PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Língua e território na Era digital: anunciar no Facebook

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O maior problema da transição da era analógica para a digital é a cabeça das pessoas, isto é, a mentalidade que faz com que os princípios do pensamento analógico sejam transportados tal-qual para as plataformas digitais. Um exemplo: se eu quiser criar no Facebook um anúncio dirigido ao público global de Língua portuguesa, tenho de definir o meu público-alvo a partir da sua localização geográfica, o que me parece totalmente absurdo, atendendo à actual elevada mobilidade das pessoas.

Uma mobilidade muito incrementada pela desigualdade na distribuição da riqueza, que tem gerado, por um lado,  uma quantidade sem precedentes de fluxos migratórios suscitados pela premência da sobrevivência, e por outro uma constante movimentação de clientes dos mercados do turismo.

Sabemos que não existe já uma relação directa e inequívoca entre um determinado território e a identidade cultural e idiomática das pessoas nele fixadas. O facto de isso não estar espelhado na programação do Facebook relativa à configuração de anúncios de cariz comercial, promocional ou simplesmente divulgador, por forma a atingir um máximo de pessoas que integram um determinado universo humano – neste caso, o das pessoas que lêem, escrevem e falam Português – é totalmente intrigante, sendo certo que não deverá ser demasiado difícil programar a partir dessa premissa, uma vez que bastaria recorrer ao vasto grupo dos utilizadores do Facebook que se expressam em Português.

Assim, se eu quiser alcançar o universo de pessoas a quem podem interessar os textos, ilustrações, fotografias, etc,  que se publicam neste blog, tenho de ir território a território (por exemplo, Portugal, Brasil, Angola – onde contudo também estão pessoas que se expressam noutras Línguas), sendo por outro lado obrigada a escolher também cidades como Paris e Londres, onde, apesar de eu saber que estão muitos portugueses, há muitas mais pessoas que não se expressam em Português.

Dessa forma, se eu criasse um tal anúncio, usando a actual programação do Facebook, teria de gastar várias fortunas para alcançar um máximo de pessoas, sabendo que desperdiçaria muito dinheiro por causa da premissa geográfica, e que o mais certo era ser levada a restringir o meu universo a um determinado orçamento razoável, deixando de fora todos os falantes e escreventes da minha Língua e Cultura que não estão imobilizados nos territórios tradicionalmente atribuídos ao Português.

A ausência de pensamento estratégico e prospectivo sobre as realidades trazidas pela Globalização é uma das razões por que ainda não foi possível criar uma grande plataforma jornalística mundial de Língua portuguesa. O exemplo que aqui refiro, das possibilidades actualmente oferecidas pela rede social Facebook, espelha esse alheamento, pelo constrangimento territorial a que obriga os potenciais clientes comerciais da rede.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 26 de Abril de 2016 by in Economia, Jornalismo, Patrícula elementar, Sociedade, Tecnologia and tagged , , , , .

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