PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Anton Kannemeyer: o colonialismo tin-tim por tin-tim

 

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O AmadoraBD é, por opção programática, um evento em que cabem diferentes estéticas (aqui entendidas não apenas no que concerne ao tipo de registo gráfico mas também da narrativa), sendo por outro lado um festival destinado a diferentes faixas etárias. Papá em África é uma exposição para mais de 18 anos – apesar de o registo gráfico sugerir algo infantil (uma espécie de Tintim que, embora belga francófono é, à semelhança dos afrikanders, de origem flamenga). Anton Kannemeyer (n. 1967) é um artista branco, nascido no seio das elites brancas sul-africanas. Muito polémico antes e depois do apartheid, o seu trabalho é conhecido por ser extremamente incisivo e sarcástico, expondo à luz das vinhetas de banda desenhada, sem panos quentes e com inaudita crueza, aqueles que permanecem, também na Europa pós-colonial, os grandes temas-tabu das sociedades humanas ocidentais: o racismo e a segregação racial.

Brincando com os conceitos do argumentário racista do século XX (designadamente o que declarava que existia uma explicação científica que comprovava a inferioridade intelectual dos pretos relativamente aos brancos), o autor enfatiza-os como forma de expô-los na sua abjecta forma instrumentalizada de construção social: um recurso de engenharia social destinado a manter o poder na mão dos brancos. Com Pappa in Afrika, originalmente publicado em 2010, Kannemeyer põe o dedo na grande ferida que permanece a sociedade sul-africana pós-apartheid.

E se dúvidas houvesse relativamente ao imobilismo que define a generalidade das sociedades, Kannemeyer faz em Papá em África um exercício que revela a que ponto nada mudou depois da abolição do regime do apartheid na África do Sul: a reprodução nas suas vinhetas de BD das definições usadas nas entradas dos dicionários referentes a palavras que, através dos tempos (e aparentemente imunes às grandes rupturas societais e políticas), transportam o racismo ainda regurgitante de vida na cabeça e na boca de quem a elas recorre diariamente.

Inevitavelmente, o autor interpela também os europeus, actualmente a braços com as consequências (ainda por inscrever no plano da consciência colectiva dos fenómenos histórico-sociais) de um terrorismo, de extremismos, de nacionalismos e demais intolerâncias que decorrem de processos jamais sanados – por vezes nem sequer julgados, como aconteceu em Portugal com os crimes racistas do Estado Novo. Trata-se de um apagamento e de uma ausência de escrutínio colectivo moral que são inquestionavelmente responsáveis não apenas pela perpetuação do racismo dos brancos, como também pelo espelho disso que constitui o racismo dos historicamente injustiçados.

Tintim no Congo, publicado em 1930 e 1931 (em fascículos, pelo suplemento infantil Le Petit Vingtième), conheceu em Portugal a curiosa tradução de Tintim em Angola (em 1939, pela revista Papagaio), transpondo o espaço da narrativa original para a então colónia portuguesa, futura província ultramarina portuguesa de Angola. Tratou-se da primeira tradução de Tintim no Mundo, uma interessante curiosidade histórica.

Livro muito polémico, também em Portugal, a requerer contextualizações várias, designadamente no plano da interpretação política e social da memória do colonialismo.

(*) Anton Kannemeyer autografa os seus livros hoje e amanhã no Festival AmadoraBD

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Papá em África, de Anton Kannemeyer

Chili com Carne, 2014

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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