PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Black Mirror e as miniaturas do Lidl

2016-11-22-10-19-50

 

Não são bonitos, os cenários negros pintados pelos argumentistas da série Black Mirror – uma série inglesa lançada em 2011 por Charlie Brooker (n. 1971, um bem-sucedido cronista de jornais e argumentista de televisão – autor também da série How TV Ruined Your Life –  cujos começos, nos anos de 1990, se fizeram na imprensa especializada em novas tecnologias). A série tem a interessante particularidade de ficcionar com mestria a distopia em que existimos globalmente, sem contudo precisar de uma trama cujo fio condutor arraste os espectadores ao longo de mais tempo do que uma boa história comporta.

Dito de outro modo: Black Mirror não é bem uma série, antes uma antologia de pequenos tele-filmes sem outra conexão entre si que não seja a do tema que lhes serve de pano de fundo: as tecnologias do entretenimento e da globalização que têm feito o seu caminho desde a segunda metade do século XX, gerando populações humanas semelhantes a frangos de aviário ou bezerros de matadouro que, mal nascem, se põem voluntariamente a jeito para a matança.

A palavra matança surgirá exagerada a muitos – mas não se trata de uma metáfora, não, antes de uma literalidade filosófica nem tanto assim exagerada para dizer platitude, quotidianidade, competitividade e outras aspirações rasteirinhas, destrutivas e totalmente deprimentes de uma humanidade posta ao serviço do capitalismo global e da sua febre gananciosa (uma febre que replica os procedimentos obsessivos e compulsivos dos homens e mulheres que estão na sua origem).

Basta olhar com honestidade para o exemplo do lado, ou até mesmo para dentro de si próprio, para descobrir sem dificuldade esse ser disposto ao que for preciso pare ter isto e mais aquilo de que objectivamente não precisará. Se reunidos em grande quantidade, e observados de fora por quem pensa a existência humana, esses seres constituem-se efectivamente em rebanhos de consumidores (dir-se-ia acéfalos) dispostos a consumir-se (ao tempo breve das suas vidas humanas) nessas actividades sem grandeza nem qualquer sentido que dignifique o animal racional e espiritual que subiu ao topo da cadeia alimentar do Planeta.

Exemplo disso mesmo – para citar algo próximo e ao alcance dos leitores desta linhas – é um jogo destinado às crianças que a cadeia alemã de supermercados Lidl tem neste momento à disposição dos seus clientes. Replicando os modos de fazer de antigas colecções de cromos (da bola ou das séries televisionadas de animação infantil, como por exemplo Vickie, o pequeno Viking), o Lidl ‘oferece’ aos seus clientes a possibilidade de ir juntando em cada ida às compras miniaturas de produtos que podem ser adquiridos nas suas superfícies comerciais: minúsculas embalagens de esparguete, de cereais para chokapiquianos, garrafas de óleo alimentar, etc, etc.

Pessoas adultas que conheço depressa entraram nesse jogo de fazer mais e mais compras no Lidl para conseguir juntar todas as miniaturas que dão direito a não-sei-o-quê uma vez reunida a colecção inteira de pequenas réplicas dos produtos de grande consumo que todos (nós, os do mundo rico) acabamos (alguma vez ou repetidamente) por comprar lá para casa.  Como tantos portugueses que conheço ou que simplesmente observo nesses preparos, e desde logo os mais velhos, para quem o (falso) poder de compra que sucedeu à miséria dos longos anos do Estado Novo se constituiu numa espécie de riqueza, ou, enfim, pelo menos num remedeio que fez deles novos-remediados (falsa ascensão social que contudo lhes proporciona uma sensação de conforto relativamente à abjecta miséria em que vieram ao Mundo e foram criados).

Pessoas adultas que conheço andam no Facebook a propor miniaturas dessas para troca por outras que lhes permitam ter a colecção inteira e aceder assim a não-sei-o-quê que o Lidl lhes prometeu. Pessoas que eu pensava que pensavam e que não alinhariam em expor os seus filhos a mais educação para o consumo, andam nisso, a juntar esses ‘brinquedos’ de brincar aos consumidores – ‘brinquedos’ de desfazer precocemente a humanidade de todos esses humanos tão novinhos ainda, antes mesmo de descobrirem que existem na vida coisas infinitamente mais interessantes, como por exemplo a arte.

Voltando a Black Mirror, cujo assunto no final de contas é o mesmo, embora acrescentado de grande profusão de écrans: a meio caminho entre o realismo documental e a ficção especulativa sobre o futuro próximo, Black Mirror percorre, explorando-as na sua capacidade de aterrorizar, as possibilidades oferecidas pela Internet e pela televisão, espelhando a alienação em que a generalidade existe, o medo em que a generalidade caiu como se num caldeirão de cobardia e estupidez.

A primeira história da primeira série de Black Mirror é totalmente plausível e pode acontecer a qualquer momento, em qualquer país, numa variante qualquer dessa possibilidade ao alcance de algum doido mais afoito e/ou perdido da cabeça: o rapto da princesa de Inglaterra gera uma curiosa exigência como moeda de troca para o resgate da real rapariga: que o primeiro-ministro de Inglaterra tenha uma relação sexual, com penetração, gravada e exibida ao vivo em tempo real, com um porco. Ou aliás, com uma porca (e é hilariante essa necessidade de sentido heterossexual auto-imposta pelo governante dessa Inglaterra imaginada e no entanto tão real). Uma série a que talvez a culta e adulta RTP2 lance mão um dia destes.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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