PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

THE BOOKS

Um dia, por mero acaso, nas minhas deambulações pela blogoesfera, ouvi o tema It Never Changes To Stop, do álbum Lost and Safe (editado em 2005). A primeira reacção foi: alto lá, isto merece atenção. Aquelas vozes e sons/ruídos do quotidiano de todos nós, habilmente incorporados e perceptíveis no texto musical, imediatamente me remeteram para um espaço de relacionamento(s) emocional.

 

Mas, comecemos pelas apresentações: Nick Zammuto, guitarrista e vocalista (licenciado em química) e Paul de Jong, violoncelista (de formação clássica), e pelas circunstâncias que os juntaram, curiosamente, ou talvez não, muito parecidas com a sua música. Ambos confiam, generosamente, numa combinação feliz entre o acaso, a sorte e a química.

Em 1999, Nick Zammuto conheceu Paul de Jong, quando um amigo comum descobriu que ambos residiam no mesmo edifício em Nova York. De Jong convidou Zammuto e a sua mulher para jantarem em sua casa, e a química entre ambos, foi imediata.

Zammuto, ficou impressionado com a enorme colecção de minidisks que de Jong tinha em casa: uma extensa audioteca de gravações recolhidas de diversas fontes, ao longo de muitos anos (mais de 35.000 samples devidamente nomeados, centenas e centenas de horas de sons por editar). Nasceu, assim, o dueto de música experimental The Books, que perdurou até ao ano de 2012.

A afinidade entre ambos foi tal, que decorridas apenas duas semanas, concluíram a sua primeira música: Enjoy Your Worries, You May Never Have Them Again.

Nos doze anos seguintes, editaram apenas quatro álbuns de estúdio, um EP e uma compilação, para além de um DVD em 2007 (Play all, contendo treze vídeos de música e três músicas não anteriormente editadas).

A matéria prima dos The Books, assentava em samples – pequenos pedaços de áudio cortados e recortados, o que per si não é nada de novo, mas o modo particular como compuseram a sua música, propõe um estilo musical inclassificável e único, a não ser, o seu próprio.

De Jong (o coleccionador) e Zammuto (o compositor) usavam exclusivamente registos áudio de fontes analógicas: cassetes vídeo ou áudio ou LPs que encontravam em lojas de usados, quando viajavam em digressão. Nunca da Internet. Nada que os seus ouvintes, alguma vez pudessem ter ouvido antes.

Nessas gravações, incluem-se coisas tão diferentes como instruções para meditação de cassetes de auto ajuda, simples notas de uma guitarra baixo ou conversas entre um pai e um filho.

Ao contrário do hip hop e de outros géneros musicais, em que uma “frase” (seja um voz, um instrumento ou um ruído) é repetida em loops, num processo mais ou menos repetitivo e/ou de cariz ornamental, ao longo da música, nos The Books, o sample assume um papel determinante no processo criativo, em que o som ou o registo previamente gravado, constitui o embrião da própria composição, entrelaçando minuciosamente samples e música, como se de uma filigrana se tratasse, fluindo harmoniosamente entre si.

O mais relevante, não é tanto a origem dessas gravações, mas sim a humanidade universal que elas encerram, e que os The Books, através de um processo criativo (cut-up) quase artesanal, revelaram em texturas musicais surpreendentes.

Embora se detectem elementos de música clássica contemporânea, música folk, folk electrónica, avant-gard e influências de sound collage, a verdade é que os The Books nunca ascenderam a lugares mais visíveis na indústria musical (como foi o caso, dos Lemon Jelly ou dos Boards of Canada). A explicação talvez resida no facto de o seu nome ser virtualmente un-Google-able, por um lado e, por outro, na singularidade do material usado nas suas composições, ao ponto de serem apelidados, pela crítica especializada, como uma das melhores Weirdest Bands de sempre. Veja-se a título de exemplo, o mini CD, composto por quatro temas, intitulado: Music for a French Elevator and Other Short Format Oddities by The Books, (editado em 2006), para ser tocado no elevador do Ministério da Cultura Francesa, por encomenda deste.

Seja como for, aqui, na L`Arte dei Rumori, não somos esquisitos.

E isso, faz toda a diferença.

Smells Like Content e An Owl With Knees, também, do álbum Lost and Safe:

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