PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Poema à boleia dos mortos

livro_dos_mortos_beatriz_bagulho(c) Beatriz Bagulho

 

Como assim O Livro Português dos Mortos?

Há lá dentro, ou por ali perto a rondar,

mortos portugueses antigos?

Fez o poeta um mapeamento

das suas (deles) glórias?

Repisou os seus (deles) passos

caminhados até nós aqui tremendo,

temendo a Deus e ao que lá vem,

inda p’ra mais se não apenas são mortos

como ainda por cima portugueses,

agora reunidos em livro

ali na escuridão da morte

preparando-se para saltar

ao dobrar da esquina húmida

de alguma manhã cheia

de dráculas ou até mesmo

sem rasto deles fugindo do sol,

nós temendo a Deus mas

sobretudo ao Seu diabo,

rezando pais nossos avariados

ou como manda a lei

da prece à portuguesa?

 

É que é preciso saber.

Por isso, vamos a isto.

 

Olha, afinal são outros

Mortos antigos e (im)possivelmente

profanos e satânicos

ou então santos mas novos,

para não dizer anjos (dizendo),

o que logo desfaz o lastro português

da antiguidade e morbidez

e fulmina a própria morte,

nada sobejando deles depois disso,

a não ser coisas dos vivos.

 

No começo vejo dias contados

como sempre são os dias,

a não ser os dos que sabem

guardar segredo deles.

Contados nas nossas costas,

ou segredados à Vida

pelo Destino por vezes inconfidente.

Evoluem na penumbra

e lembram os que vão junto(s)

com as marés em grande número

e total impotência humana.

O que serão então as palavras,

estas ou as do poeta,

senão metafísica de tubos

com olhos de olhar o mar

por mais encapelado e baço

como é natural e terrível

nas coisas mais profundas

como também é o Vento,

a que quase ninguém liga,

numa surdez em que

nenhuma música penetra,

mas em que o poeta reparou,

palmas para ele!

 

E vejo então a dar à costa

aquele menino sírio de chuteiras e meias altas,

e a noite (e a morte) em que a sua imagem

me infernizou precipitando-se enorme

à frente dos meus olhos despertos,

investida de poder exagerado,

erguendo pontes suspensas

na consciência dos crimes em alto mar,

e sempre a morte ali a rondar

sem pitada de alegria às gargalhadas,

a rir de católicos não-cristãos

tomados de ponta por outros,

correndo selvagens para os céus

rindo de nós deixados nos infernos.

 

Mas volto ao Livro dos Mortos,

não um qualquer mas Português

ali a gritar existo

e a marcar lugar na posteridade

com palavras incrivelmente

combinadas entre si

por alguém que pode

perfeitamente tê-lo feito

entre subidas e descidas

das Escadinhas da Achada

ou então de São Cristóvão,

olhando para trás vendo

Lisboa tão Julieta,

mas logo reganhando os degraus

de galgar até ao poema,

mesmo se seguido por rebanhos

de velhos brutos portugueses

a subir as escadas com o rapaz

que escreve coisas novas

com palavras antigas

e não disse estragadas,

tampouco finadas, não,

disse só de tão grande justeza,

pois tudo no Livro é inteiriço e pujante,

até mesmo os odores do caldeirão

do poeta animado a dar

à colher no caldo da morte

envolta em mil fiapos de Lua

enredada como bruxa

nos próprios cabelos.

O poeta a peregrinar valente

em seara portuguesa,

terra em pousio que não regenera,

antes se recompõe,

incessantemente oferecendo

velhos heróis de panteão

ali a marchar eternos

espreitando em poemas novos,

raispartam os pedófilos decrépitos,

muito gostam eles de molhar o bico

onde não são achados.

Felizmente para ele,

está atento o poeta,

e sabe como chegar

ao lugar de lhes escapar.

Pontinho de luz na noite alta

tomado de espanto diante

de uma velha estrela do mar

ainda há pouco ressequida,

pronta a tornar-se pó,

e eis que já regurgita de vida,

como o mundo dos mortos do poeta

se soubermos escutá-lo

com o búzio certo.

 

marco_galrito

O Livro Português dos Mortos

Marco Galrito

Capa de Beatriz Bagulho

Douda Correria, 2016

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

One comment on “Poema à boleia dos mortos

  1. Pingback: O Livro Português dos Mortos, Marco Galrito – Douda correria

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This entry was posted on 22 de Janeiro de 2017 by in Livros, Mesinha de cabeceira, Patrícula elementar and tagged , .

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