PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Uma espécie de jazz

D.R.

João-Paulo Esteves da Silva (n. 1961) é um músico de enorme qualidade. Para além de instrumentista, é também compositor, o que fornece uma interessante chave de leitura para a sua actividade literária. A música – para mim a arte das artes – e a poesia tocam-se, e são em certa medida uma mesma coisa. Para além de poeta (alguém que dedica às árvores «poemas de tal modo poéticos que [o] deixam corado de vergonha»),  João-Paulo Esteves da Silva é também tradutor. Traduziu, por exemplo, grandes autores de teatro (Ibsen, Brecht, Strindberg, Beckett). É para além disso um tradutor de poesia, tendo sido sua a tradução (do hebraico) de Teoria do Um, do poeta israelita Mordechai Geldman (edição pela Douda Correria). Ignoro quando começou a escrever mas suspeito que essa diletância para fora dos domínios mais estritamente musicais tenha começado precocemente: só assim se explica a qualidade geral do seu trabalho literário, e mais especificamente da sua poesia.

Tenho um amigo francês que, como todos os franceses de gema, tem três nomes próprios. Esse meu amigo costuma referir-se aos três seres que leva no nome como os artistas que compõem a constelação artística de que é fundamentalmente feito. Um é músico, outro escritor e outro artista plástico. Três notáveis, sem dúvida, sendo por vezes difícil perceber se existe alguma hierarquia de aptidões. Talvez João-Paulo Esteves da Silva (JPES) seja um assim: alguém que é (pelo menos) dois: um que se dedica à música e outro à escrita. A publicação de Vertem-se Bíblias em Quimbundo, edição pela Miasoave, transporta essa dualidade (ou complementaridade) que define JPES: um livro de poesia que traz consigo um disco – o projecto Crime, em que participam também Nazaré da Silva (voz – linda, cristalina, muito promissora cantora) e Samuel Dias (bateria e voz).

Do disco, gosto especialmente do tema À Mesa (letra do poeta pré-modernista brasileiro Augusto dos Anjos e música de JPES), uma espécie de marcha vegetariana (ou anti-carne), musicalmente muito bem resolvida e que constitui um actualíssimo tema sobre a consciência da predação humana sobre os demais animais (ais-ais). Dos restantes temas do disco, destaco ainda Cândida (letra – dolorosa – e música de JPES) e Vou Fumar um Cigarro à Outra Vida (letra de Miguel Martins – de uma simplicidade poética e brevidade desconcertantes – e música de JPES).

Sobre o livro, quero desde já dizer que o li como uma espécie de jazz – um fio vertiginoso de pensamento que não passasse pela linguagem, ali em pares de linhas disparadas por alguém que caminha e pensa, ou então que só caminha e, nesse caso, talvez o que pense siga por outras ruas, vivendo «na fracção de segundo depois de cada momento». Um rumo de mar, liberto dos trilhos mentais da modernidade tecnológica iniciada com a navegação a vapor: o poeta como partícula dos oceanos, vivendo a experiência de sê-lo e narrando a aventura sinestésica de existir nessa condição. Mesmo assim, dava jeito uma bússola, e felizmente encontrei uma num porta-chaves que estava num ecoponto.

De judaísmo, muito presente no trabalho poético de JPES, quase nada percebo, mas tudo pressinto em mim, o que ajuda muito a entender (intuindo-as) as múltiplas referências a esse universo de tão grande riqueza e mistério. A História hebraica sempre ali a espreitar, um desejo indomável de estar em Telavive, «amor velho de antes do mundo hiperbólico». Imagino então o poeta num jejum, caminhando e purificando-se pelo poema, entregue a esse ‘canto de si mesmo’, revisitando a infância, prescindindo dos natais, bem vendo o adiamento do fim de um mundo que ele bem sabe que «acabará por acabar», apesar de em volta dele se verterem ainda bíblias em quimbundo e de «o mito que nos comanda» parecer ainda tão vigoroso.

Sigo com o poeta pelo poema torrencial afora e reparo então que não tem quase pontos finais. Seguindo as mais das vezes «pelo lado mais escuro», a caminhada ilumina-se quando o caminhante sobe uma colina da cidade, resgatando-o, pelo corpo que caminha (como o barco que simplesmente navega) de uma melancolia que bem conheço. É já outro ano, 5777 (no calendário hebraico), e o poema corre ainda. E escolho não transcrever aqui as melhores imagens poéticas que JPES escreveu em Vertem-se Bíblias em Quimbundo, mas são muitas, belas como só a música, digo eu. Poesia nova, outra, com palavras combinadas noutros modos de as dizer. Outra notação poética.

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João-Paulo Esteves da Silva
Vertem-se Bíblias em Quimbundo + Crime (CD)

Capa de Pedro Serpa sobre fotografias de Joshua Benoliel
Miasoave, 2017

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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