PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Culta e adulta

rtp2

 

A RTP2 é inquestionavelmente um óasis no espectro televisivo de Língua portuguesa. Claro, enquanto canal de Serviço Público, cumpre, e bem, a sua missão: oferecer alternativas ao que prevalecentemente existe – e a prevalência de que falo é esmagadora, afuniladora, e, necessariamente, infernizadora das vidas desses tantos milhares de telespectadores para quem a televisão é um escape. Infelizmente, um escape sem qualidades, pois confina-as ao horror do Mundo, aos reality shows que encenam as mais hediondas realidades humanas do nosso tempo, constituindo, nesse sentido, uma prisão. Uma prisão que encarcera os seus espíritos nos piores lugares mentais que imaginar se possa, pois, já se sabe, a realidade é eficaz em contrapor as suas aparições às da imaginação.

Pode considerar-se, talvez com justeza, que a assinatura da nova RTP2 é pretensiosa. Mas essa eventual pretensão é intrinsecamente bastante mais útil que tudo o que possa dizer-se em seu desfavor. Pois numa sociedade inculta e infantil, é preciso ir além dos mínimos. Trata-se, em certa medida, do mesmo princípio que preside à legislação que é criada para combater as desigualdades, os direitos das minorias e os atrasos civilizacionais: é sempre preciso ir um pouco mais além, por forma a contribuir para a evolução das mentalidades, forçando a sua mudança através de incrementos num sentido outro.

Assim, a assinatura da nova RTP2 é um statement: que diz, mais do que aquilo que já é (e basta comparar a oferta da RTP2 com todos os outros canais de tevê portugueses para perceber a que ponto a RTP2 é importantíssima), aquilo que quer ser, o objectivo que persegue: transformar o tempo livre de quem a vê num tempo mais interessante, durante o qual o Mundo se revela maior, mais rico; e, sobretudo, abrir outras possibilidades para as novas gerações,  que as outras tevês confinam a programas que espelham a decadência dos tempos (uma realidade que é hoje global, como se sabe) e em que protagoniza o predomínio das distopias da Anglosfera.

É preciso construir outra coisa. A RTP2 colabora para isso.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 15 de Maio de 2016 by in Patrícula elementar, RTP, Serviço Público de Rádio e Televisão, Sociedade and tagged .

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