PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Os poderes das mulheres (as mulheres ao poder)

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(c) Sandra Ramos

Tucídides, primeiro historiador no sentido que hoje damos a esse fundamental ofício, autor de uma só obra, deixou contada em grande pormenor a maior parte (pois deteve-se em 411) da mais famosa guerra da Antiguidade grega na sua História da Guerra do Peloponeso (traduzida entre nós por Raúl Rosado Fernandes para as edições da Fundação Gulbenkian), um conflito que se iniciou em 431 a.C. e só terminaria em 404 a.C. Um dos momentos mais significativos desse relato é o famoso diálogo entre os generais atenienses e os mélios (ilhéus aliados de Esparta que procuraram resistir ao ultimato totalitário de Atenas e defender uma posição de neutralidade – sem sucesso perante os argumentos de força bruta movidos pelo processo de hegemonização ateniense).

A “batalha” das mulheres unidas lideradas por Lisístrata, imaginada pelo comediógrafo Aristófanes, situa-se durante esse período de tão longa guerra entre os gregos antigos, opondo as mulheres cansadas da guerra e de ter os maridos fora de casa à sua (dos maridos) aparente incapacidade para pôr um ponto final naquela contenda de tão longa disputa pelo poder na Grécia. Sucede que também as mulheres têm os seus poderes nas sociedades. Tradicionalmente dirimidos na ocultação e nas traseiras da casa, em Lisístrata jogam-se num plano mais iluminado, fazendo com que as mulheres se armem de argumentos muito mais poderosos do que os dos generais déspotas. E é pois com uma greve geral ao amor (entenda-se ao sexo) que tomam uma musculada posição política (mesmo se com os dedos delicados de quem cerze vestidos, e com sacrifício próprio do desejo que as une aos homens), empenhadíssimas em ajudar a desfazer o sempre intricado nó górdio da guerra (uma metáfora usada pelo próprio autor).

Adaptado por Rui Silvares da comédia original homónima de Aristófanes, o texto preserva plenamente o seu carácter feminista, pacifista, e também satírico, constituindo um magnífico exemplo de como há certas coisas sobre as quais os homens (e, em sentido lato, os Homens, e portanto também as mulheres) não detêm poder – coisas que as armas convencionais não poderão jamais combater para vencer. E evoco agora um outro grego, o estóico Epicteto, cujo Manual sobre a arte de viver ilustra com pragmática sabedoria essas fronteiras da Natureza que o Homem – uma sua vibração, meramente, porém (ainda) convencido de outra coisa – não controla. O amor (para dizer a sua realidade física e química, e nem tanto a construção conjugal) é claramente uma delas.

Encenada com arte por Ana Nave para o Teatro na Gandaia (um grupo de teatro da Costa de Caparica), Uma tal Lisístrata (interpretada por Pedro Gamboa, desconcertante e tão divertido) juntou em palco 20 pessoas (amadoras umas e profissionais outras) que fazem teatro pelo prazer de fazê-lo juntas, constituindo um retrato bestial da fortíssima pulsão teatral das gentes de Almada, para quem o teatro é parte do ar que respiram. Merecia novas datas na cena do Teatro-Estúdio António Assunção, em Almada Velha.

Uma tal Lisístrata estreou no ano passado na 19ª edição da Mostra de Teatro de Almada.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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