PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Mário Soares

joao-abel-manta

João Abel Manta

Mário Soares é um inimigo político de pessoas da esquerda e da direita. As da esquerda não lhe perdoaram o 25 de Novembro e/ou os compromissos que se dispôs a fazer com os interesses geo-estratégicos dominantes na época. E não lhe perdoaram, também, o sufrágio democrático que o PS venceu em Abril de 1975, nas primeiras eleições livres depois de 1974 (que seriam também as mais participadas de sempre na História do regime democrático em Portugal), obtendo 2 162 972 votos (mais de 600 mil votos do que o então denominado Partido Popular Democrático – anterior designação do actual PSD), o equivalente a 37,87% dos votos expresso, contra 26,39% no então PPD e apenas 12,46% no PCP. Segundo a geração dos hoje mais velhos, uma parte importante do problema terá residido na palavra socialismo, que levou muitos ao engano.

Mas Soares é também um inimigo – não que ele o tivesse desejado, creio – dos velhos colonos e africanistas, regressados dos territórios longínquos do anacrónico Portugal imperial com uma mão atrás e outra à frente. Chegados a um país em plena transformação, ideologicamente adverso ao que representavam, a sua chegada a Portugal não foi um mar de rosas: o acolhimento no Portugal do PREC e anos subsequentes foi-lhes especialmente agreste, tendo a maioria tido de enfrentar, na claridade ofuscante da libertação que sucedeu ao regime fortemente repressor, o preconceito e o radicalismo ignorante dos que lhes fizeram sentir o quão indesejados eram.

Enfermos do complexo super-identitário (que pintava a manta sobre a verdadeira dimensão do país que pretendia ir do Minho a Timor) legado pelo longo regime de Salazar, abstraídos das conhecidas razões geopolíticas que determinaram o fim daquele colonialismo, repetem desde então com ironia a «descolonização exemplar» então ocorrida (adjectivação de Mário Soares, um dos responsáveis políticos por ela, a quem não perdoam o fracasso dos acordos entre Portugal e os movimentos independentistas no momento de lhes entregar os territórios), não para referir a retirada dos portugueses (que custou sobretudo aos mais velhos, tornados gente no paradigma colonial), mas a forma urgente como o país se desvinculou das antigas colónias e as abandonou à sua sorte – e aos longos e conturbados processos democratizadores de sociedades impreparadas para os cumprirem sem guerras internas e interferências externas.

Uma urgência que não acautelou os interesses de muitos dos seus cidadãos cujos modos de vida dependiam de África, acusam ainda hoje, perdedores de uma causa inexoravelmente fracassada pela aliança ideológica entre os militares portugueses que arriaram a bandeira portuguesa naqueles territórios e os independentistas que içaram as suas. Às dores do fracasso de uma negociação tornada impossível pelo curso dos acontecimentos, acrescentaram-se o caos, o terror e o abandono que sucedeu à repentina desautorização do Estado português no momento da descolonização. Nesses dias em que foram largados às “feras anti-imperialistas”, muitos temeram pelas suas vidas. Um abandono que, apesar de decorrente da grande instabilidade política e social então verificada e da impossibilidade dos decisores políticos para a conter, a maioria ainda hoje não concebe.

A ilustrá-lo está a raiva a Mário Soares, que, já por tempos de relativa estabilidade política em Portugal, continuou (e continua, sobretudo entre os mais velhos) a reinar entre a generalidade dos colonos chegados a Portugal depois do 25 de Abril, e que terá ficado a dever-se à entrega sem condições dos territórios anteriormente colonizados. Mas não só, devendo-se a raiva contra Soares também a um conjunto de acções que revelaram as alianças ideológicas entre os homens da Situação naquele momento. Os ressentimentos relativamente a Mário Soares viriam a ser incrementados por via de uma sua declaração polémica quando, entrevistado em Agosto de 1974 para o jornal alemão Der Spiegel, declarou que, sendo necessário, o exército português atiraria sobre os portugueses brancos em Angola, caso eventuais manobras independentistas (na linha do que acontecera na Rodésia) pusessem em risco «a ordem democrática».

Talvez a recorrente acusação dirigida por muitos então retornados (para dizer o grosso dos regressados, constituído por famílias politicamente abstraídas e não tendo outros interesses patrimoniais a salvaguardar nos antigos territórios para além dos seus prosaicos bens materiais, entretanto adquiridos) aos que, como Mário Soares (então Ministro dos Negócios Estrangeiros, e depois Primeiro-Ministro de três governos sucessivos) se viram à frente de tais negociações, como legítimos representantes daquele que era também um novo País, possa ser entendida à luz do abandono a que muitos se sentiram votados e do consequente ressentimento, que exigia responsáveis.

Datam dos dias mais sangrentos da descolonização – que contribuíram de forma decisiva para o êxodo dos portugueses até então fixados em África – os epítetos de traidores e vendilhões da Pátria ainda hoje atribuídos a Mário Soares e a Almeida Santos, e que determinaram a emergência de novos votantes à direita, com uma ajuda decisiva dos conservadores, que chamaram a si a defesa dos interesses dos retornados e espoliados, não os esquecendo nos seus discursos partidários.

Um dos meus entrevistados para o livro Voltar – Memória do Colonialismo e da Descolonização (Planeta, 2012) disse isto: «Havia pactos já feitos, e as decisões que foram tomadas foram-no completamente à margem dos interesses do Estado português. E isso ficou dito de forma muito clara na biografia [por Maria João Avillez] de Mário Soares. Os acordos do Alvor foram para inglês ver, porque tudo estava já decidido. Nessa medida, eles enganaram os portugueses que estavam em Angola. Em minha casa, sentimo-nos manipulados e traídos por esses acordos conduzidos pelas grandes potências, apesar de pensar hoje que tudo isso ficou sobretudo a dever-se à grande impreparação política de todos – dos políticos, como dos cidadãos, numa altura em que, como se não bastasse o analfabetismo e a falta de cultura política, a desinformação era grave, porque os órgãos de informação estavam tomados ideologicamente pela situação.» Houve quem dissesse muito pior, com infinita mais raiva e considerável menos preparação política.

Não tenho, felizmente, sentimentos dessa natureza relativamente a Mário Soares. Aprecio a sua combatividade, o fôlego grande, uma capacidade inata para a política em contexto democrático, para a tomada de decisão, para a liderança, para a empatia, raras nos portugueses. Nunca o entrevistei – calhou assim – por isso não tenho uma história pessoal para contar, hélas. Conheço muitas pessoas que o detestam com uma veemência que considero intrigante. Tive um vizinho que lhe atribuía todos os males da nação pós-25 de Abril. Punha-lhe na caixa do correio prospectos do PS que encontrava, para me meter com ele. Ficava irado, rasgava-os com furor e batia-me à porta para mos devolver todos rasgados. Nunca percebi exactamente de onde lhe vinha tamanha ira. Nunca me explicou decentemente. Era uma coisa da ordem da paixão, não era possível uma conversa com tino do ponto de vista intelectual.

Soares não terá estado sempre bem em todos os momentos da decisão, cometeu erros políticos, mas foi um homem importantíssimo para a democratização de Portugal. Bem sei, bem sei que a democratização ainda está verdadeiramente por ser cumprida na sua plenitude (basta considerar a desigualdade e os infernais e tão injustos ciclos de pobreza endémica que sobreviveram ao 25 de Abril, ao 25 de Novembro, à integração na UE e à adesão ao euro) mas Mário Soares, filho de uma elite burguesa culta com ideais social-democratas, fez a sua parte. Duvido seriamente que os filhos das elites burguesas emanados do caldo com tendências neoliberais (que não são de hoje) do PSD ou do conservador com tendências nacionalistas CDS pudessem ter feito melhor.

Anúncios

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 14 de Dezembro de 2016 by in Memória, Patrícula elementar, Política nacional and tagged .

Navegação

%d bloggers like this: