PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Manuel Graça Dias, cronista

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(c) S.A. Teatro Azul, Almada (Teatro Municipal Joaquim Benite, de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira)

Manuel Graça Dias (n. 1953) é um arquitecto muito interessante. Arriscaria mesmo dizer que no plano de uma certa teoria da arquitectura – uma teoria prática, não-académica, que trata a arquitectura como uma arte eminentemente política, na linha do que Le Corbusier elevou a um patamar de excelência poética e criatividade reflexiva – Graça Dias é único no contexto português. Lembro-me de um programa de rádio em que ele andava de carro pela cidade com outro arquitecto e iam conversando (editado em livro pela Relógio d’Água em 1999, Ao Volante Pela Cidade).

Chegou-me às mãos um livrinho já antigo que compila um conjunto de crónicas de imprensa escritas por Graça Dias nos finais dos anos de 1980. A edição sofre de maleitas que infelizmente conheço (falta de uma boa revisão ortográfica, por exemplo) mas a qualidade intrínseca dos textos compensa largamente esses defeitos, a que se acrescentam desenhos do autor que são uma delícia (sobretudo para o espírito).

Vida Moderna, publicado em 1992, reúne crónicas do arquitecto publicadas entre 1988 e 1989 em vários jornais, mas sobretudo n’O Independente, onde assinou textos totalmente diferentes de tudo o que até então podia ser lido sobre arquitectura na imprensa portuguesa. Nelas, Graça Dias discorre sobre temas tão diferentes como auto-estradas, pontes, barcos, roulottes, guindastes (!), teatros, castelos, tectos falsos, táxis, aviões, cores, candeeiros (a luz), portas ou escadas.

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O modo como relaciona a arquitectura com o quotidiano de uma cidade e com os acasos, propósitos e conjunturas que determinam a evolução da forma de uma cidade e do que nela acontece (como se vive, onde se vive, o que se preserva, o que se apaga para dar lugar a novas existências e as razões por que tudo isso sucede) é um exercício que constitui em si mesmo um modo de ser arquitecto. Que arquitecto é esse? Alguém que pensa o espaço e o tempo como uma equação dinâmica que gera um determinado lastro na matéria, consoante a vida de quem a pisa, ou toca, e inelutavelmente molda.

Mas para além das ideias que Graça Dias expressiva e descomplexadamente ensaiou nessas crónicas, ao correr da pena e das «noites de acabamentos» (uma das crónicas é sobre essas noitadas de trabalho dos arquitectos antes da finalização de projectos candidatos a concursos, é sobre essas longas travessias da noite que ficam na memória do corpo dos arquitectos), o que mais ressalta é a descrição que o autor faz desses dias já um pouco longínquos, quando nas melhores parcelas da sociedade portuguesa fervilhava um desejo inadiável de mudança, e os arquitectos eram parte disso, ali a desenhar futuros noite fora e a ver nascer as manhãs ensolaradas e sujas da cidade.

Apesar de algumas poucas referências ao primado da tecnologia e aos procedimentos (entretanto tornados comuns) que o império dos mercados de toda  sorte e feitio veio a impor (determinando práticas tão absurdas como mobilar casas de uma assentada, com móveis e objectos sem relação com a história de vida de cada um), Graça Dias descreve um país totalmente diferente do que hoje conhecemos. Um país de gente acordada de noite, a trabalhar com alegria, como os arquitectos nas noites de acabamentos na cidade, com coragem de existir criativamente.

E há nessas palavras do arquitecto o fôlego de pelo menos uma geração de portugueses: a dos filhos de uma época luminosa do País e também da Europa, quando as utopias, por processo próprio da «engenharia das possibilidades» (definição inesquecível de José Mário Branco) se transformaram em livros, em casas, em pontes e em crónicas do calibre destas que em boa hora (1992, ano bestial para muita gente que conheço) Vida Moderna juntou para sempre. Pois os livros de papel e tinta são para sempre.

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Vida Moderna, Manuel Graça Dias (crónicas de imprensa)
João Azevedo, Editor (1992)

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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