PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Cool Britannia

GOD SAVE THE QUEEN

Estamos a meio da década de 1970. O capitalismo atravessa a pior crise, desde que, passada a ressaca de 1929, o fim da II Guerra trouxera uma era de crescimento económico e progresso social sem precedentes – os saudosos 30 (anos) Gloriosos.

Na Velha Albion a tensão tem fortes razões para crescer. Nem durante o Blitz se viveu um período tão negro – 33% dos jovens saídos dos liceus vão directamente para o desemprego. O pior é que não se importam nada com isso, antes preconizam o direito a não trabalhar e viver alegremente da segurança social, dar banho ao cão e beber meias litrosas quase sem álcool às quais, vá lá perceber-se porquê, ainda hoje teimam em chamar cerveja.

Reflectindo o estado da arte, a indústria pop-rock europeia vive uma era de grandiloquência de ópera bufa, com os Beatles a ser alvo de saudosas missas do sétimo dia e as super-bandas de progressive rock muito bem instaladas no esquema da gravação-promoção-grandes-concertos. Mesmo algumas esperanças do início da década, como David Bowie ou Roxy Music, rapidamente se aconchegam aos benefícios do showbiz.

Imaginem agora que a coroa se prepara, como que a rir-se na cara dos seus desempregados e mal empregados, para comemorar, com aquela pompa e aquela circunstância e aquele dispêndio voluptuário que só as velhas monarquias decadentes são capazes, o Queen’s Silver Jubilee.

A fruta está quase madura – só falta quem lhe queira deitar a mão. E ele há um duo dinâmico que, praticamente há dez anos, se prepara para este momento. Ela chama-se Vivienne Westwood, ele Malcom McLaren. Ou vice-versa, se fosse para sermos mesmo rigorosos e não apenas politicamente correctos.

Vivienne-McLaren.jpg

INTERNACIONAL SITUACIONISTA

Nascida Vivienne Elizabeth em 1941 numa santa terrinha chamada Glossop, filha de Dora Ball e Gordon Swire, a sua família é obrigada a mudar-se para a periferia de Londres em 1957. Segundo a sua irmã Dora, apenas porque naquele arrabalde de Manchester pura e simplesmente “there was no work”.

Em 1961 Vivienne conhece o jovem operário, muito jeitoso, bom dançarino e tão amante de rock&roll quanto ela, Derek John Westwood de seu nome anglicano. No ano seguinte larga o emprego de dactilógrafa, começa a trabalhar como professora primária em Willesden e, com um vestido que ela própria tem que costurar, casam-se.

Cerca de um ano depois nasce-lhes um filho, mas o casamento começa a dar sinais de ruptura, sobretudo porque ela se sente muito pouco acomodada à vida suburbana sem ambições a que está condenada. Não admira que se deixe encantar com o jovem Malcom Edwards, quando este lhe é apresentado pelo irmão Gordon em 1966 e que, pouco tempo depois, peça o divórcio.

Malcom Edwards, como é conhecido até 1971, nascera em 46 na cidade de Londres, de origens bem menos modestas. Educado pela avó, frequenta várias escolas de arte, mas parece que passa a maior parte do tempo no British Museum.

Em 1964, uma exposição de Andy Warhol impressiona-o de modo tão decisivo que abandona, não só a escola, como também a casa da avó. Nesse mesmo ano organiza um happening na Kingly Street Art Gallery. Era suposto durar um dia inteiro, mas foi prontamente encerrado pela polícia ao fim de algumas horas.

Em 1966, ano em que conhece Vivienne, entra para uma escola de teatro. E o ano seguinte será ainda mais crucial nas suas vidas, não só porque lhes nasce um filho e ele se muda para o Croydon Art College, mas sobretudo porque se envolve com com o célebre grupo Internacional Situacionista, os dadaístas que estarão na origem do Maio de 68. Convém não esquecer que 1967 é o ano que vê surgir, entre outras coisas, o ainda hoje actualíssimo “A Sociedade do Espectáculo”, da autoria de um dos líderes situacionistas e seu mais relevante teórico – Guy Debord.

PleaseKillMe.jpg

PLEASE KILL ME

Não é só em França que o fim dos anos 1960 se revela conturbado. Juntamente com um grupo de amigos, de onde se destaca Jamie Reid, o gráfico que irá revolucionar esta arte na década seguinte com as capas dos Sex Pistols, Malcom vê-se envolvido em várias revoltas estudantis. É aliás por causa disso – e do registo criminal que então arranja – que, em 1971, abandona Edwards e adopta o nome do pai, McLaren.

Vivienne não muda de nome – ainda hoje usa o apelido herdado do seu primeiro casamento – mas decide mudar radicalmente de aspecto. E corta o cabelo curto bem ripadinho, lançando aquele que será o estilo Punk nos anos que se seguirão.

Ele, por seu lado, veste um fato de lamé azul feito por Vivienne e passeia-se por Kings Road, quando o dono da Paradise Garage o aborda, lhe pergunta onde raio é que arranjou aquele fato e lhe propõe abrir uma loja de trapos na parte de trás do seu estabelecimento.

E, assim, numa efémera sociedade com Patrick Casey, abrem In The Back of Paradise Garage no número 430 de Kings Road. Estamos em Novembro de 1971, mas o nome será mudado para Let It Rock logo no ano seguinte, vendendo roupa teddy boy, maioritariamente cópias manufacturadas por Vivienne. E o ano não termina sem se verem envolvidos no guarda-roupa dos filmes “Mahler” de Ken Russel e “That’s Be The Day” com David Essex e Ringo Starr.

Em 1973 mudam novamente o nome da loja para Too Fast To Live Too Young To Die em homenagem a James Dean. Numa viagem promocional das suas roupas a Nova York, conhecem Andy Warhol e uma estranha banda chamada The New York Dolls.

De regresso a Londres, mudam outra vez o nome da loja para um bem mais simples, económico e provocador SEX. E, de repente, começam a fabricar e a vender roupas de couro, fétiches sexuais e as célebres T-shirts rasgadas com verdadeiros cartazes impressos à frente e atrás.

Ora aqui começa uma das maiores controvérsias sobre a paternidade do movimento Punk, pois parece que a ideia lhes surgiu a partir de uma T-shirt que o baixista dos Television, Richard Hell, terá feito em 1973 com os dizeres “Please Kill Me” e que McLaren e Westwood terão visto na viagem a Nova Yorque.

A querela é absolutamente irrelevante, se pensarmos que, por exemplo, o famigerado alfinete de ama, seguramente o ícone mais conhecido da contra-cultura Punk, era já profusamente usado desde 1971 pelo hoje quase esquecido Ian Dury. Mas uma coisa é certa, foram McLaren e Westwood que transformaram estes e outros adornos da cultura de rua em verdadeiros adereços de moda urbana, usada e abusada no mundo inteiro – e é esse o seu grande feito. De resto, a própria música Punk é um mito. Nunca houve música Punk nenhuma, antes um “do it yourself”, por sinal na grande maioria dos casos bastante mal parido. Do ponto de vista estritamente musical, bem entendido.

ALFINETADAS NA CULTURA

Em 1974 McLaren era manager de uma banda obscura chamada QT Jones and The Sex Pistols. Por sugestão de Warhol é convidado a atravessar o Atlântico para tomar conta dos The New York Dolls. Veste-os de couro vermelho, oferece ao vocalista um exemplar do “Livrinho Vermelho” de Mao Tsé Tung, impõe que todas as letras contenham a palavra Red pelo menos seis vezes e emite uma declaração à imprensa intitulada “Better Red Than Dead”.

Claro que uma atitude destas na América era o mesmo que proclamar-se czarista em plena reunião do comité central do PCUS e as bonecas de Nova Iorque não tiveram vida longa. Mas este falhanço seria muito útil a McLaren no futuro.

De regresso a Londres transforma um frequentador da loja, que pintava o cabelo de verde e a quem chamavam Johnny Rotten por ter os dentes todos podres, no novo vocalista da banda que, entretanto, vira o nome encurtado para The Sex Pistols.

A 6 de Novembro de 1975 a banda aparece, pela primeira vez, no St Martins School of Art. Só tocaram dez minutos, mas cada um deles valeu por um concerto inteiro e originou um ardente grupo de fãs, denominado Bromley Contingent, e que incluía, entre outros, Siouxsie Sioux.

Quase um ano depois conseguem assinar com a EMI a gravação de “Anarchy In The UK”. A 1 de Dezembro aparecem no programa de TV de Bill Grundy que os incita a dizer, em directo e ao vivo, “something outrageous.” Não se fazem rogados, a EMI cancela o contrato e os promotores de espectáculos fazem o mesmo.

Em Março a banda assina com a A&M e é despedida uma semana depois com 150 mil libras no bolso, para assinar com a Virgin quase de seguida o lançamento do single “God Save The Queen” e do álbum “Never Mind The Bollocks”. Por estas e por outras, a revista de negócios Investors Review declara McLaren e os Pistols os “Young Businessmen of the Year”.

Vivienne-Tatler.jpg

NEW ROMANTICS, NEW BIZ

“I may be a rebel, but I’m not an outsider.” — [Vivenne Westwood, 1983]

No ano seguinte, após uma tournée desastrosa pelos EUA, a banda dissolve-se, pois Rotten já não está mais para aturar aquilo. Entretanto, a loja mudara novamente de nome para Seditionaries, vendendo que nem ginjas uns trapinhos anti-fashion adequados à onda Punk.

Em 1979, McLaren relança a banda com o filme “The Great Rock’n Roll Swindle” dirigido por Julien Temple. O novo vocalista é, provocação suprema, Ronnie ‘The Great Train Robber’ Biggs. O single “No One Is Innocent” é um hit. Um novo single, desta vez cantado por Sid Vicious, “C’mon Everybody” bate todos os recordes.

Porém, este tremendo sucesso é o canto do cisne dos Pistols em geral e de Sid Vicious em particular. Acusado do homicídio da sua mulher Nancy, aparece morto de overdose em Nova Yorque enquanto aguarda julgamento. McLaren, por seu lado, é acusado de fraude no esquema dos sucessivos contratos com as editoras. Exilado em Paris, o tribunal decreta que ele nunca mais possa usar o nome Sex Pistols.

Como quem não tem pistola caça com fisga, a Punk já dera o que tinha a dar e a nova onda são os New Romantics, quando regressa em 1980 descobre e lança nomes como Adam Ant, Boy George e Bow Wow Wow. Para tanto usa, no essencial, os truques do costume. Só para dar um exemplo, o álbum dos Bow Wow Wow para a RCA “Go Wild In The Country” tem por capa uma recriação do quadro de Manet “Déjeuner Sur L’Herbe”, onde pontifica uma rapariguinha de 13 anos, de nome Annabella, completamente nua.

Nesse ano o nome da loja muda de nome, pela última vez, para Worl’s End. No ano seguinte Malcom e Vivienne abrem uma nova loja, Nostalgia Of Mud, em St Christopher’s Place e lançam duas colecções de roupa em Londres e Paris, sob as designações de “Punkature” e “Buffalo Gals”. Esta última será também o nome que McLaren dará ao primeiro single que grava para a Charisma. Mais uma vez atento à cultura de rua, McLaren antecipa-se a toda a gente e lança, com esse disco, a primeira gravação comercial alguma vez feita de música Rap/Scratch Hip Hop – que, aliás, foi um sucesso de vendas no mundo inteiro.

Dois anos depois McLaren e Vivienne lançam, apenas em Paris, a última colecção de roupa concebida pelos dois. A partir daí, apesar de se manterem próximos por mais algum tempo, os seus percursos criativos separam-se definitivamente.

LetItRock.jpg

DO IT YOURSELF, S’IL VOUS PLAÎT

“Today we live in a karaoke world and Tony Blair is the first Karaoke Prime Minister.” — [Malcom McLaren, 1998]

McLaren, cada vez mais virado para a música, havia lançado “Duck Rock” em 1983 e repete a proeza no ano seguinte com “Fans”, onde aparece a famosa versão de “Madame Butterfly” que mistura ópera, rap e r&m. Será mais um estrondoso êxito, mas na verdade o seu último, já que os álbuns “Waltz Darling” de 1988 e “Paris Paris” de 1994 passarão praticamente despercebidos. Em todo o caso, ele tornara-se já uma espécie de ícone cultural com pernas. Multiplicam-se as exposições sobre a sua augusta pessoa: Museum of Contemporary Art of New York em 1987, Bonnefanten Museum em Maastricht, Metropolitan Museum of New York em 1999, etc.

Enquanto viaja pelo extremo oriente em aulas e palestras apercebe-se da importância do karaoke e passa a considerá-lo a nova forma de Punk, já que busca o mesmo “do it yourself” preconizado pelo movimento vinte anos antes. Em 1998, tenta lançar uma nova banda de raparigas, todas de origem chinesa, com o nome de Jungk, mas sem grande sucesso.

Finalmente, em 2000 lança a sua candidatura a Mayor de Londres com propostas tão interessantes como a legalização dos bordéis, a criação de um “Don’t Buy Anything Day” e o lançamento de uma série de medidas destinadas ao regresso dos eléctricos, a penalização pelo uso de veículos que emitam dióxido de carbono na cidade e incentivos à compra de automóveis eléctricos.

A imprensa em geral recebeu muito bem a sua candidatura mas, aparentemente, o público nem por isso, já que o seu nome não chegaria a constar nos boletins de voto.

Vivienne Westwood, por seu lado, torna-se a partir de 1983 um dos nomes mais sonantes no mundo dos trapos. Depois de, em Março desse ano, se tornar a primeira inglesa desde Mary Quant a passar roupa com o seu nome em Paris, no Outono de 1984 é convidada para mostrar a sua colecção em Tóquio, onde faz parte de um grupo denominado Best of Five, juntamente com Hanae Mori, Clavin Klein, Montana e Gianfranco Ferrè.

Em 1989, John Fairchild, dono e editor da bíblia Women’s Wear Daily, considera-a um dos seis melhores costureiros do mundo. Entre outras distinções, até um Queen’s Award for Export conseguiu arrecadar (supõe-se que seja a mesma Queen que ela ajudou a ridicularizar nos idos de 1977, mas não é absolutamente garantido).

PUNK’S NOT DEAD

McLaren morreu em 2010. Vivienne, se não tivesse ganho tanta guita com os seus trapinhos, poderia muito bem estar a acabar os seus dias entre crochets e arrastadeiras numa qualquer casa do artista pós-brexit.

No entanto, se o mundo parece ter mudado muito desde 1977, na verdade o mundo não mudou quase nada. Neste caloroso ano de 2017, por exemplo, o último grito (proprio sensu) da moda entre as adolescentes, e até entre algumas senhoras mais urbanas, consiste em usar calças de ganga ultra-rasgadas nos joelhos. É até de supor que custem mais caro que umas calças de ganga inteiras. Mas isso é Punk. E a Punk é, há precisamente 30 anos, um activo para a indústria dos trapos.

Oh sim, as delícias do No Future nunca deixaram de andar por aí. Mesmo que esta temporada seja apenas nos joelhos desnudos das donzelas, que sejam sempre muito bem-vindos. Os joelhos e as suas tantas delícias.

SEX.jpg

PUNK- PÓS-PUNK, King’s Road, 1971 – 1981

In The Back of Paradise Garage – Let It Rock – Too Fast To Live Too Young To Die – SEX – Seditionaries – Worl’s End

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 13 de Abril de 2017 by in Banzai, Patrícula elementar, Voyeur and tagged , , , , .

Navegação

%d bloggers like this: