PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Mapa-mundo

 

Há algum tempo já que ouço falar deste jornal, tanto quanto sei feito em Setúbal – informação que é desde logo relevante por situar noutro lugar que não Lisboa, Porto ou Coimbra (ou vá lá, Faro ou Leiria) uma iniciativa editorial que realmente propõe coisa distinta da que é actualmente oferecida em Portugal e em língua portuguesa, tanto pelo jornalismo como pelo activismo convencionais. Até porque este jornal se interessa pelo Mundo inteiro, como só faz sentido na era da ‘desterritorialização’ trazida pela globalização que, de resto, o Mapa assumidamente combate. «Um novo projecto de comunicação mas também um território de resistência em tempos de guerra», pode ler-se na apresentação disponibilizada online. É bem verdade que Setúbal tem uma cultura de resistência que favorece laboratórios de ruptura e pioneirismos.

Projecto dito (e bem) «de informação crítica», é um misto de jornalismo com activismo, produzindo, publicando e distribuindo (em suporte papel, por 1 euro, a cada três meses, e de forma contínua na Internet) «notícias, reportagens, investigações, crónicas, fotos, ilustrações, bandas desenhadas», etc. Ou seja, tudo o que habitualmente pode conter uma publicação periódica comummente chamada jornal. Com algumas diferenças, designadamente no plano da propriedade do título, que se declara ao abrigo da «zona de influência de grupos económicos ou partidos políticos de qualquer côr ou sabor», única forma de cobrir temas especialmente incómodos para interesses particulares, denunciar factos que escapam às agendas condicionadas do jornalismo e promover, através da informação que produz, o debate e a discussão – na premissa de colaborar dessa forma para «o desenvolvimento da crítica enquanto alimento do pensamento e de práticas de autonomia e liberdade em todos os aspectos da vida».

Mas há outras diferenças entre o Mapa e um jornal integralmente feito por jornalistas e outros profissionais da comunicação escrita, entre as quais destaco problemas de editing de textos a que falta umas vezes um revisor e outras um editor, ou então ambos, de que é exemplo um pequeno texto sobre a tentativa encapotada de privatização da Universidade de Coimbra, através da sua passagem ao chamado “regime fundacional” (de fundação, entenda-se), publicado na edição do trimestre Janeiro-Março de 2017. Dito isto, considero notável a amplitude de temas, a profundidade geral do seu tratamento e também a boa qualidade geral, por vezes excelentíssima, do português, bem acima de muita imprensa feita com dinheiro para pagar ordenados. Estou a deduzir que o Mapa seja feito com muito pouco dinheiro e muita carolice, o que habitualmente resulta em objectos bem menos interessantes e qualitativamente muito abaixo.

O Mapa empreende e publica grandes investigações, mesmo se por vezes falta contraditório, ou simplesmente ouvir todas as partes envolvidas, como no caso do dossier – mesma edição – sobre a exploração agrícola intensiva no sul do País, feita com recurso à mão-de-obra escrava imigrante, a que terá faltado, na minha opinião, ouvir o SEF – não o SEF oficial, naturalmente. Trata-se, ainda assim, de dossiers de fundo, realizados com base em aturadas investigações que não vejo nos jornais feitos por profissionais – como o Especial Portos, Petroleiros e Metaneiros que faz a capa da mais recente edição, estabelecendo pontes entre o que se passou e passa nos portos e no mar portugueses e a política da UE, falsamente ecologista e esperançadamente tornada credível através de um discurso oficial a que só falta, se é que ainda falta, uma marca panteísta, mas que está na verdade, como o Mapa bem observa, empenhada noutras razões.

Aprecio sobretudo o facto de publicarem não apenas sobre temas directamente relacionados com Portugal, revelando um entendimento que considero raro e totalmente necessário do Mundo actual.

Um projecto valoroso, bem feito, aparentemente com mão de jornalistas, e sem dúvida com pernas para continuar a andar, apesar do seu carácter activista que, na minha perspectiva, em certa medida inviabiliza o desenvolvimento de uma natureza mais propriamente jornalística.

 

 

 

 

Mapa – jornal de informação crítica
Edições disponíveis em PDF

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 14 de Março de 2017 by in Jornalismo, Mesinha de cabeceira, Patrícula elementar and tagged , , , .

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