PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

A História política e social que passa ao lado do jornalismo

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Lembro-me bem de quando em França, em nome do Estado laico de Sarkozy, foi proibido o uso de ‘símbolos religiosos’ (o véu islâmico das raparigas) na Escola pública francesa. Até então, o uso do véu islâmico não era um assunto, nem havia fricções sociais dignas de nota a ele associadas. França era, apesar de tudo, um país onde cabiam as diferenças. Sucedeu que ao esmagamento da forte pulsão religiosa (identitária, necessariamente) dessas culturas sobreveio uma auto-guetização dos filhos dos argelinos, tunisinos e marroquinos (para referir os mais numerosos). Basta visitar uma creche ou uma escola francesa para saber a que ponto essa proibição foi geradora de diferenciação, intolerância e desigualdade. Não será pois de admirar que os muçulmanos de França estejam a realizar um regresso aos fundamentos da sua cultura como forma de afirmação identitária. Uma forma de resistência a uma sociedade que é não apenas desigual como também dessacralizada – dominada por um fundamentalismo ateu que lhes deve ser insuportável. O modo como hoje encaram a religião pode, assim, ser entendido como um espelho que reflecte um outro integrismo: o ateísmo pragmatista e intolerante que prevalece nas sociedades europeias pós-coloniais, de que França constitui (a despeito das suas apregoadas liberdade, igualdade e fraternidade) um exemplo redondinho como uma pescadinha de rabo-na-boca. Se ao menos houvesse jornalismo sobre isto…

“A França”, como dizem os nossos emigrantes para traduzir “la France” está feita, mas não é ao bife (antes fosse, pois ao menos assim sabia ao que ia): um conflito interno pós-colonial, fortíssimo e silenciado, que nenhum decisor político parece dispor-se a admitir, com a cumplicidade tácita, ignorante e passiva de um jornalismo preguiçoso, está em implosão desde há muito tempo. Cidadãos franceses de origens árabes, nascidos e criados no território continental francês, onde o Estado e a sociedade em geral não os integrou jamais verdadeiramente (apesar de todos os subsídios – destinados antes de mais a corrigir os problemas decorrentes de uma demografia em recuo, designadamente pela promoção da natalidade), estão a perder o amor à vida: à dos seus concidadãos e à sua.

Cidadãos franceses marginalizados por uma sociedade profundamente racista, e cuja existência se construiu nesse mundo de falsa multiculturalidade e tolerância, ameaçam a paz interna de França. Cidadãos franceses (mas também belgas), dificilmente repertoriáveis nas bases de dados anti-jihadistas, implodem de excesso de isolamento e carência de integração (o que será compreensível, pois há diferenças culturais insanáveis – a que o neoliberalismo e a financiarização de tudo só acrescentaram problemas – entre o american way of life dos franceses e os valores do Islão), e arremessam-se, com camião ou sem ele, contra multidões que chacinam – no metro de Bruxelas, no Bataclan de Paris, ou na marginal chamada Promenade des Anglais em Nice.

“A França” tem pois gerado os seus próprios terroristas. Qualquer jornalista minimamente preparado da minha geração sabe disso. Mesmo que não saiba de experiência própria, mesmo que não tenha primos de segunda geração “na França”, ou não seja meio-franciú (como tantos jornalistas que conheço), ou não tenha viajado sobejamente pela Europa durante a juventude (como era tão comum fazer-se na minha geração) , qualquer jornalista a sério sabe que jornalismo sobre o que está a acontecer em França não é ir a correr entrevistar as vítimas e testemunhas dos horrores do terrorismo, e depois passar a outra coisa com a mesma velocidade. Jornalismo é entrar numa sociedade, conhecê-la, estudá-la a partir de dentro, ver e ouvir o que não está visível nas redes sociais – e tudo o que habitualmente se oculta por detrás das narrativas simplistas, tolas (e também perigosas) de políticos como François Hollande.

Se houvesse jornalismo – e designadamente reportagem e investigação de sociedade, géneros que demoram a ser produzidos, que requerem tempo e reflexão, que suscitam debates fundamentais, também, e que custam dinheiro, lá está – qualquer um de nós descobriria sem dificuldade que por detrás deste terrorismo está não apenas a pulsão destruidora dos formandos e demais doutrinados pelo Daesh, mas também razões ligadas à recente História política e social de França (ou da Bélgica). Em vez disso, nos media portugueses que estão a cobrir o horroroso ataque terrorista ocorrido em Nice repete-se à exaustão a narrativa do ‘lobo solitário que não cumprimentava os vizinhos embora não parecesse religioso’ (!) Há decididamente qualquer coisa de muito importante que está a passar ao lado do jornalismo feito por portugueses. Qualquer coisa que replica o que não está a acontecer noutros lugares, é certo. E que não vai jamais poder ser substituída pelos comentadores de serviço, como fica patente na miserável cobertura mediática que tem sido feita dos sucessivos ataques terroristas que têm vindo a minar de insegurança e medo a vida dos europeus.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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