PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Sobre o discurso de António Costa ao congresso do PS, enquanto como excedentes alemães (*)

excedentes_alemaes_LIDL

 

António Costa teve neste fim-de-semana o seu primeiro verdadeiro momento de glória desde que conseguiu unir a esquerda depois das Legislativas de Outubro do ano passado. É inegável que a sua experiência prática política é o elemento-chave que determina positivamente os seus mais recentes sucessos. A esse capital de conhecimento e de vivência do exercício do poder se ficou grandemente a dever a liderança sábia que Costa imprimiu ao processo de formação da chamada geringonça – bem como  os dias felizes que tem passado à frente do actual Governo.

Mas nem só isso explica a espantosa mobilização em torno de António Costa – uma mobilização que extravasa em muito os âmbitos estritos das pessoas com ligações directas ao PS. Quando ontem discursou durante perto de uma hora, perante o entusiasmo reverencioso da maioria dos presentes (com as honrosas e devidas excepções, caso do bondoso patrão dos patrões – embora não tanto quanto Guterres – e do patrão dos empregados do reviralho), ali a levantarem-se a toda a hora para aplaudir com honras especiais o seu querido líder, Costa demonstrou cabalmente por que razão os neoliberais do PS como Francisco Assis (ou Carlos Zorrinho, embora ainda ande por lá) não têm já ou terão cada vez menos lugar no actual PS.

É que não apenas no actual PS pontuam novos tribunos valorosos como Pedro Delgado Alves ou Pedro Nuno Santos – homens de esquerda, da esquerda moderada que é aquela em que se posiciona o social-democrata PS -, como o actual PS conta com a tutela ideológica de homens que o caminho soarista, de convergência europeia, marcado por compromissos e outros pactos com a financiarização de toda a actividade humana – remeteu para a sombra, coartando a que porventura poderia ter sido uma acção pluralista e democratizadora, num PS que esteve demasiado tempo refém de uma peculiar disputa com o PSD pelo poder de Estado. Não questiono a existência desse combate, mas a estranha forma que foi tomando – fazendo germinar homens como Assis e mulheres como Maria de Belém -, enquanto levava a que o PS se afastasse cada vez mais do ideário que lhe deu o poder de governar o País no pós-25 de Abril.

E sem poder alongar-me muito, uma última ideia. António Costa teve – tem tido – um mérito mais: o de ter arregaçado as mangas para enfrentar com justeza os directórios de Bruxelas e os seus poderes tantas vezes discricionários, de que é exemplo a recente ameaça de aplicação de sanções a Portugal por défices que resultaram da austeridade inconstitucional e criminosa imposta pelo anterior governo – que foi comer, sem hesitações nem outras periclitações do espírito, ao prato já suficientemente esvaziado dos mais fracos. Um prato que aliás aguarda ainda por melhores dias, malgrado os anúncios de Costa e dos seus tribunos – a propaganda precede sempre a concretização política, é uma chatice.

(*) Excedentes à venda no LIDL, tanto quanto sei a preços mais caros que na Alemanha (é preciso transportá-los, pois.).

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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