PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Colecção Vampiro: o crime compensa

 

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Durante décadas, a Livros do Brasil foi das editoras mais interessantes em Portugal. Além da colecção Dois Mundos, mais ‘séria’, mantinha duas colecções de bolso, uma de policial, outra de ficção científica, à razão de um número por mês. Depois começou a desaparecer das prateleiras e cheguei a pensar que, na voragem das crises em que o país tem sido useiro e vezeiro, tivesse sido mais uma a fechar definitivamente a loja.

No entanto, de há uns tempos para cá ressuscitou nos escaparates com reimpressões dos melhores autores do seu catálogo: Camus, Steinbeck, Lowry, Kipling, Faulkner, Hemingway, Malraux, Kafka. E, com a chegada deste Verão, relançou mesmo a antiga colecção Vampiro. Começou com dois títulos do seu vasto repertório de lixo industrial, S.S. Van Dine e Ellery Queen, mas finalmente chegou a duas das melhores pérolas da colecção: O Falcão de Malta, de Dashiell Hammett e O Imenso Adeus, de Raymond Chandler. Este último superiormente traduzido por Mário Henrique Leiria, que conseguiu o raro feito de criar um título ainda melhor que o original. Sabendo, como todos sabemos, que as traduções em geral (e dos títulos em particular) costumavam ser quase sempre abaixo de cão, sobretudo nestas colecções de ‘literatura menor’.

Por exemplo, o primeiro Chandler da série Marlowe, The Big Sleep, foi traduzido por À Beira do Abismo. Entretanto, O Falcão de Malta havia sido originalmente traduzido por Relíquia Macabra, estou em crer por causa do filme de John Huston, entre nós lançado antes do livro.

 

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Neste filme de 1941, por quase todos considerado a origem do film noir, aparecia pela primeira vez Humphrey Bogart no papel principal. A grande ironia deste casting, contra a vontade do estúdio, residiu no facto do Sam Spade original ter “o ar agradável de um demónio louro”, como se pode ler logo no primeiro parágrafo do livro, quando Bogart era por demais moreno e gingão para poder, à partida, sustentar aquela personagem.

A História, tal como num bom policial, também tem inesperadas reviravoltas no enredo. A verdade é que, quando o noir era já uma moda rentável em Hollywood e Howard Hawks dirigiu The Big Sleep/À Beira do Abismo (1946), não houve qualquer dúvida na escolha da nova estrela Humprey Bogart para o papel de Philip Marlowe.

Ora, se tivermos em conta que Chandler nunca escondeu ter criado o seu detective a partir do Sam Spade de Dashiell Hammett, até parece outra ironia da História que tenha sido o improvável Humphrey Bogart a recriar o papel dos dois no cinema. E que, para todo o sempre, tenha solidificado o estereótipo, ainda hoje imensamente popular, do detective privado meio cínico e meio romântico que navega, quase sempre perigosamente, entre a ética particular e a legalidade do establishment.

 

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Nada a opor, antes pelo contrário, que a Livros do Brasil tenha lançado estes dois autores ao mesmo tempo. Curiosa, contudo, a escolha dos títulos. Para mim, ou se emparelhava O Falcão de Malta, do Hammett, com o primeiro Chandler, The Big Sleep/À Beira do Abismo, seguindo o critério da criação das personagens, ou se emparelhava O Imenso Adeus, do Chandler, com o também mais complexo The Red Harvest/A Ceifa Vermelha, do Hammett. Enfim, como dizia a minha sapiente avó materna, que das letras conhecia as suficientes para ‘fazer’ o nome nos documentos oficiais — “não se pode ter tudo na vida”.

As capas foram refeitas e ainda bem, pois a d’ O Imenso Adeus original (Vampiro nº 101) era de fugir. Quase tão má como o agoirento hino ao futebol do Abrunhosa. Estas duas capas novas, não sendo nenhuma de se lhe tirar o chapéu, sugerem contudo aquele kitsch Black Mask que não fica nunca mal num clássico policial de bolso.

O preço, menos de sete euros, é uma simpática surpresa que se saúda. E mais se saudaria se a Livros do Brasil aproveitasse a onda para relançar os outros Hammett e Chandler (sobretudo The High Window/A Janela Alta, que eu nunca consegui arranjar, mesmo nos alfarrabistas). Os Simenon, os Patricia Highsmith, os Lionel White e os William Irish também seriam muito bem vindos. Os outros, no geral, não valerão a pena e o esforço. Mas não se prendam por mim.

Em contrapartida, já se lançariam uns grandes foguetes a um relançamento da colecção Argonauta. Phillip K. Dick, Bruce Sterling, Robert Silverberg, Ursula Le Guin, Isaac Asimov e Ray Bradbury seriam as minhas sugestões, assim sem me levantar da cadeira para ir ver melhor as lombadas nas prateleiras. Porém, no meio de várias centenas de títulos, há seguramente muito mais por onde escolher.

Uma coisa é certa. No top da Bertrand desta semana, O Imenso Adeus está em 2º lugar nas vendas, apenas atrás d’ O Advogado Mafioso, de John Grisham, e completamente à frente dos eternos residentes Rodrigues dos Santos e Chagas Freitas.

Bravo, Raymond Chandler. Bravo, Livros do Brasil.

 

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O Imenso Adeus (The Long Goodbye), Raymond Chandler, 1953

trad. Mário Henrique Leiria, reimpressão Livros do Brasil, 2016

 

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O Falcão de Malta (The Maltesse Falcon), Dashiell Hammett, 1929

trad. Gonçalo Neves, reimpressão Livros do Brasil, 2016

 

Créditos das imagens:

1 —Cartaz do filme THE LONG GOODBYE (O Imenso Adeus), de Robert Altman, c/ Elliot Gould no papel de Philip Marlowe, 1973;

2 — Humphrey Bogart no papel de Sam Spade, THE MALTESE FALCON (A Relíquia Macabra), John Huston, 1941;

3 — Humphrey Bogart no papel de Philip Marlowe, c/ Lauren Bacall, THE BIG SLEEP (À Beira do Abismo), Howard Hawks, 1946.

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