PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Da Família

valerioromao

Prossigo as minhas leituras dos livros de Valério Romão. Depois de Autismo, li O da Joana (… sendo mulher, e também mãe, há ali um problema irresolúvel), e depois desse, Da Família – para mim o melhor (mas não li todos os livros de Romão).

A família é um território literário por excelência, que necessariamente todo o escritor revisita, uma e outra vez, desta ou daquela maneira. Neste livro, a família é tratada como merece e todos precisamos: sem os paninhos quentes sentimentais que comummente a divinizam, explorando incontáveis aspectos (padrões) simbólicos do núcleo auto-reprodutivo da espécie, que o escritor disseca (é mesmo a palavra) com a mão incisiva de quem os pensou, transfigurando-os em seres e situações que parecem emanados de um além delirante.

Rogério, Marta, Henrique – sempre estes nomes, a que a repetição retira uma aparente banalidade realista – são os anti-heróis, de inesperadas glórias, dos pequenos contos palavrosos em que o autor exercitou, com superlativa imaginação (um pai que incha como um balão e sobe até ao tecto, por exemplo), por vezes poesia (uma avó que dança em segredo com um neto, por exemplo), um quase perfeito domínio da Língua, raro (para não dizer praticamente inexistente) em autores com caminho ainda para fazer no ofício de tempo longo que é o da arte chamada literatura.

Novamente vi António Lobo Antunes a espreitar nas longas frases, como infinitos fios de pensamento, de Valério Romão, mas há neste último, ao contrário de naquele primeiro, uma estranha espécie de “realismo mágico” que confere outras (novas) qualidades a essa escrita avessa aos pontos finais. Enorme escritor, Valério Romão (n. 1974).

 

da_familia

Da Família, Valério Romão
abYsmo, 2014
Ilustrações de Luis Taklim

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About Sarah Adamopoulos

Escritora, tradutora e jornalista profissional. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Publicou vários livros, entre os quais "Fado menor" (ficção, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 16 de Fevereiro de 2017 by in Cultura, literatura, Livros, Mesinha de cabeceira, Patrícula elementar and tagged , .

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