PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Mar, sol, gigantes com árvores plantadas na cabeça

gigante

[«Hoje não aconteceu nada. Nem hoje. E hoje também não. Aqui nunca acontece nada. Será sempre assim?»]

Talvez a melhor palavra para descrever este livro seja estranheza. A estranheza de percorrer páginas grandes, com figuras compósitas (feitas de humanidade e de paisagem) também grandes, visivelmente absortas numa espécie de espera por algo que não acontece. Passa um mosquito, quando muito, mas mais nada, numa história em que os dias se descrevem como sendo iguais aos pinheiros. Mas como é, ser igual a um pinheiro? Como é ser igual a todos os pinheiros plantados no silêncio de uma paisagem habitada por seres gigantes como dinossauros, que têm árvores na cabeça e colhem os pinheiros como se fossem florinhas?
Estranheza.

Sucedem-se as estações, e nada. Não acontece nada. Até um dia.

No entanto, também isso que acontece um dia não acontece verdadeiramente. Isto é, nada muda, pois isso que acontece é absorvido pela quietude de pranchas que parecem elas próprias procurar por algo que lhes mude as páginas, que as resgate de um sono, ou de um sonho. Apesar disso, o facto de não acontecer nada é apresentado, e bem, como algo que não constitui um problema, interpelando a actual e nefasta vertigem do tempo.

Com vasta obra, o ilustrador Manuel Marsol (mar, sol) faz em O Tempo do Gigante um exercício de grande beleza sobre a passagem do tempo e a memória onírica da infância. Percorrendo paisagens habitadas por tão estranhos seres de escala mitológica, o livro convida a parar e a respirar o presente em silêncio.

Trabalho subtil, para ver várias vezes, e descobrir novas coisas aparentemente secretas e invisíveis. Muito desafiador da imaginação, O Tempo do Gigante convida ao pensamento abstracto e à contemplação.

giganteO Tempo do Gigante (El Tiempo del Gigante)
Tradução de Carla Oliveira
Prémio Nacional no Festival AmadoraBD em 2015 – Melhor Ilustração de Livro Infantil
Carmen Chica e Manuel Marsol (ilustrações)
Orfeu Negro (colecção Orfeu Mini), 2015

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 16 de Novembro de 2016 by in Livros, Mesinha de cabeceira and tagged , , , , , .

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