PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Negar o futuro do jornalismo

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O 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses, a decorrer neste fim-de-semana, por onde têm passado algumas pessoas que prezo, que admiro, respeito, de quem gosto, mas de quem, e de uma forma geral, estou tão distante no pensamento sobre o que pode ser o jornalismo português no futuro próximo. Umas linhas breves, desde já informando que fui inibida de estar presente por ter neste momento a minha carteira profissional por renovar – à semelhança de muitos outros jornalistas que, embora afastados das redacções, jamais deixaram de ser jornalistas. Por essa mesma razão, a comunicação que tinha preparado não foi aceite, o que me escuso de comentar.

Alguns declaram-se muito felizes por estar a ser realizado. Estão certamente felizes por poderem falar, por pouco que seja, sobre jornalismo, reencontrar outros camaradas jornalistas (os jornalistas, como os militares, tratam-se assim entre si, e as relações são muitas vezes fraternas, deixam saudades), e têm talvez a ilusão de ter voltado a pôr o jornalismo na equação mediática de uma crise multifacetada que afectou a profissão talvez como nenhuma outra.

Não se trata apenas (nem nada que se pareça) da questão tecnológica, da «desmaterialização da informação», como lhe chamava ontem Henrique Monteiro na SIC-N , num painel do Expresso da Meia-Noite em que também esteve o actual director do Público, David Dinis, que declarou que o jornalismo não está em crise [!] e que a haver problemas no jornalismo as administrações dos grupos de com. social não têm nada a ver com eles.

Tão pouco se trata meramente de constatar o longo compasso de espera (enquanto os agregadores de notícias de toda a sorte e feitio aproveitam os espaços deixados vagos pelo desinvestimento maciço em jornalismo) que tem determinado a não-migração de leitores e anunciantes do papel para a Internet e esperar que outros (mas quem se não os próprios jornalistas?) lhe ponham um fim um dia destes.

Seria preciso bastante mais para que este congresso pudesse efectivamente ser o começo de algo novo. Teria sido preciso assegurar, pelo debate sério, necessariamente num espaço de tempo mais alargado do que um fim-de-semana, a possibilidade de haver, num futuro próximo em Portugal (ou melhor dizendo, em Língua portuguesa, a partir de Portugal) jornalismo feito por jornalistas portugueses sobre todas as sociedades do Mundo global.

Se o jornalismo é um espelho das sociedades, e creio que é, o estado em que está reflecte-se na ausência de vozes independentes, críticas, e sobretudo prospectivas num congresso que tinha o dever de enfrentar o momento de ruptura que actualmente vivemos, levando para o debate assuntos verdadeiramente relevantes numa reflexão séria sobre o futuro do jornalismo. Só assim se poderia efectivamente «afirmar o jornalismo» (o lema do Congresso).

Mas não: no site do Congresso, encontrei falsos problemas, como sejam declarações de estudantes e professores de jornalismo (as mais das vezes jamais tendo sido jornalistas) sobre a hipótese de restrição da actividade de jornalista aos que tiraram cursos pensando em arranjar trabalho nas áreas directamente relacionadas com o sector da Comunicação Social e/ou têm certificação e/ou credenciação nessa área.

Não é nas universidades, onde a empresarialização do Conhecimento segue a tendência dos tempos, que estão as soluções para «os desafios do jornalismo» – como lhes chamam, usando um lugar-comum que nada diz sobre a duríssima crise que atingiu o jornalismo português. Parece-me evidente que essas declarações têm por razão de ser uma tentativa de salvaguarda dos poucos postos de trabalho no horizonte aos licenciados em Comunicação (não confundir com Jornalismo, pois) e equiparados. Um falso problema.

Tanta coisa para resolver, e desde logo os modelos que vão financiar o jornalismo no futuro, e levaram para o Congresso falsos problemas. Outro: a suposta necessidade de tornar obrigatória uma declaração de interesses por parte dos jornalistas – partido político a que pertencem se for o caso, clube de futebol que apoiam e outros mimos totalmente irrelevantes e que questionam de forma aviltante a existência de um código deontológico cuja finalidade é, justamente, garantir uma auto-regulação no sentido da isenção a que o jornalismo se deve, por missão, obrigar.

E para umas linhas breves isto já vai longo.

Mais sobre jornalismo aqui.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 14 de Janeiro de 2017 by in Jornalismo, Patrícula elementar, Portugal imortal and tagged .

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