PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Ming Il-sung, imperador do planeta Mongo

 

Johnny-Hazard-Volume-1-Cover.jpg

 

Dia 6 de Maio começou, com pompa, circunstância e muitos jornalistas convidados, o congresso do Partido dos Trabalhadores da República Popular Democrática da Coreia. Desde 1980 que não havia um. Desta vez a ‘peste grisalha’ com mais de 60 anos fica à porta, tal como os jornalistas estrangeiros. A ideologia Juche (marxismo-leninismo-kimilsunismo) continua imparável, sob a liderança do jovem Kim Jung-un, o terceiro.

 

A primeira vez que ouvi falar da Coreia do Norte foi através da Banda Desenhada, nos livrinhos do Johnny Hazard/João Tempestade, já não sei se na colecção Condor Popular, se na Ciclone, naquelas duas maravilhosas cores em pequeno formato (105×145 mm). Johnny Hazard foi lançado em tiras de jornal um exacto dia antes do Dia-D, em 1944. Era um piloto da USAF que, depois fugir de um campo concentração nazi, acaba na Guerra da Coreia, onde, além de piloto, é sobretudo um espião e um galã, um super-herói de carne osso cujo traço cativou a minha imaginação pré-adolescente.

Entretanto, da Coreia do Norte propriamente dita, ainda nada. O que era relativamente normal, tendo em conta que naquele tempo a informação internacional não era coisa que o livro único do doutor Salazar cultivasse, por aí além, junto do seu rebanho escolar. Mas lembro-me perfeitamente que, anos mais tarde, quando tomei consciência que a Coreia do Norte era mesmo um país, a primeira coisa que me veio à ideia foi outra personagem de BD — o imperador Ming das tiras do Flash Gordon, criado em 1934 por Alex Raymond e Don Moore. Que, todos os domingos, competia com o Príncipe Valente no jornal que o meu pai comprava e que eu podia finalmente desfolhar por volta da hora do lanche.

Passados todos estes anos, cada vez que ouço falar da Coreia do Norte, penso sempre que não existe tal coisa à face da terra e que é algures no planeta Mongo, local imaginário das intermináveis aventuras do Flash Gordon.

 

book-flashgordonfallofming-raymond-500.jpg

 

Como objecto de curiosidade ocidental, tem havido várias tentativas, até em Portugal, de escrever sobre esse país imaginário. Mas os visitante vêem apenas aquilo que os zelosos funcionários do Partido dos Trabalhadores da República Popular Democrática da Coreia lhes permitem ver. Muito diferente é ler um relato, na primeira pessoa, de uma indígena que conseguiu fugir dali para fora.

As aventuras da fuga, através da China até Seul, não têm um interesse por aí além. O que é realmente interessante é a descrição da vida real.

“O songbun é um sistema de castas que vigora na Coreia do Norte. Uma família é classificada como leal, indecisa ou hostil, dependendo das actividades do seu chefe antes, durante e depois da fundação do estado, em 1948. (…) Dentro destas três categorias mais vastas existem 51 gradações de estatuto, que vão desde a família Kim, no topo, até aos presos políticos, na base.” (pág.s 28-29)

“Cuidar das fotografias era o principal dever de cada família. Eram imagens do Grande Líder Kim Il-sung, o fundador do país, e do seu amado filho Kim Jon-il, o Querido Líder. (…) Desde tenra idade que comecei a ajudar a minha mãe a limpá-las. Usávamos um pano especial, fornecido pelo governo, que não podia ser utilizado para limpar qualquer outra coisa.” (pág. 42)

“(…) a Televisão Central da Coreia transmitia, de forma incessante, programas sobre o Grande Líder ou o Querido Líder em visitas a fábricas, escolas ou herdades, onde proferiam orientações sobre tudo, desde fertilizantes até sapatos de mulher.” (pág. 93)

“Ninguém falava sobre o gulag. Conhecíamos uma família que tinha sido deportada de Pyongyang para lá porque o pai tinha enrolado um cigarro com um pedaço de jornal sem reparar que o rosto do Grande Líder estava impresso do outro lado. Toda a família foi deportada para as montanhas e condenada ao penoso trabalho de cavar batatas na Herdade Colectiva 10.18” (pág. 103)

“Apesar de todas as intromissões nas nossas vidas, o Partido tinha demasiado pudor para nos explicar como a vida começava. (…) Julgava que podia engravidar só por beijar um homem ou andar de mão dada com ele. (…) Nunca tinha visto um beijo nos filmes norte-coreanos. De acordo com a propaganda do Partido, a pornografia era uma perniciosa corrupção estrangeira. Mas aquele vídeo de fazer amor tinha sido feito em Pyongyang para ser vendido no estrangeiro e entre as elites do Partido. Não teria acreditado se a pronúncia dos actores não fosse inequívoca. Nesse dia perdi a minha inocência.” (pág. 113)

“A comida não era a única coisa que faltava. Não havia adubo para as sementeiras. Nas aldeias as crianças eram obrigadas a entregar parte dos seus excrementos à escola para serem utilizados como estrume.” (pág. 120)

 

north-korea-is-going-to-offer-flight-tours-over-pyongyang-in-soviet-era-military-helicopters.png

 

“Era gerente na Loja Departamental nº1, em Pyongyang, que aparecia regularmente nos noticiários da televisão, com prateleiras repletas de produtos coloridos. Mas quando a fui visitar explicou-me que aquelas mercadorias se destinavam apenas a exposição, para impressionar os visitantes estrangeiros.” (pág. 127)

“O bingdu (gelo), ou metanfetamina cristalizada, há muito que substituíra a heroína como meio privilegiado de obter divisas para o estado norte-coreano.” (pág. 229)

É provável que José Luís Peixoto, numa semana de férias, tenha conseguido praticamente o mesmo realismo, no seu caso seguramente poético. Conseguiu, pelo menos, redigir (ia dizer escrever, mas arrependi-me a tempo) 240 páginas que a Quetzal pressurosamente editou, em 2012, sob o título Dentro do Segredo — Uma Viagem na Coreia do Norte. E que, pelos vistos, alguns portugueses compraram. E leram. Nem que tenha sido em diagonal, como costuma fazer o nosso querido líder Marcelo Rebelo de Sousa.

Eu não. Mas li, do princípio ao fim, este relato escrito na primeira pessoa, pela mão do galês David John. E aconselho. Não esperem literatura. Esperem factos, que nunca são coisa de somenos. A meu ver, a realidade é sempre mais importante que a literatura. Se não concordarem comigo, paciência — leiam o Peixoto. Deve ser literatura da boa.

 

1507-1.jpg

A Mulher Com Sete Nomes, História de uma refugiada da Coreia do Norte, de Hyeonseo Lee, c/ David John, Planeta, 2015

 

 

Créditos das imagens:

1 — Johnny Hazard, criado por Frank Robbins para a King Features Syndicate, EUA. Saiu pela primeira vez, em tira de jornal, a 5 de Junho de 1944 e durou, sob diversas autorias, até 1977. Em Portugal, foi editado pela primeira vez em Agosto de 1944 na revista Mundo de Aventuras.

2 — Imperador Ming, da história em tiras de jornal Flash Gordon, criada por Alex Raymond c/ o escritor fantasma Don Moore, para a King Features Syndicate, em 1934. Duraria, sob diversas autorias, até 2003. Raymond criou também, a partir de uma personagem de Dashiell Hammett, o Agente Secreto X-9 (1934-1996), Jungle Jim c/ Don Moore (1934-1954) e o meu preferido Remington “Rip” Kirby c/ Ward Greene (1946-1999).

3 — Não é uma maquete. Nem é Xangai, na China, ou Kobe, no Japão. É a nova Pyongyang para turista ver. O que não se vê, nem uma, são pessoas. Nem automóveis. Nem pássaros, ao menos. Já se sabe que as pessoas e os automóveis só servem para sujar a paisagem. E os pássaros, a havê-los, já teriam sido seguramente comidos. Para enganar a fome.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: