PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Jornalismo para a Globalização

traducteurs

O jornalismo português está moribundo, toda a gente sabe. Os jornais estão a definhar, o número de jornalistas desempregados aumenta a cada mês que passa, os jornalistas perderam nos últimos anos quase todo o capital de credibilidade que detinham junto da opinião pública, ser jornalista é hoje, em Portugal, algo muito diferente do que era antigamente, quando os jornalistas eram respeitáveis profissionais (mesmo quando não eram).

Os despedimentos colectivos ou aparentados têm-se sucedido, um atrás do outro, ao ritmo dos ciclos políticos e das diferentes fases da crise global iniciada em 2008, revelando a que ponto os órgãos de comunicação social estavam reféns das redes e sub-redes dos poderes político e económico. Os jornalistas vão para casa ser desempregados ou precários colaboradores de quem ainda lhes dá de vez em quando trabalho pontual, as mais das vezes pagos com a mesma indignidade com que a profissão tem vindo a ser presenteada pela generalidade da sociedade.

Nas tevês e nos jornais que subsistem espelha-se a decadência do jornalismo português, que não interessa às gerações mais novas, que não mostra e/ou interpreta com a necessária sistematização o que se passa no Mundo (e desde logo o que se passa na Europa, onde os fascismos florescem perante a indiferença dos media), que se limita a “servir” ao público os press-releases e outras informações tal como foram recebidas (de que é exemplo o tratamento que tem sido dado ao anúncio dos montantes movimentados pela rede MB em Portugal, sendo certo que jornalismo seria outra coisa: saber quantas pessoas movimentaram esses montantes, na certeza de que são cada vez menos e que a desigualdade encontra também aí valiosos e válidos indicadores), e que no essencial continua amarrado a uma velha maneira de pensar o Mundo: uma maneira em que Portugal é o Mundo. O que explica que os jogos de futebol, as peregrinações a Fátima e o entretenimento ligeirinho (em que também cabe a política doméstica caseirinha, claro) dominem.

Enquanto isso, sucedem-se os debates em torno do tema da crise do jornalismo, cujos grandes assuntos são sempre os mesmos: o que fazer, como fazer, a necessidade de investir em jornalismo de investigação e na reportagem, e, claro, importantíssimo, os modelos de negócio que poderão vir a sustentar o jornalismo no futuro. Tudo isso está muito bem e é sem dúvida necessário, mas os resultados de todo esse pensamento e de todos esses conhecimentos e experiências tardam. E tardam porque, do meu ponto de vista, os jornalistas ainda não perceberam que, para além das questões das formas e do financiamento do jornalismo, o Mundo em que Portugal era o centro desapareceu. E desapareceu para sempre.

O único jornalismo com possibilidades de vingar de forma sustentada no longo termo, e tendo ademais uma capacidade inédita de resistência às mais tradicionais pressões das classes particulares (políticas, económicas, venham elas de Lisboa, Luanda, Brasília, Bruxelas ou Washington) que habitualmente usam o jornalismo para servir os seus interesses (com o assentimento comprometido de muitos jornalistas que fazem o que for preciso para manterem os seus empregos) será aquele que põe o território português e o que lá se passa no relativamente pequeno lugar que lhe foi destinado pela Globalização.

Um jornalismo que percebe que o único verdadeiro activo (para usar o jargão dos tempos) que detém é a Língua portuguesa. Isto é, o idioma (mas também as suas diferentes identidades e culturas) partilhado pelos 250 milhões de falantes do Português espalhados pelo Globo a quem pode interessar um jornalismo atento e de qualidades intrínsecas, capaz de noticiar, investigar, fazer reportagem sobre todas as sociedades do Mundo. Jornalismo em Português, sobre tudo o que se passa no Mundo. Um mundo em que cabe, necessariamente, Portugal – o seu território, povo, cultura. E inelutavelmente feito em rede, mediante parcerias de colaboração com outros órgãos de comunicação social do Mundo e em que pontuará uma nova e importantíssima classe profissional: a dos tradutores.

Anúncios

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

One comment on “Jornalismo para a Globalização

  1. Carlos Fonseca
    9 de Maio de 2016

    Como é natural de ti própria, um excelente e objectivo texto. Falas de uma actividade e de um grupo sócio-profissional em que te integras e conheces: jornalismo e jornalistas, e das privações e obstáculos que estes profissionais enfrentam.
    O Mundo transformou-se após a queda do ‘Muro de Berlim’, da Perestroika e da Glasnot (não sou comunista mas a existência do bloco soviético servia de anátema ameaçador que impendia sobre as cabeças dos políticos ocidentais (EUA e Europa). Desde o pós-2.ª Guerra, as sociedades no Ocidente protegeram-se desse anátema (URSS) através de modelos sociais avançados. Estes eram consistentes na protecção de direitos laborais, assim como na justiça, no ensino e no sistema de saúde sob suporte de dinheiros públicos – diria, sinteticamente, tratar-se do Estado Social Europeu como desiderato sólido destas políticas dos Pirenéus para o Norte (a Península Ibérica de Salazar e Franco foi excepção).
    Com Thatcher e Reagan, e o mundo livre dos soviéticos, os compromissos sociais de justiça e de equidade começaram a ser deliberadamente demolidos e entrámos pela via do neoliberalismo que, hoje em dia e a cada passo, se está a radicalizar mais ostensivamente.
    A reconversão da China em potência capitalista, a despeito de se auto-designar comunista; os efeitos das novas tecnologias na automatização do trabalho; a globalização dos interesses do capital associados à banalização da pobreza; a estigmatização do medíocre e até do mau do ponto social; tudo isto forma um conjunto de factores que derrotaram um grande número de profissões – talvez os médicos sejam a excepção como últimos artesãos da história.
    Os jornalistas foram arrastados e vencidos, como outros, por este vendaval de há três décadas a esta parte e que se agudiza permanentemente. E os que restam em actividade, ao nível de topo, não passam, na grande maioria, de repugnantes subservientes em relação a interesses do modelo político dominante na Europa e a grupos económicos detentores de sociedades empresariais de comunicação social. O caso da Impresa do Dr. Balsemão é claríssimo exemplo dessa subserviência, quer pela acção de Ricardo Costa, de José Gomes Ferreira e até de um convertido Pedro Santos Guerreiro. No Brasil, a Globo faz exactamente o mesmo: expulsa os honestos e independentes, mantendo e promovendo os dóceis obedientes às ordens de Roberto Marinho, um cooperante comprovado da ditadura militar.
    Jornalistas, jornalistas, mulheres e homens como tu, cultos e capazes de desempenhar a profissão com sentido de neutralidade e respeito pela verdade e pelo interesse colectivo, foram derrubados. Restaram os caudilhos serventuários e ingressaram os pobres e jovens vassalos do recibo verde e do trabalho precário.
    É este o Mundo que, no jornalismo e em outros sectores, será legado aos mais novos, se, entretanto, os povos não se mobilizarem para destruir a nefasta empreitada neoliberal, considerando que, por outro lado, está em processo de desenvolvimento e instalação outra alternativa nefasta, os nacionalismos – a Polónia é um caso a merecer ponderação, mas existem mais.
    Uma saudação amiga, CF.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 8 de Maio de 2016 by in Jornalismo and tagged , , , , .

Navegação

%d bloggers like this: