PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O futuro próximo das universidades: a casa dos professores

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(c) Murray White

J. M. Coetzee é um dos meus escritores preferidos, falando dos nossos contemporâneos. Sul-africano carregando as dores de sê-lo, há para além disso (que não é pouco) na sua escrita de língua inglesa (é preciso dizê-lo, quero dizê-lo) algo que torna essa linguagem mais rica do que habitualmente nos tem sido dado a ler – para referir a contemporaneidade, e salvaguardadas as devidas excepções confirmadoras da regra. Essa é, aliás, uma das diferenças entre a literatura e toda a outra escrita. Podemos também ver isso em Philip Roth, por exemplo, para referir um escritor de língua inglesa mais velho, embora com outra cabeça (uma cabeça norte-americana, que é claramente diversa de uma cabeça sul-africana). Dito isto, passo ao que me traz. A transcrição de um excertozinho de Diário de um Ano Mau (2007), que estou a ler na tradução da D. Quixote (2008).

«Constitui sempre uma mentirola que as universidade fossem instituições com autonomia. Não obstante, o que as universidades sofreram nas décadas de 1980 e 1990 foi bastante vergonhoso, porque, sob a ameaça de verem-lhes cortados os orçamentos, se permitiram ser transformadas em empresas comerciais, nas quais os professores que antigamente faziam as suas investigações em soberana liberdade se transformaram em empregados oprimidos obrigados a atingir quotas sob o escrutínio de gestores profissionais. É muito duvidoso que os antigos poderes do professorado alguma vez sejam restituídos.

Na época em que a Polónia se encontrava sob o regime comunista, havia dissidentes que davam aulas nocturnas em sua casa, que dirigiam seminários sobre escritores ou filósofos excluídos do cânone oficial (Platão, por exemplo). Não havia dinheiro a passar de umas mãos para outras, embora possa ter havido outras formas de pagamento. Para que o espírito da universidade sobreviva, pode ser preciso que surja qualquer coisa deste género nos países onde o ensino superior foi completamente subordinado aos princípios empresariais. Por outras palavras, a verdadeira universidade pode ter de se transferir para casa das pessoas e conferir licenciaturas cujo único apoio sejam os nomes dos académicos que assinam os certificados.»

Podendo, retomarei estas linhas para dizer mais qualquer coisa sobre este livro a várias vozes, tão curioso, de Coetzee. Tradução lamentável.
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Diário de Um Ano Mau  (Diary of a Bad Year), J. M. Coetzee Publicações Dom Quixote, 2010 (2.ª ed.)
Tradução de J. Teixeira de Aguilar

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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