PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

A maldição de Nero

 

 

I Parte — ROMA ANTIGA

Na noite de 18 de Julho de 64 eclodiu aquele que ficou conhecido como ‘o grande incêndio de Roma’ (houve outros, embora não tão mediáticos). Uma semana depois, entre apagamentos e reacendimentos, quando finalmente o fogo se extinguiu, tinham ardido dois terços da cidade antiga, bem como uma boa parte do resto da cidade.

A narrativa cristã atribuiu ao imperador Nero Cláudio César Augusto Germânico a autoria deste grande incêndio. Segundo essa narrativa, fundada provavelmente em Suetónio (que, tendo nascido em 69, um ano depois da morte de Nero, não lhe devotou grande estima na sua afamada Vida dos 12 Césares), popularizou-se a imagem de Nero a tocar lira, na varanda do seu palácio, enquanto ínsulas, domus, palácios, templos e putarias rituais se deixavam devorar por este inferno de Dante avant la lettre.

No entanto, segundo Tácito, outro historiador romano, contemporâneo, mas nem por isso grande simpatizante de Nero, este estaria em Anzio por altura do incêndio. O que, não querendo dizer grande coisa, seguramente o impossibilitaria de tocar lira na varanda do palácio imperial. Ao que parece, na realidade regressou rapidamente a Roma, pôs a guarda pretoriana a apagar o incêndio e até mandou abrir os jardins do palácio imperial para albergar os desalojados.

No entanto, não é menos verdade que Nero sempre acalentara, como todos os imperadores, a ideia de deixar obra na capital do Império. Por isso, mal terminaram os trabalhos de rescaldo, mandou comprar os terrenos devastados. Dois factos que, somados, davam crédito a um crescente rumor popular, segundo o qual Nero teria mandado queimar a cidade para a poder reconstruir à glória do seu nome. É óbvio que os spin doctors de Nero, pressentindo o perigo que um rumor destes representava, rapidamente sugeriram um bode expiatório para salvar o coiro do imperador.

[A este propósito, leia-se em Tácito: Contudo, nem por indústria humana, nem por larguezas do imperador, nem por sacrifícios aos deuses, foi conseguido afastar a má fama de que o incêndio tinha sido mandado. Assim, com o fim de extirpar o rumor, Nero inventou uns culpáveis e executou com refinadíssimos tormentos os que, aborrecidos pelas suas infâmias, chamava o vulgo de cristãos.”]

O resto é História. Não admira que os cristão não nutram, ainda hoje, grande afeição pelo imperador Nero. Dar a outra face é uma coisa. Ser crucificado na Via Ápia, queimado vivo em populares espectáculos pirotécnicos ou devorado à dentada por leões esfaimados, é outra coisa completamente diferente. E ele há limites, mesmo tendo em conta a piedade e o perdão como normas mandatórias do Novo Testamento.

 

 

II Parte — PORTUGAL MODERNO

Quase dois mil anos depois, o mundo não mudou por aí além. Se, no Verão Quente de 1975, os culpados eram os comunistas, ao longo das últimas quatro décadas cresceu exponencialmente o número e a variedade dos bodes expiatórios: madeireiros, caçadores, cornudos, vizinhos invejosos, golfistas, eucalipteiros, vendedores de kamoves e canadéres, fornecedores de fardas e mangueiras, viciados em nicotina ou em THC, maluquinhos-tipo-Nero propriamente ditos, etc., etc., etc. Ou seja, todo um bando de criminosos que, deliberadamente, chegam fogo à nossa bem amada floresta, tão bem amada que há cinco ou seis décadas, desde o tempo da grande emigração dos anos 1960, foi gradualmente votada ao mais completo ostracismo.

Ora, tecnicamente, para haver incêndios florestais são precisos um pressuposto e três requisitos. O pressuposto, muito naturalmente, é que haja material combustível, ou seja, floresta (o Alentejo é menos atreito a incêndios florestais e isso não será seguramente por acaso). E os três requisitos são: a secura do Verão, a ignição (natural, negligente ou criminosa) e o vento mais forte que o habitual.

Sigamos os números oficiais: 44% dos incêndios florestais ocorridos este ano em Portugal são de origem natural; 37% por negligência (incluindo queimadas, trabalhos agrícolas com alfaias eléctricas, churrascos de fim-de-semana e foguetórios em honra das santas, actividades todas elas proibidas pelas leis da República); e apenas 19% por obra de incendiários (incluindo vizinhos invejosos, cornudos relapsos, profissionais ao serviço de interesses obscuros e maluquinhos-tipo-Nero propriamente ditos).

Contudo, como diria Tácito há quase dois mil anos, nem os números oficiais da Polícia Judiciária conseguem afastar a convicção do nobre-povo-nação-valente (do Facebook em geral e das berças em particular) segundo a qual nove em cada dez incêndios são obra de incendiários, quer profissionais em nome de interesses mafiosos, quer vizinhos e cornudos com contas a ajustar, quer maluquinhos-tipo-Nero propriamente ditos. A PJ diz que são apenas um em cinco? Não interessa, a bófia não percebe nada de incêndios e para o povo é tudo fogo-posto. E se não é fogo-posto, é terrorismo marciano, nas sábias palavras do eloquentíssimo presidente da Liga de Bombeiros Portugueses.

À falta de melhor bode, os spin doctors da Geringonça rapidamente se renderam à estratégia já devidamente testada na Antiguidade Clássica. Não admira, portanto, que comandantes dos bombeiros e da protecção civil, majores e tenentes-coronéis ad hoc, vereadores do turismo e dos espaços verdes, presidentes de junta, de câmara e de governo regional, secretários de estado, ministras da administração interna e até jornalistas com experiência no terreno, todos à uma se despachassem a apontar os ‘incendiários’ como os principais culpados. E os ‘incendiários’, tal como os cristãos de Nero, são sempre a melhor solução sócio-química para apagar o ímpeto vindicativo da populaça assustada.

Há dez anos atrás, António Costa era ministro da administração interna. Esse ano foi quase tão quente como este. O número de ignições diárias e a área ardida igualmente assustadores. Sem direito a férias no Algarve, o actual primeiro ministro correu o país tentando apaziguar o poder local com a sua sistemática presença no terreno e as suas promessas de ordenamento, prevenção e meios de combate adequados.

Dez anos depois, vejo-o prometer mais-ou-menos a mesma coisa, o mesmo plano de reorganização da floresta, a mesma promessa de mais orçamento e a mesma prevenção-prevenção-prevenção. Se tudo correr normalmente, daqui a dez anos pode muito bem ser presidente da República e corremos o risco de o ouvir, mais uma vez, a prometer o salvífico reordenamento do território florestal. Que, como todos sabemos, nunca poderá ser feito. Por falta de meios.

E não o fará seguramente por mal, mas apenas porque não pode fazer mais nada que prometer a esperança de um interior magicamente habitado, por uma vaga pós-moderna de hipsters-agricultores, ou de refugiados pós-islâmicos, e um admirável aquecimento global sem a praga dos incêndios estivais.

Porque, uma coisa é certa — tal como, por exemplo, na Austrália ou na Califórnia — enquanto houver uma floresta, um Verão quente, uma ignição bem sucedida (natural, negligente ou criminosa) e um vento de feição, Portugal continuará ciclicamente a arder.

Enquanto isso acontecer, eu tenderia a ver as coisas pela positiva e até me atreveria a dizer que é muito bom sinal — ainda temos floresta.

 

 

Créditos: na capa, de autor desconhecido, Nero toca lira ao fogo que passa; Fire, The Crazy World of Arthur Brown, 1968; Annales (Ab excessu divi Augusti), Públio Cornélio Tácito, 55-120 dC; Firestarter, The Prodigy, 1997.

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This entry was posted on 20 de Agosto de 2016 by in Patrícula elementar, Voyeur and tagged , , , , .

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