PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Jornalismo, economia e cultura

2016-05-29 20.48.20

 

Começou por tomar forma numa espécie de explosão (pequena, é certo, à escala do seu mercado) dos ditos conteúdos económicos. Primeiro foram os suplementos de toda a sorte (da publi-reportagem à boleia da distribuição dos jornais e revistas, aos cadernos de economia mais propriamente jornalísticos, apesar de a fronteira entre um e outro género ser amiúde muito esbatida), mais dedicados aos mercados dos seus potenciais anunciantes (as empresas) do que a pensar a economia como um sector de bastante maior abrangência (e inerente riqueza socio-antropológica), cujas implicações societais determinam de muitas formas a vida das pessoas e os caminhos históricos da Humanidade (raciocínio marxista, pensarão, e bem, os que olham para a financiarização* de tudo no Mundo como uma inevitabilidade, porventura até mesmo virtuosa).

Depois apareceram os títulos económicos, demasiados para tão pequeno mercado de leitores, revelando a que ponto emanavam de projectos de intervenção (no sentido da instrumentalização) na sociedade que nada tinham que ver com o jornalismo. Apareceram e tomaram conta de uma parte grande do pequeno mundo jornalístico fixado no território europeu continental português. Despedidos os jornalistas do texto longo e da investigação, recrutaram-se estagiários remunerados a três patacas, a quem se entregou a responsabilidade de alimentar os feeds noticiosos da economia do Globo. Tudo o resto secou, muito especialmente a cobertura jornalística às artes, consideradas despiciendas para os novos exploradores de oportunidades de negócios via media – erradamente, pois a Cultura é comprovadamente um sector cheio de futuro económico.

Um dia acordámos e descobrimos que já não havia pensamento crítico de nenhuma espécie, e que as artes especialmente efémeras – como o teatro, ou a música – se haviam tornado ainda mais passageiras pelo facto de não serem já objecto de documentação através da inscrição mediática (sobretudo escrita). Suprimiram-se os colaboradores que anteriormente se dedicavam a escrever com sistematização sobre literatura, música, teatro, cinema. Os ofícios de arte e os temas de política cultural desapareceram do jornalismo. Apenas a gestão da Cultura interessava. Quem conseguia gerir melhor, i.e., quem conseguia lançar mais foguetes com menos dinheiro – mimetizando o que passara a ser feito no plano da governação política, com os Estados e as Nações a ser reduzidos à sua nova dimensão de realidades análogas às empresas e aos mercados, respectivamente.

Nenhuma perspectiva de longo termo, tudo ancorado num presente contínuo sem aparente relação nem com o passado (uma realidade anacrónica em demasia para sociedades cuja auto-representação assenta no juventismo – até mesmo quando a curva do envelhecimento populacional revela algo completamente distinto **), nem com o futuro (uma inexistência, uma abstracção dissociada de qualquer princípio da realidade, dizem-nos os presentistas, o futuro sendo entendido como uma utopia, e nesse sentido sem qualidades ontológicas, sugerem-nos, num desprezo muito questionável pela engenharia das possibilidades que efectivamente constitui toda a utopia).

Tudo (ou quase tudo) na mediatização da Cultura passou a ter a forma de listas, rankings, estrelas, restringindo-se os temas à actualidade e usando-se a memória com valor histórico como mero recurso narrativo desse jornalismo rápido de entretenimento. As pessoas não têm já capacidade para se focarem mais do que umas tantas linhas ou minutos, diz-se e repete-se, e convém por isso dar-lhes uma papa já feita, e em pequenas colheradas, para não enjoar. Quem quiser doses maiores, que compre as pequenas publicações de nicho – quase todas sem excepção mantidas à custa de muita carolice, pedinchice e outras misérias que tão negativamente afectam o jornalismo, e que são especialmente graves quando entramos no segmento (para recorrer à linguagem oficial dos tempos) das artes – de que é exemplo maior a aplicação nesses media especializados, com voluntarismo, até, do chamado Acordo Ortográfico (um acordo de incidência económica celebrado entre o bloco central PS/PSD e uma pequena mas poderosa agremiação de editores e dicionaristas).

 

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A parte boa, como costuma suceder com os processos autofágicos dessa natureza, é que a financiarização expôs o jornalismo a uma ruptura com aquele que foi o seu modelo de negócio ao longo do século XX: a publicidade. A partir daqui, tudo está por construir, não já com base ou em função dos mercados publicitários (de que as revistas e os suplementos televisivos de estética tablóide são um óptimo exemplo sobrevivente) mas com base naquilo que constitui o coração e a missão sempiterna do jornalismo: o de ser um efectivo escrutinador dos poderes e um espelho verdadeiro e tão amplo quanto possível das sociedades (e não apenas de alguns sectores dela, como tem vindo a suceder, com uma ajuda lamentável por parte de alguns títulos ditos “de referência”). Falo portanto de um jornalismo financiado não já pelos anunciantes mas pelos subscritores. Em que a Cultura terá sem dúvida o seu lugar – um lugar tanto maior quanto maior for a capacidade de reposicionar o jornalismo de Língua portuguesa no contexto da Globalização.

*Processo de alteração da estrutura económica e política de uma sociedade capitalista, em que o modelo de acumulação de ganhos se estabelece crescentemente através de diferentes canais financeiros, tendentes a posicionar-se de forma paralela aos canais ortodoxos e a proteger interesses potencialmente especulativos, em detrimento da expansão e desenvolvimento regulares das a[c]tividades produtivas; predomínio, considerado excessivo, do se[c]tor financeiro sobre o capital empresarial (industrial, comercial, ambiental e de serviços), num modelo complexo de organização económica em que as questões e exigências financeiras tendem a permear a governa[ção] e a vida quotidiana dos cidadãos, afe[c]tando a sua soberania política e pessoal; predomínio ideológico e temático das questões financeiras e de mercado sobre as convicções e o discurso quotidiano da vida política e social [fonte: Porto Editora online].

**Em França, onde desde há muito as políticas de fomento à natalidade tentam fazer inverter a curva do envelhecimento, os menos de vinte anos representavam 42% da população em 1750, 31% em 1920 e 24% actualmente. Portugal segue de perto essa tendência: em 1960 havia 708.569 portugueses com mais de 65 anos, em 1991 eram já 1.342.744, e em 2011 os últimos Censos contabilizaram 2.010.064 [fonte: PORDATA].

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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