PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O estranho caso da criancinha desaparecida

 

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Também sou míope. Também uso óculos. Antigamente ser caixa-dóculos não era uma coisa muito agradável de se ser. Com o tempo, sobretudo depois do deslumbrante sucesso de Manuel Luís Goucha, os óculos passaram a ser olhados como um adereço de moda. De modo que, desde então, ser míope deixou de ser uma desvantagem social invocável como desculpa para a melancolia.

No entanto, a miopia de Luiz Pacheco era de outra dimensão. Os cus-de-garrafa de Luiz Pacheco se, por um lado, lhe deformavam os olhinhos forçosamente piscos, por outro lado eram uma homenagem às garrafas anónimas a que se dedicou, diariamente, a descobrir o fundo.

Este edificante opúsculo de 68 páginas — frontispícios, colofóns, índices e dedicatórias incluídas — tipografadas com um corpo de letra à prova de míope profissional, é tão autobiográfico como tudo o resto que Luiz Pacheco publicou. E até começa bem:

“Gosto muito de Caldas da Rainha. É uma terra muito bonita que tem um parque muito catita. Com cisnes. Os cisnes passeiam-se devagar pela água do lago. As criancinhas correm brincam nas áleas do jardim. Se os cisnes trocassem com as criancinhas e viessem patinhar no seu andar baloiçado para o jardim, as criancinhas podiam (sem o perigo de em tal convívio aprenderem a grasnar) passear então no lago, o que lhes era um prazer, julgavam. As que soubessem nadar ou tivessem bóia adequada à cintura, vogavam. As outras iam logo ao fundo e nunca mais ninguém as via porque o lago tem um abismo que dá para a vala-comum. Por isso, às vezes, quando os cisnes sobem a terra, muitas muitas criancinhas descem ao fundo, vão parar à Lagoa de Óbidos pelos esgotos da cidade e dali ao vasto mar. Se meninas, transformam-se em sereias; se rapazes, em rochas modeladas, em duros querubins. Esta a razão por que nos roteiros turísticos lá vem indicado a normando que Caldas da Rainha é a terra onde desaparecem mais criancinhas. Todos os forasteiros o sabem; os indígenas é que fingem disfarçar.”

Depois de algumas poucas páginas onde, sem rebuço, nos conta como todos os dias se embebedava e escrevia e adormecia os filhos nas gavetas da cómoda, enquanto a companheira trabalhava de sol-a-sol numa fábrica mal paga e a Assistência à Família se entretinha a fazer-lhe desaparecer os filhos, o livro acaba por acabar menos bem:

“Já não gosto nada de Caldas da Rainha. A próxima criancinha a desaparecer sou eu.”

Ora bem, dois pontos. Luiz Pacheco foi um grande editor. Foi também um grande escritor que nunca se achou suficientemente grande e que, também por abjeccionismo militante, nunca escreveu com a grandeza que podia e que a tanto seria obrigado se não fosse tão dado à garrafa, à chulice e à autocomiseração. Mas Luiz Pacheco foi, também, um grande filho-da-mãe. Para as mães, para os filhos e mesmo para os amigos que, amiúde, o sustentaram.

Não se pode ter tudo. Mas valerá a pena ainda lê-lo? Então não? E não o digo comparando-o a um Rodrigues dos Santos ou a um a Valter Hugo Mãe. Digo-o comparando-o, por exemplo, com o vigésimo sétimo romance natalício de um António Lobo Antunes. Ou com a vaga esperança, igualmente natalícia, de mais um romance póstumo de José Saramago.

 

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O Caso das Criancinhas Desaparecidas, de Luiz Pacheco, Rolim, 1986

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