoios à produção, as políticas públicas, etc., etc.

O tema, porém, era realmente outro, e incidia em algo mais interessante – e cujo debate é da maior relevância: que novíssimo teatro é esse, no plano artístico, i.e., em termos estéticos? O que transporta desde logo uma segunda questão: como pode falar-se de um ‘novíssimo teatro português’ num país em que não existe uma identidade teatral? Garrett disse-o, António Pedro repetiu-o, e eu, daqui do meu ponto de mira, já o século vinte e um vai bem entrado, vejo-me na triste condição de ser levada a refazer a pergunta: que teatro português? Existe tal coisa? Não creio.

Duas ideias mais, ainda.

Primeira: o que actualmente se tenta no teatro feito por portugueses padece inevitavelmente de um contexto altamente adverso – não apenas ao teatro mas a toda a criação artística (embora possa essa adversidade funcionar também como motor, que aliás o chamado teatro pós-dramático – o que é isso, afinal? – tem sabido explorar em favor de uma experimentação nem sempre falhada).

Segunda: o teatro, para poder ser português, precisa de se religar ao bom texto de Língua e pensamento portugueses, e também à construção dramatúrgica (que pode construir um teatro sem texto falado, note-se) escrita pelos escritores e dramaturgistas, e não por pessoas estrangeiras à escrita e ao pensamento (em que cabe inevitavelmente a memória), como é o caso dos novos encenadores e actores que se abalançam à escrita de criações colectivas cujo habitual problema costuma residir na pobreza dos materiais textuais e da sua urdidura dramatúrgica.

Comecei a escrever para teatro por não aguentar ir ao teatro e voltar de lá decepcionada. Claro que isso não acontece sempre. Mas o teatro, que é um dos amores da minha vida, justamente por ser uma arte total, precisa de ser capaz de transformar a vida dos seus públicos -, desígnio que se faz grandemente pela emoção, como em toda a arte. E isso só pode realizar-se a partir de um bom texto (mesmo se na sua versão invisível, e/ou em espectáculos que abraçam a dança ou o chamado teatro físico, muito exigente do ponto de vista da direcção dos actores, por exemplo). Se o texto for bom, e novos os modos de levar para um palco de teatro essa boa literatura teatral escrita por cabeças portuguesas, mesmo se ‘escondida’ na didascália, poderemos então falar de um teatro português. Se ademais puder integrar texto novo, melhor ainda. Disrupção precisa-se, sem dúvida, mesmo sabendo que o teatro em si mesmo – primitiva necessidade humana – é eterno, e ou bom ou mau, independentemente de ser português.

(*) Algumas destas ideias estão desenvolvidas no livro A Cidade do Teatro (edição pela Câmara Municipal de Almada, 2016).

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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