PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

“Acabar em beleza”: o teatro-vérité de Mohamed El Khatib

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© Victor Pascal

A própria vida dos artistas constitui, como a História da arte comprova, o material por excelência sobre o qual trabalhar, a melhor matéria para esculpir os objectos de dizer a verdade ou os objectos belos (se possível ambos).

A realidade é imbatível a ultrapassar a fantasia – fazendo inclusive com que a ‘ficção’ seja um conceito muito discutível -, e documentá-la é uma necessidade tornada ainda mais premente pelo desaparecimento (temporário, pois ele há-de reencontrar o caminho de volta aos seus fundamentos) do jornalismo e pela vertigem (de princípios e fins essencialmente quantitativos) a que estão sujeitadas nas academias as áreas de conhecimento das chamadas ciências sociais.

Enquanto isso não acontece, podemos ir ao teatro ver o mundo como ele é hoje, e encontrar nos palcos retratos sociologicamente ricos dos absurdos da vida humana nesta nova era da técnica.

Em Acabar em beleza, do franco-marroquino Mohamed El Khatib, esse exercício em que fragmentos da vida de um autor se constituem como tema de trabalho torna-se paradigmático do que pode hoje ser o teatro documental. El Khatib conta ao público a morte da sua mãe – a doença, o hospital, o momento da morte, a viagem até Marrocos para as cerimónias fúnebres, a visão clara, nesse território de cultura distante relativamente a França (onde o autor vive e a mãe morreu), da ‘civilização’ bárbara que a globalização das tecnologias digitais tornou mundial, ferindo até mesmo as mais arreigadas tradições religiosas do mundo islâmico.

E nesse relato íntimo e desnudado (amiúde cómico, muito até) que o autor construiu podemos ver também a vida difícil da sua família imigrada em França: uma certa ‘clandestinidade’ dessas vidas economicamente marginalizadas, por uma sociedade segregadora e racista incapaz de as integrar plenamente e de lhes oferecer ao menos oportunidades de mobilidade social; o pecúlio de uma vida legado à irmã mais nova, herança risível de 1600 euros; e ainda, por exemplo, as mensagens de condolências das pessoas, chegadas por SMS, a mostrar a irrelevância de tudo o que é alheio à vertigem que leva tudo à frente e tritura até a morte (sobretudo ela, na verdade), tornando toda essa gente indigna de uma melhor ideia de humanidade (uma humanidade com capacidade de compaixão e verdadeiros sentimentos, e não apenas da sua enunciação, e depois passa-se a outra coisa).

E, receando porventura ser tomado por alguém em luto eterno por uma ideia de mãe (para dizer a sua representação costumeira e hipócrita) a toda a prova virtuosa, El Khatib não se esquece de referir a que ponto a infância e as mães se constituem tantas vezes como territórios de neurose e combate existencial. It’s always about the mother, lá está.

Acabar em beleza (adoro a ironia deste título) deixa ainda um contributo inestimável para a eternamente adiada conversa humana sobre a morte.

Vão ver, este teatro que para mim não é bem teatro mas que podia sê-lo, necessariamente com mais dinheiro (trabalho dramatúrgico emotivamente distanciado para contrapôr, enriquecendo-a, à abordagem pessoal, actores, a confrontação – também no plano sociológico – que sempre constitui o ofício de dirigir actores).

E no entanto, até nisso, na forma tão simples que toma esse teatro feito com tão poucos recursos, Acabar em beleza espelha os nossos dias miseráveis. O facto de essa aparição ter lugar agora, em 2017, num teatro nacional europeu, torna o actual D. Maria II um lugar bastante mais interessante que o habitual.

Acabar em beleza está em cena até 25 de Fevereiro no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 23 de Fevereiro de 2017 by in Cultura, Europa, teatro and tagged , , .

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