PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

La Merda

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Se dúvidas houvesse de que o teatro não precisa da entretecedura de uma trama, de conflito entre pelo menos duas personagens compelidas à contracena, de uma estrutura narrativa redonda, de uma cenografia que evoque uma paisagem (realista ou simbólica) e ajude a criar contextos inteligíveis, de luz e/ou de música (ou sons) que façam as vezes daquela ou que ajudem a encenar (um uso infelizmente ainda muito comum do que poderiam ser elementos em si próprios constitutivos de uma criação teatral – isto é, plenamente existentes enquanto materiais autónomos) e, enfim, de meios para pôr tudo isso em cena, La Merda apagá-las-ia, demonstrando com inaudita singeleza a que ponto basta ao teatro dizer a verdade dos sentimentos humanos (que podem ser muito belos ou muito feios), falar do que não se vê, desocultar a memória que ficou agarrada ao corpo (abrindo, pela sua revisitação, as gavetas concretas dos armários simbólicos de esconder o que dói), fazendo enfim do teatro o tão necessário espelho primitivo de nos vermos a nós todos.

E tudo isto que acabei de alinhar numa tão longa frase foi só para dizer que La Merda, de Cristian Ceresoli, interpretada por Silvia Gallerano, que subiu ontem ao palco grande do Teatro Municipal Joaquim Benite (TMJB), em Almada, foi um espantoso momento de teatro de arte, felizmente partilhado com uma sala praticamente cheia, cujos aplausos fizeram ressoar a emoção colectiva que foi ver aquilo: uma mulher nua sentada num banco desproporcionado (como se vindo de uma imagem fixada durante a infância, quando tudo parece tão grande) com um microfone na mão a dizer-nos o que é ser uma mulher baixinha e com coxas grossas na Itália televisionada de Berlusconi (ou no Portugal televisionado de Pinto Balsemão).

«La Merda nasce de uma tentativa desesperada [e esse desespero está lá, na voz profunda e múltipla da actriz a fazer de vários – os seus agressores] de nos tirar da lama, os últimos produtos do genocídio cultural (…) [da] moderna sociedade de consumo», escreveu o autor do texto evocando as palavras clarividentes de Pasolini. Um texto que tem sido objecto de várias distinções, o mesmo sucedendo com a interpretação. Distinções que premeiam o teatro novo, os textos escritos hoje, sobre como é existir hoje em sociedades «atascadas em lama», como escreveu Ângela Pardelha, e bem, no texto que preparou para a folha de sala do TMJB.

Quando ontem à noite saí do Teatro Azul, fiquei com a palavra fome no espírito. A palavra fome que germinou da violência verbal com que a personagem nua em cena ataca um mundo inóspito em que tudo o que é deglutido (os excedentes das nações superavitárias que insistem em enfiar-nos pela goela abaixo) não chega jamais a saciar-nos.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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