PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O Grande Jardineiro

Confesso que, até aqui, nunca tinha levado Julian Barnes muito a sério. Sabia que, em tempos, havia lido um livro dele, mas tive que vasculhar nas prateleiras até o encontrar cheio de pó e já em vias de ser atacado, de cernelha, pelos meus bichos-da-prata de estimação.

Chamava-se “Amor & Etc” e parece que era uma sequela de outro que se chamava “Amor & Cª”. Ainda por cima, vinha com uma das capas mais miseráveis na tradução portuguesa das últimas décadas. Dois sapatos de homem, um de pala preto, outro preto e branco de atacadores, ambos virados para cima. E, qual pedra angular, um sapato encarnado de mulher virado para baixo. Ambos os três descambados e praticamente ainda a exumar o cheiro-a-pé de quem os trazia calçados dois exactos minutos antes da fotografia ter sido feita para encher aquele chouriço com o que havia mais à mão. Rectius, mais ao pé.

O livrito, também ele, era uma tentativa desesperada de tentar ser super-jovem, quer na narrativa do eternamente regurgitado triângulo amoroso pós-moderno-disfuncional, quer na linguagem atrevidinha a três vozes, quando nem uma o autor dominava ainda. A verdade é que, dentro do género sexo-drogas-e-roquenrola, há o Breat Easton Ellis, o Irvine Welsh e basicamente já não sobra mais espaço para edecéteras.

Tanto quanto me lembro, páginas vinte entreguei-o à liberdade tauromáquica dos meus eternos bichinhos-da-prata. De maneira que foi com grande sacrifício pessoal, como hoje em dia soi dezer-se, que comprei este livro. Não tanto por ostentar o cabeçalho “Vencedor do Man Booker Prizer 2011” e a gargantilha da “2ª Edição” na prateleira dos topes da Bertrand. (Para mim, os prémios e as vendas valem mais ou menos o mesmo que os óscares dóliude ou a segunda eliminatória do festival da canção.) Mas apenas porque, desta vez, a capa era particularmente elegante, bonita, bem feita.

Peguei nele e torneei-o rapidamente pela lombada até à contracapa. E de repente, não mais que de repente, como diria o incontornável Vinicius, percebi que se tratava de um romance biográfico de Chostakovitch. Li o excerto e passei ao miolo. Onde constatei, extasiado, que aquela tentativa moderninha de ser jovem e bacano se amadurecera a si própria e chegara à camada do bolo que se chama — um romance admirável.

Ora leiai vós mesmos, enquanto podeis:

“A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. A arte já não pertence ao Povo e ao Partido, tal como deixara de pertencer à aristocracia e ao mecenas. A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo. A arte não existe pela arte, existe pelas pessoas. Mas que pessoas? E quem as define?”

Queríeis mais? Arranjai a porra do livro. Garanto que é muito mais barato, e ainda mais gratificante, que uma daquelas cenas gurmê, mas tão sensaboronas como sashimi de falso atum Rabilho, cru.

O Ruído do Tempo sabe a literatura, coisa raríssima nestes tempos Cinco Estrelas de Trumpes e Podemos. Aproveitai enquanto ainda a há.

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O Ruído do Tempo, de Julian Barnes

trad. Helena Cardoso, Quetzal, 2016

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This entry was posted on 10 de Março de 2017 by in Mesinha de cabeceira, Patrícula elementar and tagged , , .

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