PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Livro de presenças

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Lugar de passagem, por onde passa quem não mora, um albergue alberga, isto é, hospeda, agasalha, acomoda, mas também encerra, para dizer que oculta. “Pode subir”, diz o segurança, que é também quem entrega as chaves dos cacifos depois de tomar nota do número de cada um na folha de presenças. Presenças que são simultaneamente ausências.

José Tolentino Mendonça refere num texto seu sobre este livro “a natureza da vida simples», ou seja, o osso existencial que efectivamente constitui uma vida despojada dos confortos, conquistas e demais sucessos materiais que dão a outras vidas humanas, distintas das que aqui se evocam, uma aparência de outra coisa.

Nessa folha de presenças, inscrevem-se pois os números das chaves dos ausentes da sociedade, abandonados pelo Estado dos direitos constitucionais que para eles não é de Direito mas de Abandono.”Mesmo que uma época inteira não se dê conta”, citando ainda Tolentino Mendonça, são essas as chaves que facultam o acesso a uma refeição quente, a uma cama numa camarata, a um banho.

“Pode subir”, diz o segurança, e nesse momento essas pessoas sobem o que muitas vezes desceram durante o dia inteiro, ascendendo a um patamar de dignidade que novamente lhes confere estatuto humano. Pelo menos até às oito horas da manhã do dia seguinte, quando voltarem a descer para reencontrar os destinos da rua.

Sucede que cada uma dessas pessoas tem uma vida a acontecer-lhe. Deserdados da fortuna (i.e., frutos da sorte marreca e do destino marcado a que não conseguiram dar melhor volta), tudo (ou muito) neles evoca o passado – apenso a eles como uma lapa da ruindade político-social da Nação. Um Passado sempre ali no Presente a lembrá-los dos revezes, das perdas, do álcool, da metadona, do jogo, revelando a que ponto os ciclos de miséria (também moral) são em Portugal uma questão endémica que é preciso expor a rupturas, para que possam enfim transmutar-se em possibilidades de Futuro.

Partes significantes da História recente colonial portuguesa, mas também visões de soslaio da História das reconfigurações do Leste da Europa no século XX, por exemplo, desfilam pelas páginas deste Pomar como aparições de um Passado denso que nenhuma Europa das bolsas superavitárias consegue apagar – muito pelo contrário: elas são parte constitutiva dessa desigualdade abjecta e desse inaceitável abandono da Democracia, revelando a que ponto as actuais fragilidades democráticas remetem tanta gente para a sombra e para o esquecimento. Até ver. Até que a saturação dessas prisões (de que o albergue é apenas um dos elementos) produza algo novo com qualidades construtivas. Pois algo novo cresce, não há como não pressenti-lo.

Pomar, para dizer os frutos dessas árvores que são parte da nossa floresta humana, é um livro incatalogável. É um livro de testemunhos (40), cuja linguagem está na fronteira entre o jornalismo e a poesia. É um livro que, embora sendo um documento –  pelo conjunto de transcrições testemunhais que inscreve uma historiografia social não-oficial -, é também um poema, e desde logo no título. Como pode ser? E no entanto é.

Rodrigo Barros construiu em Pomar um objecto heteróclito cujas heterodoxias exalam superlativa sensibilidade e bom-gosto – da capa escolhida, com imagem assinada por Vítor Cid, aos excertos de grandes textos da literatura do Mundo que o autor dedicou a cada homem albergado que aceitou contar-lhe uma parte da sua vida.  Um livro cheio de sumo, precioso e raro.

 

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Pomar, Rodrigo Barros
Associação dos Albergues Nocturnos de Lisboa, 2016

213 908 648 (de segunda a sexta entre as 11h e as 16h)
Rua da Cruz dos Poiais nº 10
1200-137 Lisboa, Portugal

 

Imagem: (c) Vítor Cid
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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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