PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Teoria geral do poema aparecido

reVerso

 

É mais ou menos assim: Era uma vez uma menina de renda (as pessoas da poesia, como os poemas, podem ser de renda) que tinha uma nuvem, e era uma vez um afinador de pianos (que era no fundo um afinador de poemas) que tinha um chapéu preto e uma maleta pequenina cheia de orelhas. Os poemas apareciam no canto do olho da menina, mas podia dar-se o caso de lhe aparecerem – pois os poemas são sempre uma aparição, como todos os poetas bem sabem – nas orelhas (ou seria nos ouvidos?), no nariz (o que podia ser um problema), ou até mesmo na boca – nesse caso poemas com dentes, a boca ali a deglutir com uma enzima chamada ptialina (raio de palavra) as palavras aparecidas, para ali enviadas pelo «coração que pensa», ou pela «cabeça que sente».

E podia continuar assim: As palavras descidas através dos tubos metafísicos da poesia formavam então um bolo poético-alimentar que ficava ali no estômago do corpo que sente a alimentar o coração que imagina. E depois os movimentos peristálticos faziam uma tempestade e…

ReVerso é um espectáculo sobre poesia que é em si mesmo – embora não ensimesmado, muito pelo contrário – um poema. Um poema pequenino que serve para mostrar a poesia às crianças. Estreou ontem e pode ser visto até amanhã (às onze horas da manhã) no Teatro António Assunção, em Almada. A partir de poemas de Alexandre Dale, com Luzia Paramés (a menina) e Sandro Esperança (o afinador).

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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