PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Lobantuniana a dar para o valérioromaniana

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(c) Martin Parr (Funchal, 1999)

Era na tarde do dia seguinte quando, ainda entretidos a enfardar em silêncio porcarias fritas de que nem gostávamos, tipo rabanadas, sonhos e ‘filhozes’ (como dizia a avó), mansos que nem cordeiros para não desgostar a avó porque era Natal, deixando que nos enfiasse pela goela abaixo mais alimentos do que o nosso apetite comportava, obrigados a lanchar meia-hora depois de termos acabado de almoçar (talvez fosse uma hora, mas a nós parecía-nos meia-hora se tanto), nós ainda mal-acabados de almoçar e já obrigados pela avó a lanchar bolo normal feito por ela e chá preto fortíssimo com muito açúcar e uns pingos de limão vertidos directamente no bule, nós ainda enfartados da consoada e já todos rebentados pelo almoço do dia de Natal, a sorrir com certo desespero para uma fatia gorda daquele bolo sem dúvida formoso porém normal feito pela avó
comam filhos, comam que o vosso mal é fome
ordenava a avó no seu modo maternal de ser autoritária, levando para o Natal misérias pretéritas, a fome da infância dela e das vidas inteiras dos antepassados
comam, filhos
e ali ficávamos mais um longo momento, sentados no sofá da sala da avó a ver programas de tevê que nos deprimiam completamente, a comer filhos que o nosso mal era fome, até que algum de nós atingia um ponto de saturação e intolerância a um pedaço que fosse de mais daquilo, e se levantava do sofá num pulo enérgico e capaz de enfrentar a corda super-esticada da avó que, lançando logo mão da sua espada de degolar candidatos à deserção natalícia, e alheada do que fazia esse que, buscando forças nos olhos dos outros, e deixando que entrassem nele com a fúria resoluta dos mais bravos justiceiros, se fortalecia absolutamente, sendo sem dificuldade capaz de tornar vãs as ridículas tentativas de oposição da avó à nossa partida inelutável, até ao momento de vitória em que, já conformada diante de nós de pé e prontos para sair a qualquer instante, a ouvíamos dizer
vou-vos pôr umas coisinhas num taparuères
nós a dizer que não com a cabeça, que não ‘vó que não era preciso, até porque cheios estávamos já nós, e ela numa insistência que muito lamentávamos e teríamos preferido que não acontecesse, sabendo-a totalmente inglória para a avó já derrotada, mas ela a pôr à mesma as coisinhas, que acabávamos por aceitar e agradecer com piedosa hipocrisia, para logo as enfiar com pressa no primeiro contentor que víamos (Deus há-de ter-nos castigado), numa urgência quase doente de nos livrarmos de toda aquela fome de outros, e de aproveitar o que restava da luz daquele dia (como era fundamental o que restava dessa luz, por mais apagada que já fosse, pois dava-nos a impressão de ter efectivamente passado pelo dia), ao cabo de todas aquelas horas de penumbra que havíamos passado no estabelecimento prisional natalício da nossa avó portuguesa, que não era má senhora, bem pelo contrário, mas tinha nela a memória de mais miséria do que podíamos, na nossa novice e com tanto sacrifício, aguentar num só Natal.
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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 19 de Dezembro de 2016 by in Maré, Memória, Patrícula elementar and tagged , .

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