PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O teatro de arte de Miguel Moreira

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(c) Filipe Ferreira

O texto de O Duelo, de Bernardo Santareno – pseudónimo literário do médico António Martinho do Rosário – foi o pretexto para levar Miguel Moreira ao Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII) por ocasião dos 20 anos do Útero (projecto nascido em Almada em 1995). Uma belíssima entrevista realizada a cerca de um mês da estreia do espectáculo, publicada na edição que o TNDMII preparou para esta novíssima e muito heterodoxa encenação de O Duelo, espelha esse entendimento do que pode ser o lugar do texto no teatro de hoje: um lugar de estranheza.

Apesar das pontes que o encenador encontrou entre o tempo e o modo de Santareno e os dos dias de hoje, Miguel Moreira foi claro: «O texto será sempre estranho para nós durante esta peça. A gente não trabalhava texto há anos. Esta coisa de um corpo que fala um texto de alguém é uma entidade estranha.» A partir de Santareno, O Duelo de Miguel Moreira (em co-criação com elementos do Útero) transporta absolutamente essa estranheza. Descomplexadamente, como só faz sentido, tratando-se de um teatro que não vive do texto, mas sobretudo da dança – ou aliás, do movimento e da fisicalidade, do corpo, do gesto, e também de um inescapável simbolismo, características que estão de maneira intensamente expressionista no coração deste espectáculo.

Romeu Runa e Francisco Camacho dançam, e o texto desaparece, e o que fica de Santareno são as coisas que Miguel Moreira viu e transfigurou em imagens excessivas: «uma certa brutalidade das palavras», «uma homossexualidade recalcada, uma ambivalência sexual», e claro, um imaginário português decadentista e opressivo que cabe em qualquer tempo.

Apesar de não ser o “meu teatro”, gostei de ver o teatro incómodo e sem subtileza (é o próprio que o diz, com justeza e honestidade) de Miguel Moreira. Gostei da ilusão de estar a ver pintura no palco da Sala Garrett, e dança contemporânea pelos melhores, e de ouvir música nova (por Pedro Carneiro), e silêncios, numa conseguida «tensão entre a dança e o teatro», e até gostei de algumas passagens do texto de Santareno – aquela linguagem antiga e para mim sempre um pouco bafienta do teatro português do século XX, ali a contrastar com intenções e paisagens outras, novas, outras escuridões pousadas na desolação do texto.

Mas sobretudo gosto do discurso de Miguel Moreira sobre o seu teatro – sobre os processos de construção dos seus espectáculos, sobre as coisas que acontecem durante o trabalho, os acasos, os problemas, as denúncias (pessoas que desistiram de dançar para ir vender casas, por exemplo), os objectos que encontra na rua e leva para cima do palco, como aquela árvore que achou no caminho e carregou pela Bica acima e depois até ao Teatro Nacional, as coisas em que repara, e sempre uma intencionalidade política, um forte impulso de agir sobre a triste e comummente chamada realidade, a noção claríssima da ruptura em que estamos todos, e gosto do discurso que descreve tudo isso porque vejo nessa maneira de pensar e fazer teatro o questionamento e o envolvimento pessoais de Miguel Moreira, que é o que para mim é e será sempre um artista: um que pergunta e se põe a si próprio (e às suas pessoas e coisas) em cena para dizer o que vê, e como vê.

*Citações colhidas no programa de O Duelo (TNDMII, Fev. 2017)

O Duelo está em cena na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II até 19 de Fevereiro

Mais sobre o Útero aqui.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 3 de Fevereiro de 2017 by in Cultura, Patrícula elementar, teatro and tagged , , , , , .

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